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A história quando se repete é farsa… 2016 não é 1989!

Marcelo Auler

E, 1989, toda a acirrada disputa do primeiro turno entre Lula e Brizola, não impediu que a esquerda, unidca - na foto também Mario Covas - unida enfrentasse o segundo turno.Na eleição deste domingo (02/10/2016, ) a situação é diferente.

Em 1989, toda a acirrada disputa do primeiro turno entre Lula e Brizola não impediu que a esquerda, unida (na foto, vê-se  também Mario Covas à esquerda), enfrentasse o segundo turno. Na eleição de amanhã, a situação é diferente.

A 24 horas das eleições municipais, olhando o quadro nas duas principais cidades do país, recordei o que vivenciamos no Rio de Janeiro em 1989, na primeira eleição direta para a Presidência da República depois da ditadura militar.

Naquela disputa, principalmente no Rio de Janeiro, onde Leonel Brizola tinha força, a esquerda se deu o direito de se dividir no primeiro turno. Era algo até normal, depois do longo período de ressaca, sem eleições diretas, imposto pelo golpe civil-militar de 1964.

Às vésperas do primeiro turno, quem entrasse no Restaurante Lamas, no bairro do Flamengo, encontraria os clientes divididos fisicamente em fileiras de mesas: de um lado, os brizolistas; do outro, os lulistas. Praticamente todos se conheciam. Afinal, haviam lutado juntos contra a ditadura, cada um em sua trincheira. Eram torcidas barulhentas, cada qual gritando suas palavras de ordem e tentando superar a dos adversários. Foi uma bonita festa. Assim como foi acirrada a disputa entre os dois, voto a voto, até se delinear que Lula representaria a esquerda no segundo turno, contra o novato Fernando Collor de Mello, do então PRN.

O segundo turno foi uma luta desigual, tal como ocorreu agora com o golpe contra Dilma Rousseff, que feriu o Estado Democrático de Direito. A grande mídia apoiou e sustentou o chamado “caçador de marajás”. Era, segundo essa mídia tradicional e conservadora, o “salvador da pátria”, após o final desastroso do governo de José Sarney (PMDB). Recorde-se às gerações mais novas que estávamos distantes dos tempos de internet, Facebook e redes sociais. O forte na campanha era a televisão, tanto assim que a TV Globo, na véspera do pleito, apresentou uma reportagem toda manipulada sobre o debate dos dois candidatos, o que prejudicou ainda mais a Lula.

Ao contrário de 1989, na eleição de domingo, 02/10, há o risco de candidatos à esquerda ficarem fora do segundo turno. Entregaremos a prefeitura das duas principais cidades a aliados do golpe já no primeiro turno?

Ao contrário de 1989, na eleição deste  domingo, 2 de outubro de 2016, há o risco de candidatos à esquerda ficarem fora do segundo turno. Ou apostamos na possibilidade de Fernando Haddad (SP) e Marcelo Freixo (RJ) chegarem ao segundo turno ou estaremos entregando, já no primeiro turno, as prefeituras das duas principais cidades do país a aliados do golpe que destituiu Dilma Rousseff.

Mas, ao contrário do que ocorre hoje, no primeiro turno daquele pleito, não só por conta do exagerado número de candidatos (22) como pelo sentimento de oposição após anos de ditadura militar, as chances de a esquerda ficar fora do segundo turno eram pequenas. Afinal, até os conservadores de hoje, como Roberto Freire (PPS) e o próprio Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que só não apoiou Collor de Mello por conta das posições firmes de Mario Covas, apresentavam-se como tal, isto é, de esquerda. Eram mínimos os riscos das chamadas “forças progressistas” não serem representadas no segundo turno.

Esta é a principal diferença com as eleições deste domingo, 2 de outubro, quando estarão em jogo prefeituras de cidades importantes. Vivemos um período totalmente distinto, em que setores da esquerda – o PT, principalmente – foram demonizados pela mídia, com ou sem razão. Além disso, partidos que eram ideologicamente “progressistas”, como o PDT de Brizola, hoje se juntaram a políticos que não se preocupam com qualquer posição ideológica.

Quem poderia imaginar Cidinha Campos (PDT), a deputada que nunca fugiu de uma briga, apresentar-se como candidata a vice de Pedro Paulo, o candidato de Eduardo Paes, Jorge Picciani, Pezão e todos os golpistas do PMDB no Rio, que desrespeitaram os 54 milhões de votos dados a Dilma Rousseff? Alguém é capaz de definir a posição ideológica do candidato? Não duvido que, apesar de cassado com a ajuda de seu antigo aliado, Eduardo Cunha ainda o apoie. Duvido menos ainda que, em vida, Brizola e Darcy Ribeiro permitissem aliança com políticos que apoiaram o golpe do impeachment e, com isso, feriram a democracia que eles ajudaram a reconquistar, inclusive com sacrifícios pessoais.

Há de se ter em mente que a esquerda tem hoje um inimigo comum: os golpistas que derrubaram uma presidente eleita democraticamente, acusando-a de um crime que não cometeu. E o que vemos é a esquerda, mais uma vez, se digladiar, sem se incomodar com o fato de que isso só beneficiará aqueles interessados no poder. Ajudam a políticos que antes de se preocuparem com o bem público visam a seus interesses pessoais, quando não interesses escusos.

Deixar um João Dória (PSDB) e um Celso Russomanno (PRB) disputarem sozinhos a prefeitura de São Paulo no segundo turno é algo inimaginável. O mesmo se pode dizer com relação ao Rio, onde, se a esquerda não se unir (ainda que por meio do famigerado voto útil, que jamais imaginei defender), teremos Pedro Paulo (PMDB) enfrentando Marcelo Crivella (também do PRB) no segundo turno.

Perderemos a chance de levar – aqui no Rio, até mais do que em São Paulo – um representante das forças progressistas a uma disputa com possibilidades reais de conquistar a prefeitura, dada a rejeição que Crivella sempre teve por estar umbilicalmente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

Não podemos esquecer que estes quatro – Dória, mesmo sem ser parlamentar, Russomanno, Crivella e Pedro Paulo –  estão do lado de Michel Temer e dos golpistas que derrubaram Dilma Rousseff. No Rio, então, a situação é mais gritante, pois os dois candidatos locais se beneficiaram das gestões dela e dos governos do PT.

Paes, Cabral, Pedro Paulo e Pezão se beneficiaram dos governos Lula e Dilma; Crivella, apoiou Lula e e foi ministro de Dilma. Mas todos estão hoje com o governo golpista de Michel Temer.

Paes, Cabral, Pedro Paulo e Pezão se beneficiaram dos governos Lula e Dilma; Crivella apoiou Lula e e foi ministro de Dilma. Mas todos estão hoje com o governo golpista de Michel Temer.

Crivella esteve ligado ao governo Lula, cujo vice-presidente, José de Alencar, o ajudou a fundar o PRB. Depois, foi ministro de Dilma. Pedro Paulo participou do governo de Eduardo Paes, a quem serve de “escudeiro” (e vice-versa). Um governo cujos resultados positivos estão intrinsecamente ligados ao apoio não apenas financeiro dispensado pelos petistas que estavam no Palácio do Planalto. Curioso é que eleitores do Rio que foram às ruas gritar contra a corrupção hoje apoiam o PMDB, esquecendo-se do envolvimento de Sérgio Cabral e sua trupe nas bandalheiras que estão sendo denunciadas. Onde a coerência?

Não resta dúvida que políticos como Alessandro Molon (Rede), Jandira Feghalli (PCdoB) e Luiza Erundina (PSOL) têm o direito de tentar conquistar os eleitores com suas propostas políticas. Aliás, em recente encontro casual, no lançamento de um livro de Frei Betto em São Paulo, declarei meu apoio à candidatura de Erundina, mulher de fibra, que impõe respeito pela vida coerente que sempre teve e pelas ideias que defende. É uma excelente candidata, mas não conseguiu transpor o conservadorismo dos eleitores paulistanos. Hoje, fosse eu eleitor em São Paulo, votaria em Fernando Haddad, com todas as críticas que tenho ao PT, porém reconhecendo a gestão dele à frente da prefeitura.

O mesmo posso dizer de Molon, outro que merece respeito por sua coerência política e retidão de caráter. Mesmo quando esteve no PT não aceitou as coligações e alianças com o lado espúrio da política fluminense, nitidamente calcados em interesses mais pessoais do que coletivos – o que marcou os petistas cariocas com a famosa alcunha de “partido da boquinha”. Mas, pelo que o próprio Molon constata na pele, sua opção partidária ao deixar o PT não encontrou respaldo nos eleitores do Rio.

Com relação a Jandira, que apoiei para senadora, me posicionei contra a perseguição que sofreu, principalmente das igrejas, por sua defesa do direito ao aborto. Mesmo admirando sua carreira política, discordo das posições de seu partido (PCdoB) assim como discordei do PT do Rio de Janeiro, em especial nas alianças que fizeram ao longo dos anos, muitas vezes ditadas por interesses outros, como ocorreu com o apoio a Garotinho e a Sérgio Cabral/Jorge Picciani. O ideal seria que Jandira, Freixo e Molon se unissem ainda no primeiro turno, o que não foram capazes de concretizar.

Não há como sonhar em desistência de candidaturas. São os eleitores que devem decidir o que fazer na urna eleitoral para tentar garantir representantes de esquerda no 2º turno.

Não há como sonhar em desistência de candidaturas. São os eleitores que devem decidir o que fazer diante da urna para tentar garantir representantes de esquerda no segundo turno.

Decisão do eleitor – Não vou sonhar com a retirada de candidaturas. Isso não costuma ocorrer e o resultado prático é desconhecido. Mas acho que o eleitor que se preocupa com questões sociais nesse país – independentemente da legenda partidária de sua preferência – precisa decidir seu voto de domingo de olho na situação nacional, ainda que ele seja para governo municipal. É do eleitor que se espera ajuda para derrotar determinados clãs políticos, como o PMDB no Rio, de passado nebuloso, e aventureiros como Dória e Russomanno na capital paulista.

Pensando assim é que defendo publicamente o voto em Marcelo Freixo (PSOL – 50) para a prefeitura carioca e a continuidade de Fernando Haddad (PT – 13), em São Paulo. São candidatos dos quais não se pode falar mal – Haddad fez uma administração digna, voltada para os mais necessitados – e que podem representar uma caminhada à esquerda rumo a novas alianças e novos compromissos por aqueles que se preocupam com o país após o golpe do impeachment. Freixo representa, com sua legenda política, a esperança de um governo voltado para atender às necessidades das camadas mais desfavorecidas da sociedade, o que não ocorreu nos governos peemedebistas. Ou seja, ambos merecem o apoio daqueles que querem mudanças profundas no modo de se governar uma cidade, um estado, um país.

Escolha dos vereadores, início das mudanças que podemos provocar

A mesma preocupação é necessária na eleição dos vereadores. Neste pleito já não há mais aquela prática de que um candidato bem votado ajuda a eleger outro de sua legenda com menor número de votos. As mudanças da legislação promovidas por Eduardo Cunha e seu grupo obrigam os candidatos a ter, no mínimo, 10 % dos votos para conquistar o mandato, mesmo que o partido atinja o chamado coeficiente eleitoral. Caso contrário, a vaga no parlamento municipal será preenchida por outro partido que tenha candidato com os 10% dos votos. Portanto, para não se votar em uma legenda e se beneficiar outra, é preciso escolher candidatos e apostar neles. Votar no número completo e não apenas na dezena do partido.

Cristina Biscaia: votarei nela para ajudar a mudar o perfil da Câmara dos Vereadores.

Cristina Biscaia: votarei nela para ajudar a mudar o perfil da Câmara dos Vereadores.

Eleitor do Rio, tentarei levar para a Câmara Municipal a novata Cristina Biscaia (PSOL – 50130), pelas propostas dela, pelo trabalho que se dispõe fazer e por ser uma novata. Defendo sim a renovação. Mas, confesso, gostaria de poder ajudar outros nomes que já demonstraram nos mandatos que exerceram dignidade, compromissos com uma cidade mais justa e dedicação à luta contra as injustiças sociais, que são gritantes.

Relaciono entre estes o médico Paulo Pinheiro (PSOL-50111), que já mostrou muito serviço tanto na Assembleia como na Câmara.  Outro com experiência que merece retornar ao Palácio Pedro Ernesto é o petista Reimont Luiz Otoni Santa Barbara (PT 13333). Embora seja um político integro, com passado ilibado, poderá ter dificuldades por conta da demonização dos petistas feita pela mídia conservadora, atingindo indiscriminadamente políticos sérios e honestos. Como aconteceu com Reimont. Há, ainda, mais um novato que vale a pena ver na Câmara, até por tudo que mostrou na belíssima campanha à prefeitura , há quatro anos: Tarcísio Motta (PSOL – 50123).

Tracísio Motta, Reimont e Paulo Pinheiro, bons candidatos a vereador para quem ainda não escolheu o seu.

Tracísio Motta, Reimont e Paulo Pinheiro, bons candidatos a vereador para quem ainda não escolheu o seu.

Enfim, é uma questão de escolha pessoal. Mas merece atenção e cuidado para não se levar gato por lebre e depois reclamar que a política é suja e só tem corruptos. Se defendemos mudanças nos legislativos do nosso país, neste domingo, devemos começar a provocar estas mudanças com os nossos votos, selecionando gente séria e comprometida. Com isso, estaremos derrubando velhas patotas de caciques que dominam a política há muitos anos apenas para benefício pessoal ou de seu grupo.

O apoio a Pedro Paulo significa a manutenção de um esquema conhecido dos cariocas, no qual estarão sempre Eduardo Paes, Jorge Picciani, Moreira Franco, Sérgio Cabral e Eduardo Cunha. Reflita. São os mesmos responsáveis pelo caos que se instalou não apenas no município, mas no estado como um todo. Portanto, ao confirmar o voto na maquininha, pense antes se lhe interessa manter o que aí está ou se vale a pena apostar na mudança. Ela pode começar com o seu “confirma”.

1 Comentário

  1. Ótima matéria, gostei da forma como você elaborou o artigo. Parabéns!

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