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Quando o fígado supera a razão

Trocaram a educação por obras desnecessárias; agora clamam por justiçamento.

Marcelo Auler

As mortes violentas que os cariocas presenciaram nos últimos dias provocaram, como não poderia deixar de ser, uma indignação generalizada. Nas redes sociais, de tudo se encontra um pouco, até mesmo quem queira taxar os dois mortos na padaria no Morro do Dendê – Gilson da Silva dos Santos, de 12 anos, e Wanderson Jesus Martins, de 23 anos – de criminosos. Como se criminosos merecessem ser executados friamente ao mesmo tempo em que se lamenta o assassinato do médico Jaime Gold, que perdeu a vida por causa de uma bicicleta.

Infelizmente, muitos comentários e opiniões surgem de maneira fria, insensata, por gente, que só parece capaz de pensar com o fígado. Acredito até que, após a ficha cair e a poeira baixar, alguns conseguirão rever posições. Me assusta, porém, não apenas a discriminação – a morte na Zona Sul da cidade gera indignação maior do que as duas mortes na comunidade do Dendê – mas algumas bandeiras levantadas oportunisticamente,.

Exemplo disso foi provocado por uma postagem sensata do jornalista André Moragas. Na tarde de quarta-feira, no calor dos debates, quando muitos pediam justiçamento no lugar de Justiça, ele deu um alerta sobre roteiros de filmes que já assistimos. E lamentamos.

“Um dos problemas de você já ter mais idade é começar a perceber que as situações teimam em se repetir. Já perdi a conta de quantas vezes presenciei esse mesmo roteiro:
1) Repressão de algum tipo ao tráfico de drogas (vários modelos);
2) Aumento do número de meninos nas ruas (menores ou maiores);
3) Aumento do número de pequenos furtos, sem vítimas;
4) Início de pequenos roubos, com vítimas;
5) Número de vítimas aumenta na Zona Sul e Centro;
6) Sociedade/imprensa pressiona Governo;
7) Polícia se sente acuada e pressionada;
8) Nova chacina de meninos de rua.
Espero mesmo que dessa vez o item “8” não aconteça, mas já vi esse filme vezes demais….”

A insensibilidade floreceu rapidamente, nos primeiros comentários ao que ele colocou. “Só que, sinceramente, eu não sei se ficarei tão triste quanto fiquei, na época, se acontecer o item “8” agora. E acho lamentável!”, comentou uma amiga dele que já utilizou como foto de capa da página a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Algo que me soa bastante contraditório: homenagear a santa, mas pregar o oposto do ensinamento cristão.

Ela, infelizmente, não foi voz isolada. Imediatamente surgiram apoios. No primeiro, o autor deixou claro sua defesa àquilo que Moragas teme: “na boa, pode parecer cruel, mais q essa “faxina” está se fazendo necessária está. Já tive pena, hj não tenho mais”.

Em seguida, outra leitora se posicionou: Faço minhas as palavras do (nomeia o comentarista anterior) Q venha o item 8 rápido, sem dó e nem piedade. Q assim seja”.

É verdade que o bom senso prevaleceu nos comentários postados em seguida. A grande lição, porém, encontrei nesta quinta-feira (21/05) em entrevista a O Dia, da ex-mulher de Gold, antes de a  polícia identificar um dos possíveis assassinos. Marcia Amil, mãe dos filhos do casal – Jaime Daniel, de 22 anos, e Clara, de 21 – criticou quem se aproveita de tais situações para defender bandeiras políticas:

Nem sei se foram menores, mas sei que Jaime foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e seguranças, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão postal do país. E não só médicos, afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul“.

Não apenas rebateu aqueles que buscam justiça na base do olho por olho e dente por dente, como contestou a opinião de ninguém menos que o secretário de segurança do Rio, delegado federal José Beltrame. Ele praticamente admitiu que os  crimes podem ocorrer, desde que longe dos cartões postais da cidade:

É mais do que lamentável. É inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa, um lugar querido por todos os cariocas. Um lugar frequentado pela população do Rio e estrangeira. Por todos os turistas que vem ao Rio. Cenas dessa natureza não podem se repetir. É um cartão-postal e não podemos assumir de maneira alguma que essas ações aconteçam”.

Recorro então ao comentário de alguém que sequer conheço, o músico Daniel Samam à página do qual cheguei por postagens feitas em outras páginas.

Ontem, um menino de 13 anos (!!!) foi morto pela PM na favela do Dendê, na Ilha do Governador. Houve comoção? NÃO. Na semana passada, dois mototaxistas, na faixa dos vinte e poucos anos também foram executados pelas forças de segurança do Estado do Rio de Janeiro na favela do São Carlos, no Estácio. Um deles levou 4 tiros na cabeça (!!!!!!). Houve comoção? TAMPOUCO. O tal senso comum, alimentado por fatia cada dia mais considerável da imprensa nacional, faz questão de colocar a possibilidade de serem criminosos. Certo, mas porque poderiam ser criminosos? Elementar, meus caros. Por que eram negros, pobres e moradores de favelas. Só com esses argumentos, o senso comum é alimentado pela imprensa, que age e elimina qualquer hipótese de a sociedade se solidarizar com essas mortes”.

O lamentável é que a indignação mais do que justificada pelos assassinatos, sejam ele aonde forem, turva a visão das pessoas não permitindo uma análise mais aprofundada da questão. Como a do professor de História do Colégio Pedro II, candidato do PSol derrotado nas eleições municipais, Tarcísio Motta de Carvalho, na sua página. Ele trouxe a discussão para o campo correto, das prioridades dos governos que tivemos no Estado e no município.

As trágicas mortes de Wanderson Jesus Martins, Jaime Gold e Gilson Costa não são exceções ou obra do acaso. Mais uma vez, tem muita política pública equivocada por trás do sangue derramado”.

Avançando na análise, ele trás à discussão a questão da segurança e o papel da prefeitura, voltada para grandes obras, grandes eventos e pouco preocupada com o dia-a-dia da cidade.  Não raro, erra o foco principal das necessidades dos cariocas:

Desde o início da administração Paes, a prefeitura tem insistido numa lógica de “ordem pública” que tem camelôs e artistas populares como alvo da repressão. Enquanto isso, iluminação, sinalização e incentivo à ocupação de espaços públicos poderiam ser muito mais eficazes enquanto instrumentos de garantia de segurança para aqueles que querem ter o direito à cidade garantido. Uma amiga ( Juliana Netto) que também é ciclista destacou que no mesmo momento em que o ciclista era esfaqueado na Lagoa, dezenas de guardas municipais cercavam a Praça São Salvador e tentavam impedir a exibição de um filme sobre violência (!)”.

Também não poupa a política de segurança pública que, depois de pacificar regiões conturbadas no passado, está nitidamente perdendo o controle da situação, quer seja para os bandos que se reorganizam, quer pela ação policial, com claras demonstrações de falta de preparo para lidar com situação de confrontos:

A política de segurança do governo estadual segue insistindo nessa lógica de guerra às drogas que mata mais do que as drogas, num verdadeiro extermínio de nossa juventude negra e pobre. Prevenção? Inteligência? Não. É mais fácil e mais rentável continuar “combatendo” o inimigo visível naturalizado como vilão da história”, destacou Tarcísio.

A indignação em momentos como o que presenciamos é mais do que justificada. Injustificável é usar desta indignação para defender medidas paliativas, retrógadas e conservadoras que não só não resolverão o problema, mas podem agravá-lo ainda mais. Nossa cidade não precisa de retaliação e justiçamento, mas de políticas públicas debatidas e aplicadas em conjunto. A serem adotadas a longo prazo, não somente para atender o próximo grande evento. Tampouco a questão da segurança se resolverá exclusivamente com reforço policial. Sem a adoção de medidas sociais e educacionais.

Nessas horas de crise, quando vemos menores infratores roubando bicicletas e esfaqueando pedestres em seus momentos de lazer, vale questionar como estariam hoje esses jovens se nas últimas três décadas, por questiúnculas menores, nossos governantes não tivessem abandonado a política da dupla Leonel Brizola/Darcy Ribeiro, da criação de escolas em horário integral. Poderiam nem dar prosseguimento à construção dos Brizolões, mas jamais abandonar o projeto. Tampouco deixar a educação chegar aonde chegou, com o magistério mal remunerado, sem atrair cabeças pensantes que ajudassem na preparação dessa meninada.

Deixou-se de lado o investimento em educação em troca de obras grandiosas, muitas vezes desnecessárias. Agora, recorre-se à repressão para tentar apagar um incêndio que não será debelado com mais violência. Isto, ainda que possa parecer indiscutível, não é o que muitos pensam e pregam no calor das emoções, quando o fígado fala mais alto do que a razão.

2 Comentários

  1. Marcos Palomo disse:

    Mais uma profecia se cumprindo, esta de quem era profeta mesmo –
    E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará. Mateus 24:12

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