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Manifestação dos moradores de Foz do Iguaçu (PR) cobrando Justiça para a morte de Ademir Gonçalves. (reprodução Facebook)

Manifestação dos moradores de Foz do Iguaçu (PR) cobrando Justiça para a morte de Ademir Gonçalves. (reprodução Facebook)

Marcelo Auler (*)

Manifestação dos moradores de Foz do Iguaçu (PR) cobrando Justiça para a morte de Ademir Gonçalves. (reprodução Facebook)

Manifestação dos moradores de Foz do Iguaçu (PR) cobrando Justiça para a morte de Ademir Gonçalves. (reprodução Facebook)

Talvez faltasse maior mobilização ou mesmo maior interesse dos próprios defensores dos Direitos Humanos, apesar do empenho de alguns grupos de Foz do Iguaçu e da região oeste do Paraná. Trinta dias depois, o provável assassinato de Ademir Gonçalves Costa, de 39 anos, continua sem explicações. Oficialmente, a Polícia Federal da cidade fronteiriça com o Paraguai aguarda que os peritos e legistas de Curitiba definam a causa mortis.

Ademir morreu no sábado, 28 de janeiro, depois de ser retido na guarita da Receita Federal, na Ponte Internacional da Amizade (PIA), em Foz do Iguaçu (PR), quando voltava de Ciudad del Este (PY), na garupa de um mototaxista. Após ser detido, tendo reagido, foi jogado ao chão e algemado com as mãos nas costas, como filmaram alguns transeuntes, e aqui noticiamos em A estranha morte na Aduana. Imobilizado foi levado para a guarita de onde saiu sem vida. Seu corpo apresentava sinais de possível espancamento além de marcas de alergia, creditadas por parentes ao uso de gás de pimenta pelos servidores da Receita Federal. “Ele era alérgico a muitas coisas”, explicou, na época, Thaís Claro Goulart, sua atual companheira.

Nas redes sociais, tanto Thais como Adriana Silva, ex-mulher e mãe dos seus filhos, cobram um resultado e clamam por Justiça. Por iniciativa do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, “no exercício de suas atribuições constitucionais e regimentais, instaurou procedimento para acompanhar denúncia acerca da morte de Ademir”. O presidente da comissão, deputado Padre João (PT-MG) encaminhou ofício à procuradora chefe da Procuradoria da República no Paraná,  Paula Cristina Conti Thá, para que “adote providências para elucidar a conduta dos agentes públicos envolvidos. Solicitamos, ainda, que nos informe sobre as providências adotadas”.

Embora tramite sob o manto do segredo, o Inquérito Policial, presidido pelo delegado federal Renato Obikawa está sendo acompanhado tanto pelo procurador da República, Daniel de Jesus Souza Santos, como pelo advogado contratado pela família, Almir José dos Santos. “Os envolvidos (servidores da Receita Federal), na verdade, foram ouvidos no mesmo dia. Os argumentos deles são os mesmos que foram postos perante a imprensa, de que Ademir reagiu, agrediu, tudo nessa linha. Estamos aguardando o resultado da perícia para tomarmos algum posicionamento”, explicou Santos.

Manifestação da ex-mulher de Ademir, Adriana Silva, mãe de seus dois filhos, no facebook exigindo Justiça.

Manifestação da ex-mulher de Ademir, Adriana Silva, mãe de seus dois filhos, no Facebook exigindo Justiça.

Na manhã desta quinta-feira, 02/03 (10h00) recebi a informação pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná que “as causas patológicas da morte de Ademir já foram identificadas pelo Instituto Médico Legal, mas aguarda-se que a Polícia Científica finalize o laudo toxicológico para fechar o panorama da causa mortis”. A secretaria recomendou que se apresse estas conclusões.

Até o momento, não surgiu nenhuma informação sobre o(s) autor(es) do crime. Todos os servidores da Recita negam o fato e dizem que tudo foi provocado pela vítima. A versão dos que estavam na Aduana naquela tarde/noite de sábado, é de que o próprio Ademir, após reagir à abordagem e ter sido dominado, engoliu a cocaína que, segundo os fiscais da Receita, levava na virilha, entre as pernas. Em consequência, teria sofrido uma convulsão. Como mostramos na reportagem Repeteco na morte na Aduana (PR): “suicídio”, uma versão difícil de acreditar ao se constatar nos filmes feitos por transeuntes que a vítima estava dominada e algemada com as mãos para trás.

A Receita, na nota que emitiu na ocasião, também citada nessa segunda reportagem, falou de um pedaço do saco plástico que a vítima teria expelido:

“Por causa de seu estado alterado foi realizado um primeiro acionamento do Samu. Enquanto aguardava, o homem passou para um quadro de convulsão tendo expelido sangue e um pedaço de plástico pela boca. Novamente o Samu foi acionado tendo sido relatada a mudança de quadro agressivo para de convulsão“.

Quem estava na AduanaReferia-se ao invólucro da cocaína, que a vítima, supostamente, teria aberto com os dentes. Porém, segundo o advogado Santos, “até o presente momento não foi juntado ao inquérito o tal pedaço de plástico que dizem que apareceu na boca dele”.

Um depoimento que está sendo esperado com certa expectativa é o do mototaxista que conduzia Ademir do Paraguai para Foz do Iguaçu. Ele aparece em uma reprodução que o Blog copiou de um dos vídeos do caso.  O advogado Santos garante já tê-lo localizado, mas como ainda não foi ouvido oficialmente, prefere não revelar sua identidade. Além dele, são esperadas outras testemunhas que a tudo assistiram.

Decorridos mais de 30 dias ainda não se sabe, oficialmente, a causa morte de Ademir. Aguarda-se o laudo que está sendo feito em Curitiba com a participação do Instituto Médico Legal da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Isto, apesar do pedido de providências para que o caso fosse agilizado.

Com exceção da iniciativa do deputado Chico Alencar, que resultou no ofício da Comissão de Direitos Humanos e Minorias à procuradoria da República no Paraná (veja íntegra abaixo), o caso repercutiu apenas na região, apesar das articulações feita por movimentos de defesa dos direitos humanos locais como o Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) e o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu. Estes trataram o caso como tortura que resultou em morte.

O advogado da família, porém, promete que não deixará o caso cair no esquecimento. Ele aguarda o laudo, após o que deverá tomar providências, caso perceba a tentativa de encobrirem os reais motivos da morte de Ademir.

“Esse caso não pode ficar impune, ele acabou revoltando toda a cidade. Para garantir a apuração isenta acionamos o Ministério Público. Mas, se ainda assim. ele não for solucionado a contento, tomaremos outras providências, como, por exemplo, denunciar em instituições internacionais. Nesse sentido, a manifestação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, da Câmara é muito bem vinda”, diz.

Ofício da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara À PR-PR

  (*) Reeditada às 10h00 (02/03) para acréscimo de informações.

Apoio:

Advocacia Eny Moreira

4 Comentários

  1. Sergio Domingos Vieira disse:

    Lamentável que esta situação não tenha sido resolvido e os agentes do Estado brasileiro punidos pela morte de Ademir. Mataram Ademir e agora inventam uma série de desculpas esfarrapadas para justificarem suas arbitrariedades. É como fizeram com Vladimir Herzog. Só que naquela época a sociedade não estava anestesiada como se encontra hoje.

  2. João de Paiva disse:

    As imagens mostram Ademir imobilizado, com as mãos para trás. Depois ele foi arrastado e espancado, como mostram o rosto dele completamente deformado e o corpo roxo, cheio de hematomas. A PF e a RFB estão burilando uma versão oficial para esse caso, tal como ocorreu com o aquele, envolvendo o jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto pela ditadura militar-empresarial; naquele episódio a versão oficial de enforcamento – reproduzido numa tosca fotografia – era tão pouco crível que foi desmascarada imediatamente. Agora os PF e agentes da RFB tentam uma versão mais sofisticada para esse assassinato. Pensam eles que vai colar, mas se enganam. Nem a turma da Fraude a Jato conseguiu enganar esse bravo repórter, com a fraude do grampo ilegal e da sindicância manipulada. No caso desse assassinato vai ser muito mais difícil a PF e a RF em placaraemuma versão oficial negando o óbvio: o assassinato de Ademir.

  3. […] Fonte: Morte sem explicação | Marcelo Auler […]

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