1989: eleição sem fake news, mas “armações” contra Lula
16 de dezembro de 2019
Ação de Mauat contra o Blog: tiro no pé com dados revelados
21 de dezembro de 2019

Marcelo Auler

Com o aplauso da namorada Janja, Lula praticamente selou a aliança da esquerda para concorrer a prefeitura do Rio: Freixo e Bené (Foto: Facebook do Marcelo Freixo)

Na expectativa de começar a combater o fascismo no berço onde ele surgiu – afinal, Bolsonaro é fruto do Rio de Janeiro – a esquerda deixou claro que se unirá na próxima eleição. No Circo Voador, onde milhares de pessoas se juntaram para assistir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrar com artistas e intelectuais, no evento “A Cultura Abraça Lula”, de forma sútil foi apresentada ao público a chapa da esquerda para concorrer na eleição da prefeitura municipal do Rio em 2020. O primeiro passo para enfrentar os desgovernos municipal, estadual e federal.

Provavelmente por conta do impedimento imposto pela legislação eleitoral, não houve uma manifestação explícita. Sutilmente, porém, ficou firmado o pacto que estava sendo costurado nos bastidores. Coube à deputada Benedita da Silv, a Bené – ex-senadora e ex-governadora do Rio – oficializar a aliança. Ela falou logo depois de Jandira Feghali. Já quase chegando ao fim de sua fala, ela convidou Marcelo Freixo para se aproximar e aparecerem juntos perante o público. Em seguida veio Lula, que pousou para as fotos. Freixo, por sua vez, chamou Jandira. Juntos, por proposta de Bené, os três recorreram a Nelson Cavaquinho para, com a ajuda da plateia, anunciarem que:

O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/O mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente/É o juízo final/A história do bem e do mal./Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer!

Na plateia, porém, o grito de guerra em seguida foi outro. Verdade que puxado pelo apresentador Luiz Fernando Lobo, mas logo ressoou: ”Vai avançar, vai avançar, a unidade popular”. Em uma clara aprovação do que estava sendo apresentado aos cariocas – no caso, um público esquerdista, é verdade – naquele momento para um Circo Voador lotado, com ainda outra multidão que por limitações no espaço interno teve que se contentar em assistir tudo de um telão instalado junto aos tradicionais Arcos da Lapa.

Lula juntou multidão no Circo Voador (Foto: Pedrinho Rocha)

Na realidade, Bené tomou a iniciativa de aproximar Freixo sem que nada estivesse combinado. Afinal, apesar de Lula estar em negociação com o candidato psolista, o ex-presidente, desde o tempo em que esteve recolhido na cela na Polícia Federal, em Curitiba, defende que o PT – partido que, apesar de todos os revezes, considera ser o mais forte no atual quadro político brasileiro -, deve lançar candidatura própria em todas as principais cidades brasileiras. Até para ajudar a eleger as bancadas de vereadores.

Relembra, inclusive, que o partido ajudou a criar a eleição em dois turnos justamente para isso. Concorrer no primeiro turno com sua candidatura e apoiar a mais bem colocada na fase final da eleição. Ontem, porém, ao que parece lhe deram o prato feito.

A costura da chapa carioca já vinha sendo feita há algum tempo. Lula e Freixo, como este mesmo admitiu, já tinham conversando anteriormente, do Psol ficar na cabeça da chapa e o PT ficar com a vice.  O psolista esteve em São Bernardo do Campo quando Lula retornou da prisão em Curitiba.

Verdade que Lula insistia na tecla de candidatura própria e ainda falou sobre isso na noite de terça-feira ao se reunir com o PT no Rio de Janeiro. Mas Benedita não aceita concorrer como cabeça de chapa, concorda com o cargo de vice. Por isso, tomou a iniciativa de lançar – com sutileza e sem verbaliza-la – a chapa no ato de quarta-feira (18/12) à noite no Circo Voador.

O PT do Rio, mesmo sabendo que a pesquisa Datafolha indica sua aceitação por 10% do eleitorado fluminense, tem consciência de que sua imagem não é a das melhores no estado. Muito por causa das alianças feitas no passado com o PMDB de Sérgio Cabral e Jorge Picciani.

Desta forma, há o reconhecimento – ou o receio – de que uma candidatura própria não será aceita facilmente pela maior parte do eleitorado. Em especial tendo-se Freixo como candidato do PSOL e, muito certamente, Eduardo Paes concorrendo novamente, agora pelo DEM. Pragmaticamente, preferem se aliar, mesmo resistindo a alguns nomes do PSOL, que não conseguem “perdoar”. O ex-deputado Chico Alencar, por exemplo, quadro político importante na formação do PT e do PSOL, não foi visto no Circo Voador. Pelo que informaram ao Blog, “esqueceram de lhe convidar”. Terá sido puro esquecimento?

Portanto, no PT, mesmo os poucos que preferiam uma candidatura própria, acham que será inevitável a aliança. E sabem que a chapa única no primeiro turno conta ainda com o apoio do PCdoB de Feghali. Lula, diante da reação do próprio público, certamente retornou a São Bernardo convencido que isso será inevitável.

Dentro do PSOL, cuja base majoritariamente é jovem, ou seja, formada por quem conheceu o PT no governo, há muitas críticas ao partido de Lula. Ali, grupos minoritários tentarão barrar este acordo. Notadamente os militantes que apoiam os vereadores Renato Cinco e João Batista Oliveira de Araújo, o Babá. Mas não chegam, segundo cálculos dos próprios psolistas, a 20% dos eleitores do partido. Ainda assim, acabarão aderindo à campanha pois eles próprios precisarão serão candidatos à reeleição. Logo, no partido, poucos duvidavam de que a aliança fosse feita. A grande maioria já considerava que ela se viabilizaria.

Em São Paulo, dificuldades à vista

A dificuldade maior está em levar essa mesma Frente de Esquerda para São Paulo. Ali, o PSOL já apresentou como possíveis candidatos Guilherme Boulos, que dispensa maiores apresentações, ou a atual deputada estadual Sâmia Bomfim, que antes de ingressar na Assembleia Legislativa, atuou por dois anos como vereador na capital. Não bastasse, eles ainda têm Luiza Erundina, ex-prefeito pelo PT e hoje deputada federal, que jamais negou apoio a Lula.

Aparentemente, uma aliança possível com os petistas se daria em torno do nome de Fernando Haddad. Seria um nome indiscutível, até pelo fato dele ter enfrentado diretamente Jair Bolsonaro. Mas, como Luís Nassif registrou recentemente no JornalGGN Conversas com Lula: Haddad não tem que ser mais candidato a prefeito – o próprio ex-presidente entende que o ex-prefeito deve focar na campanha presidencial de 2022. Tem na bagagem o resultado obtido na última campanha.

Na falta de Haddad, os petistas tendem a apresentar nomes que dificilmente serão “palatáveis” aos psolistas. Os exemplos citados são os deputados federais Alexandre Padilha (ex-ministro das Relações Institucionais no governo Lula e da Saúde no governo Dilma Rousseff) e Carlos Zarattini, ou mesmo o ex-deputado federal Jilmar Tatto. Uma possível exceção seria o deputado federal Paulo Teixeira, mas mesmo assim há quem ache que pode haver resistências dentro do PSOL. O que mostra que na capital paulista a construção da Frente é mais difícil.

O quadro fica mais fácil em Porto Alegre com a tendência de PT e PSOL apoiarem desde o início a candidatura de Manuela d’Ávilla pelo PCdoB. A discussão se dará em nome do candidato à vice-prefeito, mas a possibilidade maior é que ele venha dos petistas, partido mais bem montado no Rio Grande do Sul.

Em Belo Horizonte, os psolistas apresentam a deputada Aurea Carolina, que como Sâmia, em São Paulo, foi vereadora por dois anos na capital mineira e na última eleição conquistou uma cadeira na Câmara Federal. Mas o partido aceita de bom grado discutir o em torno do nome do deputado Patrus Ananias, ex-vereador, ex-prefeito de BH e ex-ministro tanto de Lula como de Dilma. O problema, porém, está no próprio Patrus, que resiste a voltar a se candidatar. Motivos de muitas críticas por parte de Lula.

 

 

Aos leitores e seguidores do Blog – A manutenção e o sustento deste Blog, que se dispõe a reportagens maiores e exclusivas, dependem exclusivamente das contribuições de seus leitores/seguidores. Com essas contribuições é que enfrentamos despesas com processos que nos movem (ao todo, seis), bem como nossos investimentos em viagens. Nosso trabalho depende delas, em qualquer valor, em qualquer periodicidade. Para ajudar ao Blog e apoiar nosso trabalho, utilize a conta bancária exposta no quadro ao lado.

O Blog aderiu ao Jornalistas Pela DemocraciaEntenda o que é e como funciona

5 Comentários

  1. Dilma Coelho disse:

    – O Freixo não é confiável, vive correndo atrás de oportunidades para estar na mídia, precisa de um emprego, sem fazer nada e ganhar um bom dinheiro. Em 2013 esteve envolvido com o movimento das passagens, depois, se dizendo perseguido, foi para o exterior, a pouco se ligou à insana da janaina pascal golpista, há fotos dos dois se confraternizando. Recente, à revelia de Lula, ele e a traíra da benedita, criaram a chapa da esquerda para o Rio. O Rio já tem canalhas demais. A benedita e freixo pensam que todos esquecem. Benedita e filhos foram processados por corrupção.
    – O Lula não está bem, precisa refletir muito, ele precisa avaliar sobre uma grande bobagem que está fazendo, precisa acordar. Além disso o PT está cheio de traíras. Mesmo com o PCO ajudando vai ficar difícil.
    – Depois que a hiena miliciana assaltou o Brasil, parece que viramos a casa da mãe joana, todos querem um cargo com poderes.
    – Se não há trabalho, não há impostos, não há produção, não há vendas, os lucros indo para o exterior, etc. …
    Frase do Lula: Dá dinheiro para o pessoal de baixa renda que o país anda.

  2. selma maria sobral disse:

    A esquerda parece que não sabe o poder que teria se houvesse uma união com mais sabedoria, menos divergências partidárias e quase nenhuma disputa vaidosa pelo poder. Aposto que assim sendo confundiria menos o eleitor e o fortaleceria mais .

  3. Luciana Gonçalves disse:

    Desatualizada a informação porque no primeiro discurso discurso de Lula em São Bernardo, ele já chamou apoio à Freixo para a prefeitura do Rio de Janeiro. Talvez a revelia dos petistas que queriam essa boca. Principalmente os que perderam cargo no congresso.

  4. Terezinha Costa disse:

    Boa notícia. Só não entendi uma coisa: foi à revelia de Lula, como diz o título? Ou Lula participou e aceitou o pacto, como diz a legenda? Fiquei meio confusa.

    • Marcelo Auler disse:

      Foi à revelia, Terezinha Costa, pois o Lula, embora admitisse futuramente a aliança, preferi ainda tentar candidatura própria. Esta foi sua tese na véspera do ato (terça-feira à noite), quando se reuniu com os petistas no hotel onde estava. Ele já conversava com Freixo, mas ainda nao tinha batido o martelo. Acabou atropelado pelo gesto de Benedita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *