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Aécio, o queridinho dos operadores da Lava Jato
23 de maio de 2017

Marcelo Auler

Na ação movida por Érika, a denuncia da existência da corrupção envolvendo Temer e o seu amigo "Lima". Isto nos anos 90.

Na ação movida por Érika, a denuncia da existência da corrupção envolvendo Temer e o seu amigo “Lima”. Isto nos anos 90.

Talvez ele seja o mais antigo aliado do presidente golpista Michel Temer, muito embora não tenha nenhuma sala disponível no Palácio do Planalto. É um “aliado” oculto. Seu nome ressurge a cada nova denúncia de corrupção envolvendo o atual presidente.

Foi assim no final dos anos 90, quando uma estudante de psicologia ingressou com uma Ação de Reconhecimento e Dissolução Estável, Cumulada com Partilha e Pedido de Alimentos (Ação 00632820-2), ajuizada na 3ª Vara de Família, Órfãos e Sucessão, de São Paulo, contra o então presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo (CODESP), Marcelo de Azeredo, apadrinhado do hoje presidente acusado de corrupção.

Na ação, a ex-companheira de Azeredo, Erika Santos, denunciou todo um esquema de corrupção na CODESP a beneficiar três pessoas: Temer, então presidente da Câmara dos Deputados, Azeredo, e o velho amigo do hoje presidente suspeito, coronel aposentado da Polícia Militar, João Baptista Lima Filho.

Eles estariam, conforme as denúncias apresentadas em juízo por Érika, envolvidos com esquemas ilegais no Porto de Santos, tal como mostramos na série de matérias que publicamos no Diário do Centro do Mundo, em julho de 2016, entre elas Como Temer operou no Porto de Santos, segundo ele mesmo e sindicalistas que falaram ao DCM. Nada do que ela denunciou foi apurado a contento, por interferências bastante políticas. Os três ficaram – usando as palavras de Temer no pronunciamento deste sábado (20/05) com relação aos donos da Friboi -, livres e soltos, só que andando pelas ruas de cidades brasileiras. E Temer acabou presidente da República, graças ao golpe do impeachment.

Agora, tal como Phenix, ele ressurge no noticiário político, novamente envolvido com o “mui amigo” Temer. Na denúncia à Procuradoria da República, o contador do grupo J&F, Florisvaldo Caetano de Oliveira, responsável pelas entregas de dinheiro a políticos, relatou ao menos dois encontros com Lima Filho. No segundo, Oliveira afirma lhe ter entregue R$ 1 milhão em espécie. Foi o suficiente para o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, autorizar busca e apreensão no escritório e na residência de Lima Filho, ocorridas quinta-feira (18/05). Surge, portanto, a questão:

Se Lima Filho, oficial reformado da Policia Militar paulista e desde 2011 sócio da Argeplan Arquitetura e Engenharia Ltda., situada na Rua Juatuba, na Vila Madalena, não tem ligação oficial com o governo federal, que motivos levariam a J&F a lhe pagar R$ 1.000.000,00? O que explica é sua ligação umbilical com Temer. Este pequeno detalhe já não é suficiente para levantar desconfiança do presidente que se diz honesto?

Esse valor, segundo o depoimento do diretor de relações institucionais da J&F, Ricardo Saud, era destinado a Temer que determinou o pagamento ao coronel. O R$ 1 milhão fazia parte dos R$ 15 milhões que o PT repassou para o PMDB na eleição de 2014 em que Temer concorreu como vice-presidente de Dilma Rousseff, na explicação do executivo da J&F.

Não foi a primeira vez que o coronel Lima Filho surgiu em delações premiadas da Operação Lava Jato. Ele iria ser denunciado pelo sócio da Engevix, José Antunes Sobrinho Filho, como alguém que se apresentava como um interlocutor do então vice-presidente da República. Mas a delação não ocorreu, conforme noticiou o Valor Econômico na reportagem Executivo que havia citado pagamento a Temer desiste de delação:

Na delação, Sobrinho Filho prometia entregar provas do pagamento de R$ 1 milhão a um interlocutor do presidente interino, Michel Temer, como forma de agradecimento pela participação em contrato de R$ 162 milhões da Eletronuclear, referente à usina de Angra 3. Os advogados do executivo afirmam que a mudança de estratégia foi provocada pela absolvição de seu cliente, em maio, em uma das ações da Lava Jato, por falta de provas de participação em crimes relacionados à Petrobras“.

Conquistando obras – Também não se limitou ao governo paulista a conquista de obras pela Argeplan. Ali foi apenas o começo. Em 2010, ela foi encarregada do projeto executivo de uma ponte no Rio Xingu através do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O contrato foi estipulado em R$ 3 milhões, mas a obra não chegou a ser realizada.

Em maio de 2016, acusando o coronel Lima de ser "laranja" de Temer, o MST invadiu a Fazenda Esmeralda.

Em maio de 2016, acusando o coronel Lima de ser “laranja” de Temer, o MST invadiu a Fazenda Esmeralda.

No mesmo ano ela assinou com a estatal Valec contrato para supervisionar a construção da ferrovia de integração Oeste-Leste, na Bahia, por dois anos, a preço de R$ 26,5 milhões,conforme diz a reportagem do Valor Econômico que acrescenta:

O acordo sofreu cinco aditivos e já alcançou um volume total de repasses de R$ 74,6 milhões. O documento original foi assinado pelo então presidente da Valec, José Francisco das Neves, acusado de cobrar propina em contratos“.

Ainda teve mais. Vencedora, em 2012, de um contrato de R$# 162 milhões com a Eletronuclear, a empresa finlandesa AF Consut foi obrigada a buscar parceiros nacionais. Recorreu à Argeplan. O consórcio das duas é que subcontratou a Engevix, surgindo daí a cobrança da propina. Tudo negociado no escritório de Temer, no Itaim Bibi, em São Paulo.

A amizade de Temer e Lima Filho levou o MST, em maio de 2016, a invadir a Fazenda Esmeralda, em Duartina (SP), com 1.500 hectares (o equivalente a 2.100 campos de futebol), que produz eucalipto e tem criação de gado. Para os Sem Terra, o coronel seria apenas um “laranja” do presidente, que negou ser dono da propriedade.

Impunidade – As denúncias do final dos anos 90 de que o trio atuou e teria se beneficiado de propinas no Porto de Santos, como acontece quando não há envolvimento de petistas, terminaram em pizza.

Tal como descrevemos, em 26 de agosto passado, na reportagem  “Venceu a impunidade: investigação das propinas em Santos envolvendo Temer foi arquivada“. Nela consta:

 “Reproduzo aqui a mais recente matéria do trabalho conjunto que fiz com o Diário do Centro do Mundo. Ela mostra como se cria a impunidade para políticos que não são do PT. Investigações sobre as denúncias contra Michel Temer, feitas em 2000, ficaram rolando de um lado para outro até prescreverem.

Com isto, ao analisar o caso neste mês de agosto, a procuradora da República Karan Louise Jeanette Kahn não teve alternativa a não ser propor o arquivamento de tudo. Temer e seu afilhado político, Marcelo de Azeredo, que foi presidente da Companhia de Docas do Estado de São Paulo – CODESP, por indicação do então presidente da Câmara dos Deputados, ficarão impunes criminalmente.

Assim como o Cel. Lima (acrescento agora).

No trabalho em conjunto com o DCM, conseguimos acessar um antigo inquérito policial no qual o acusado Azeredo prestou depoimento. Negou as denúncias que a  sua ex-companheira, Erika Santos, fez na Vara de Família.

Erika Santos, após separar-se de Marcelo Azeredo, conseguiu manter seu estilo de vida. Foto: reprodução de suas páginas nas redes sociais.

Erika Santos, após separar-se de Marcelo Azeredo, entrou com um pedido de separação em que denunciou propina no Porto de Santos. Após entender-se com o ex-marido, calou-se. Foto: reprodução de suas páginas nas redes sociais.

Neste inquérito, na Delegacia de Prevenção e Repressão a Crimes Fazendários (DELEFAZ) da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo (SR/DPF/SP) foram ouvidos os principais personagens pelo delegado federal Ricardo Atila Barbosa. Além de Azeredo, prestaram depoimento  seu pai Ronaldo Pinto de Azeredo, sua irmã Carla de Azeredo (todos em agosto de 2004) e Érika (outubro do mesmo ano). Michel Temer, como noticiamos em A PGR omitiu-se na denúncia da caixinha do Porto de Santos para Michel Temer, foi convidado a prestar depoimento como testemunha em um inquérito em Santos, mas jamais respondeu ao convite”.

Curiosamente, a Polícia Federal fez uma terceira busca na quinta-feira (18/05) que volta relembrar as propinas denunciadas por Érika Santos no final de 1990. Em Santos, uma equipe de agentes federais de Brasília esteve na sede administrativa do Grupo Rodrimar.

Segundo o advogado da firma, José Luiz Macedo, ela prestou serviços a uma empresa e, por isso, a Polícia Federal foi ao prédio para deflagrar a operação.

A Polícia Federal esteve tentando localizar documentos da operação, denominada Pátmos. Foram apenas documentos de uma empresa que está sendo investigada nesta operação”, disse à imprensa na ocasião, sem esclarecer o possível vínculo dessa empresa com o conglomerado J&F.

Pode até ser, mas a Rodrimar, como se verifica do trechos de documento reproduzidos no início desta reportagem, foi uma das citadas por Érika como doadoras de propina ao trio – Temer, Azeredo e Lima – que jamais foi investigado a sério. Uma das tentativas de levar adiante o inquérito que ficou parado por muito tempo foi do então delegado federal Cássio Nogueira, hoje aposentado. Ele convidou Temer a prestar esclarecimentos no caso, mas seus dois convites jamais foram respondidos, como mostramos em Por que Temer negou-se a dar explicações à PF sobre caso de propina em Santos.

Desta vez, a partir da delação dos executivos da J&F, pelo menos ocorreram duas buscas e apreensões as quais, como, lembrou o blog Viomundo na reportagem Coronel amigo do peito de Michel recebeu R$ 1 mi em dinheiro vivo da JBS, diz delator; buscas podem complicar futuro de Temer, não despertaram maiores atenções da mídia. Trata-se porém de um fortíssimo indício contra a alegada inocência que Temer, em seus dois pronunciamentos, alega.

O coronel Lima não surgiria nesse caso do nada. Seu único envolvimento – e isso se sabe desde os anos 90, embora jamais tenha sido apurado a sério, por conta e graça dos procuradores Geraldo Brindeiro e Roberto Gurgel, além do ministro Marco Aurélio Mello, como dissemos nas reportagens citadas acima – é com Michel Temer. Portanto, o surgimento dele em mais este escândalo pode sim ser considerado batom na cueca. Até que se prove o contrário. Ou seja, se desta vez houver investigação a sério, sem interferências políticas.

7 Comentários

  1. […] como pontes, estradas, ferrovias. O jornalista Marcelo Auler dissecou a relação Temer-Lima numa grande e consistente reportagem.  A parte do inquérito da PGR que trata das relações entre Temer e o coronel foi também […]

  2. […] no final dos anos 90, era, segundo descreve Marcelo Auler, aquele blogueiro que alguns delegados da Polícia Federal querem censurar,  “uma estudante de […]

  3. […] no final dos anos 90, era, segundo descreve Marcelo Auler, aquele blogueiro que alguns delegados da Polícia Federal querem censurar,  “uma estudante […]

  4. Maria Mirtes Cohen disse:

    Auler, o que pode aparecer investigando Pedro Parente que possa salvar a Petrobrás?

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