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Marcelo Auler, de São Bernardo do Campo (SP)

Lula recebeu apoio e solidariedade de cineastas. Foto Julia Dolce – Brasil de Fato

Na esperteza de sempre, depois de uma condenação sem provas, apenas por convicção e atropelar a legislação criminal e o próprio acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região,  determinando a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem o trânsito em julgado do processo no TRF-4, o juiz Sérgio Moro quis mostrar-se generoso, oferecendo a chance dele se apresentar até às 17hs desta sexta-feira (06/04) na Polícia Federal, em Curitiba (PR). Foi, porém, um jogo com segundas intenções.

É uma generosidade “melíflua, isto é, melosa, falsa” definiu Paulo Sérgio Pinheiro – doutor em Ciência Política, ex-secretário de direitos humanos do governo de Fernando Henrique Cardoso – enquanto esperava em uma das salas da diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, em São Bernardo do Campo (SP), sua vez de encontrar Lula, na manhã desta sexta-feira.

Pinheiro, junto com o cientista político e historiador Luiz Felipe de Alencastro, eram apenas mais dois entre dezenas de pessoas que conseguiram alcançar as salas da diretoria do sindicato na expectativa de abraçarem Lula. A fila era grande, mesmo entre esses “felizardos”. Políticos de esquerda – de diversas tendências e partidos – presidenciáveis como Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávilla (PCdoB). Na véspera, quinta-feira, ele recebeu Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes (PDT). Também marcaram presença ex-sindicalistas como Luiz Antonio Medeiros, outrora adversários de Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, além de intelectuais e antigos amigos.

Lula passou a manhã trancado em uma sala na qual conversou em particular com seus filhos. Ali também recebeu a solidariedade de amigos antigos, como Frei Betto. No final da manhã foi a vez de abraçar duas freirinhas, uma delas com 80 anos, conhecida de longa data. Foi abraço de velhos conhecidos. Mas nem os mais próximos souberam dizer quem elas eram.

Recebeu cineastas como Ana Muylaert, Petra Costa e Laís Bodanzky e alguns artistas.

A solidariedade partiu também de políticos de outras legendas. Além dos petistas e de tradicionais aliados, como a direção nacional do PCdoB vieram os novos. O presidente nacional do PSOL, o gaúcho Juliano Medeiros, e  Valério Ascary, liderança do Grupo Mais, dissidência do PSTU que hoje é uma corrente psolista. Na quinta-feira estiveram com ele os deputados Ivan Valente e Luiza Erundina (ambos de São Paulo). Nesta sexta, Glauber Braga (PSOL-RJ).

Bem humorado, Lula consola – Por volta de 13h20 Lula saiu da sala e circulou pelos estreitos corredores abraçando quem foi ao Sindicato levar solidariedade. Foi quando ele conseguiu cumprimentar Pinheiro e Alencastro, já às 13h30.

Com eles conversou alguns minutos trancado em uma sala. Mas muitos dos que o esperaram tiveram que ter mais paciência. Os cumprimentos foram interrompidos para uma reunião rápida com o advogado Christiano Zanin. Certamente para discutir estratégias.

Lula em todos os momentos aparentou boa disposição. Na sala onde as conversas foram reservadas, ao receber o apoio de dois velhos amigos, um deles sindicalista, os viu chorar e saiu a consolá-los.

“Calma gente. Estou bem. Estou em forma. Olha aqui como estou bem”.

Em outro momento, manteve o humor. Comentou, por exemplo, com um dos presentes, com o qual marcara uma conversa na próxima segunda-feira (09/04):

“Querido eu marquei de conversarmos, mas acho que o Moro é seu inimigo e quer impedir a nossa conversa”.

Outros tantos amigos, conhecidos e partidários sequer conseguiram passar do andar térreo do prédio. Quantidade maior de populares – que se renovavam -, cercava a sede do sindicato, ainda que em um volume menor do que o esperado pelas lideranças políticas e dos movimentos sociais, como João Pedro Stédile, coordenador do MTST.

Mas novos grupos continuavam chegando ao início da tarde. Muitos saíram de seus estados durante a madrugada. Outros foram para o sindicato à medida que terminavam a jornada de trabalho.

Houve ainda um problema adicional na sede do sindicato. Não o creditaram à uma fatalidade, mas a um boicote: cortaram a água do prédio. Foi preciso comprar água mineral para distribuir ao público presente.

Jogada de Moro -Recorrendo-se aos dicionários verifica-se que melíflua – do latim melliflŭu – pode soar a todos com um agrado, mas na verdade acaba sendo uma forma de “conseguir vantagem”. Este era o entendimento de Pinheiro e também de Alencastro. Ou, como outro dos presentes no Sindicato definiu, uma “generosidade capciosa”

Moro, ao alegar respeito ao cargo de ex-presidente e oferecer de o próprio se apresentar na Polícia Federal, em Curitiba, até às 17H00 desta sexta-feira, quis sim facilitar seu trabalho e o da própria Polícia Federal. Como sabia que já não adiantava recorrer às operações sigilosas, no final de uma madrugada, sempre com a cobertura da imprensa, por correr o risco de encontrar resistência dos amigos, partidários, admiradores ou mesmo pessoas que simplesmente se posicionam contra seus métodos e artimanhas, tentou que Lula lhe facilitasse a vida.

Mas, a “generosidade”, inclusive, veio pela metade. Ele ofereceu de o ex-presidente ir a Curitiba, esquecendo-se de lhe dar os meios. Como processado e condenado por Moro, Lula tem suas contas bancárias bloqueadas e, como disse a amigos, não teria nem condições de pagar passagem de avião. Menos ainda de fretar um voo.

Todas suas recentes viagens, marcadas a partir de decisões partidárias, foram pagas pelo Partido dos Trabalhadores que, além de não poder, legalmente, não tem o menor interesse de bancar o deslocamento dele para Curitiba.

Isso, caso pudesse entrar em um voo de carreira sem o risco de sofrer agressões da parte da população que, inflada pela mídia golpista, aprendeu a esculachar adversários publicamente. Que o diga o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

Mas, o ato de apresentação também era analisado entre os adeptos de Lula como um sinal de “rendição”, aceitação do jogo. O que significaria para Moro uma vitória diante de seu público. Isto, definitivamente, o ex-presidente não pretendia fazer até o momento em que escrevíamos esta postagem.

A decisão será pessoal. Mas enquanto ele se reunia com os visitantes, em outras salas lideranças e advogados dos movimentos sociais que formam a Frente Brasil Popular discutiam possíveis saídas. Ninguém nutria qualquer esperança nos recursos jurídicos apresentados pela defesa de Lula ao STJ pedindo respeito ao próprio acórdão do TRF-4, do qual os advogados do ex-presidente nem mesmo foram intimado.

A discussão girou em torno de duas opções. A primeira de Lula ficar no sindicato e aguardar a chegada da Polícia. Para isso, seria necessário descobrir uma forma de evitar. Outra seria apresentar-se à Polícia Federal, hipótese menos provável, por significar rendição.

Lula se preparava para um pronunciamento público. Possivelmente por meio eletrônico. Mas, sendo Lula quem é, tudo era possível até o momento em que ele decidisse falar.

 

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4 Comentários

  1. Ari Couto disse:

    Mais uma vez, profundamente decepcionado com o PT e seus líderes. Um discurso bonito para embelezar biografia. Só. Não consigo entender um homem que se entrega a seus algozes tendo a opção do exílio para continuar a luta

  2. C.Poivre disse:

    A nossa “justissa” concede aos corruptos-golpistas (pleonasmo) o primeiro benefício que é requerido para se manterem livres, leves e soltos, como estão MT e sua quadrilha, o Mineirinho, o Aloísio-500mil, o Santo, o Careca e toda as cúpulas nacional e estaduais da tucanalha. Com Lula, não só são negados TODOS os recursos, como o próprio “sistema judissial” infringe todas as leis vigentes(?) para tirar sua liberdade e humilhá-lo. Lula não pode se entregar. A sua resistência à prisão deve ser ampliada e transformada numa rebelião popular para depor os golpistas e reinstituir a democracia no país, ora sob uma ditadura midiático-judicial.

    http://justificando.cartacapital.com.br/2018/04/06/lula-tem-o-direito-e-o-dever-de-resistir/

  3. C.Poivre disse:

    O Presidente Lula não deve se entregar nunca! No limite deveria buscar asilo político no Uruguai e só retornar quando as mínimas condições jurídicas forem restabelecidas. Sua candidatura presidencial, neste momento, deveria ficar em segundo plano.

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