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Marcelo Auler (*)

Oficialmente o projeto foi implantado por sete jovens idealistas (entre 22 e 25 anos), em 1978. Ou seja, há quatro décadas.

Na prática, a Escola Oga Mitá começou a ser gestada bem antes, no início dos anos 70. Na época, cinco daqueles mesmo jovens idealistas, junto com outros colegas, em sua maioria estudantes do Colégio Marista São José, dedicavam suas noites ao chamado “Curso Supletivo” que se propunha alfabetizar e formar adultos do Morro do Borel, vizinho ao colégio, no bairro Usina da Tijuca.

Da experiência juvenil surgiram carreiras dedicadas à educação, como dos dois principais fundadores do Oga Mitá: o hoje doutor, professor da Faculdade de Educação da UERJ, Aristeo Gonçalves Leite Filho, e sua então esposa, Márcia Costa Rodrigues. Embora formada em arquitetura, foi na área educacional e cultural que ela projetou sua carreira, na qual persiste como gerente cultural do SESC nacional.

Do esforço dos dois, no início respaldado pelos sócios, posteriormente apoiados por uma boa e fiel equipe – há professores que contabilizam 36 anos na escola – o projeto resistiu e sobreviveu às crises de toda sorte e forma. Em especial as econômicas.

Os sete fundadores da escola: além de Aristeo Leite Filho e Márcia Costa Rodrigues, José Luís Bello, Jorge Chami e Solange Vereza, Rogério Dardeau e Regina Carvalho.

Ao lembrar-se desse início, Aristeo Leite Filho fala da cumplicidade daqueles jovens amigos de infância que “sonharam com um projeto que caminhava na contramão da história. Sabiam que nada seria tão simples, mas tinham a convicção de que ‘sonho que se sonha junto é realidade‘.”

Não foi fácil. Porém, ao longo destes 40 anos persistiram os ideais iniciais, ainda que devidamente atualizados e adaptados à evolução da sociedade e da própria educação. A sobrevivência da ideia constitui-se, sem dúvida, em um dos troféus da resistência.

 Para isso fez-se fundamental a coparticipação dos pais e mestres que ajudaram a superar os momentos difíceis que não apenas a escola, mas a sociedade vivenciou.

Foi o que permitiu contabilizar mais de 4 mil crianças e adolescentes passando por suas salas. Muitos chegaram ali bebês, na educação pré-infantil. Ao saírem, adolescentes, estavam despertos para a vida.

Nessa longa convivência não apenas foram educados no sentido clássico do ensino escolar. Afinal, Oga Mitá jamais foi uma escola voltada a preparar alunos para concursos – fossem vestibulares ou outros quaisquer. O objetivo maior era formar cidadãos, prepará-los para a vida em sociedade.  E, principalmente, para influenciarem nesta mesma sociedade.

Também no corpo docente o aprendizado foi grande. E mútuo. Não há um cálculo certo de quantos estagiários, professores iniciantes e professores já experientes circularam pelas salas dos cinco prédios que a escola já ocupou – no Grajaú, na Tijuca, no Andaraí, em Vila Isabel e na Usina da Tijuca. Nestes dois últimos permanece até hoje.

Foram muitos os aprendizes de mestre que ali consolidaram suas carreiras e depois ganharam o mundo. Hoje atuam em redes públicas e privada de ensino, universidades e até em organizações não governamentais. Muitos deles mantêm o vínculo afetivo com a escola onde iniciaram.

Algumas de suas professoras, porém, se tornaram “prata da casa” pelo tempo de vida que dedicam à escola. Iniciaram tão jovens que acumulam mais anos dedicados à Oga Mitá do que à família que formaram posteriormente. Caso de Valéria Barros. Ela, entre o jornalismo no qual se formou e o magistério que já exercia, optou pelo segundo. Com 36 anos na escola, sempre é questionada de como resistiu todo esse tempo, não apenas no colégio, mas principalmente em sala de aula. A resposta embute o sentimento que move quem não fez do trabalho mero meio de subsistência:

Sá Viana, 20: o primeiro endereço

Nossa escola é marcada pela resistência. E a vida, nesses anos todos, nunca foi igual. Foi construída a cada dia pelas muitas mãos e corações que passaram por aqui. Se tivesse que definir minha experiência nesses anos todos com uma palavra, ela seria Vida!“.

Relembre-se que em 1978, quando do primeiro ano letivo, o país permanecia sob a ditadura imposta pelo golpe civil-militar de 1964. Na sociedade, porém, já eram nítidos os sinais de inconformismo e insatisfação. Começavam os movimentos exigindo mudanças. Denunciava-se as prisões e torturas. Cobrava-se eleições diretas para os executivos estaduais e federal (além de prefeitos das capitais). Clamava-se pela anistia aos presos políticos. Pregava-se o fim da censura e a liberdade de expressão.

Nesse clima, a escola Oga Mitá “nasceu com um projeto que tinha a democracia como um dos seus princípios: a democracia da escola, a democracia na escola, a participação como uma opção política”, como explica Aristeo Leite Filho.

Desde os primeiros momentos de seu funcionamento – inicialmente na casa 20 da Rua Sá Viana, no Grajaú, zona Norte do Rio -, o espaço que teoricamente se destinava à educação transformou-se também em foco da luta pelo estado democrático de direito e em busca de melhorias sociais.

A Oga Mitá não apenas educava e formava alunos. Criou todo um conceito de participação dos pais e professores. Extrapolando seus muros, aglutinou moradores do bairro e de movimentos sociais, em prol de lutas importantes da sociedade. Sem falar na defesa intransigente da nossa cultura. Da brasilidade.

Algo que começou na escolha do seu próprio nome, que a muitos soou – e soa – estranho. “Uma homenagem aos verdadeiros donos desta terra”, explicam os documentos que relatam a história da escola. Oga Mitá, em uma adaptação do tupi-guarani, corresponde a “Casa da Criança”.

A homenagem aos indígenas estendeu-se ainda na forma como as turmas foram identificadas. Os tradicionais números foram deixados de lado. Cada grupamento de alunos foi batizado com o nome de uma tribo. Nome que permaneceria ligado ao grupo do primeiro dia de aula até a formatura final.

Jamais houve repetição. Ao longo destes 40 anos, 71 tribos indígenas batizaram as turmas que passaram pela escola: “a escolha de um nome, em vez de número, indica a individualidade e continuidade de cada turma”, dizem os responsáveis pelo colégio.

Uma opção que motivou professores e alunos a estudarem não só a história dos primeiros habitantes do nosso território, como também debaterem, constantemente, a forma como a sociedade lida com questões relacionadas aos indígenas, mas também aos povos primitivos. minorias, marginalizados e/ou excluídos.

Ao mesmo tempo em que se tornou palco de debates sobre a sociedade e na luta pelo retorno à democracia, transformou-se em cenário irradiador cultural. Em sala de aula promovendo o estudo de movimentos brasileiros, na música, no cinema, na literatura – são constantes as feiras de livros e de leituras – e no teatro.

Extrapolando suas salas de aula, familiares dos alunos e moradores dos bairros próximos contaram até com cineclubes, muito em voga naquela época. Além dos constantes debates, seminários, etc.. O que jamais faltou aos pais foram as convocações para reuniões, encontros, debates, feiras, exposições, gincanas e, como não poderia deixar de ser, festas.

Tudo junto e misturado contribuiu para a mobilização e organização da sociedade. Ou de parte dela. Fosse abrigando as associações de moradores – na época um dos polos de engajamento na luta por direitos e por melhorias de vida -, fosse aderindo a campanhas públicas. Desses encontros surgiu, por exemplo, o Cereno – Centro de Estudos da Região Norte, ONG criada pelos movimentos sociais que se reuniam na escola.

Já nos anos 80 abrigou uma feira de alimentos orgânicos. Na década de 90 foi parceira da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, coordenado por Herbert José de Souza, o Betinho. Desta forma, a escola teve participação ativa no projeto de integração favela e asfalto da grande Tijuca. Da comunidade do Borel, por exemplo, veio o mestre em “Dança de Rua” (Street Dance) que treinou diversos alunos da escola. Com direito a apresentações públicas, em geral na Praça Afonso Pena, na Tijuca.

No bojo deste engajamento, ao lado de lideranças comunitárias da região participou da criação – acolhendo-a em seu prédio da Rua Conde de Bonfim por um certo período – da Rádio Grande Tijuca, que hoje tem vida própria, independente. Não por outro motivo, com orgulho, seus fundadores afirmam:

“A história da Oga Mitá traz dentro dela muitas e muitas outras histórias, das milhares de pessoas que passaram por aqui, realimentando um sonho antigo que a realidade não consegue destruir. De 1978 até os dias de hoje, enfrentamos crises, festejamos conquistas, lutamos por um mundo mais justo, modificamos histórias, inventamos outras e resistimos aos apelos de um sistema que nos empurra para o individualismo, o consumismo, a estagnação. Resistência tem sido nossa palavra de ordem“.

Uma resistência que persiste – e renasce – nos dias atuais quando a sociedade brasileira assiste a perda de direitos, de políticas econômicas e sociais conquistadas diante de muita luta desde o golpe civil-militar que impôs a ditadura ao país. Luta essa na qual a Oga Mitá, desde sua fundação, teve papel de destaque.

Não por outro motivo que a escola tem o que comemorar. O faz, com uma série de seminários e debates – abertos por uma palestra de Frei Betto, “Educação e Resistência” – na perspectiva de discutir propostas de luta para resistir ao desmantelamento do estado democrático brasileiro, “sem resistir às mudanças necessárias, diariamente”. Enfim, dar continuidade à mesma luta que há 40 anos motivou aqueles jovens idealistas. E que resistiu a todas as intempéries destas quatro décadas de existência. Com louvor.

(*) Sou testemunha de toda a criação da Escola Oga Mitá, participando dela desde o tempo em que atuei no Supletivo do Colégio Marista São José. O texto acima é uma homenagem aos que tocaram o projeto ao longo destes 40 anos e, ao mesmo tempo, um agradecimento pela “formação” das minhas três filhas. Todas “ex-sempre-alunas da Oga Mitá”.

 

 

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