Imbecilidade do governo destrói Comunicação Educativa
14 de dezembro de 2019
No Rio, à revelia de Lula, nasce a chapa da esquerda
19 de dezembro de 2019

Marcelo Auler

Em 1989 a Internet no Brasil ainda era incipiente. Funcionava apenas em ambientes acadêmicos. Estava distante do grande público. Portanto, naquela época, ainda não se falava de Fake News. Mas a primeira eleição direta para a Presidência da República pós ditadura civil-militar (1964/85) acabou marcada por grandes manipulações. Algo que está completando três décadas. Foi em 17 de dezembro de 1989 que Fernando Collor (então no PRN) consolidou-se presidente, após a votação do Segundo Turno da eleição, derrotando Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 Como não poderia deixar de ser, a grande manipulação teve digitais do Grupo Globo, em especial da Rede Globo de Televisão. Pode-se até discutir se o Jornal Nacional dos dias 15 (sexta-feira) e 16 (sábado) de dezembro, ao apresentar reportagens maldosamente editada sobre o último debate entre os dois candidatos, ocorrido na quinta-feira, 14/12, foi ou não decisivo para consolidar a vitória do então “caçador de marajás”. Fato é que o próprio então vice-presidente da maior rede de TV, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, como mostrou a Folha de S.Paulo no domingo da votação (17/12), admitiu que a edição do telejornal favoreceu a Collor de Mello.

“Ficou mais favorável a Collor”; houve um “erro de avaliação” do Departamento de Jornalismo da emissora; a edição refletiu “com uma pitada de exagero” a vantagem que Collor obteve sobre Lula. São afirmações feitas por Boni que constam da reportagem, como mostramos na ilustração acima. Não bastasse a confissão do vice-presidente da Rede Globo, um artigo de Nelson de Sá, no mesmo jornal, cravava:

 O “Jornal Nacional“, na ausência do horário gratuito, garantiu a Collor a propaganda de sua vitória no debate. O candidato do PT, é claro, ajudou com frases desairosas de cunho próprio: assim como o bem treinado Collor. A Globo só entrou coma arte de editar“.

 Na realidade, a Globo e o próprio Boni fizeram muito mais a favor de Collor, candidato que a maior rede de TV havia assumido, assim como outros grandes jornais, como consequência do medo que o “sapo barbudo” – apelido que Leonel Brizola, ex-governador do Rio, que disputou o pleito pelo PDT dera a Lula ao decidir apoiá-lo no segundo turno – provocava na classe dominante.

 Como anos depois o próprio Boni reconheceu em entrevistas, (ouça o vídeo abaixo) na GloboNews, ao repórter Geneton Moraes Neto, o à época poderoso homem da Globo, admitiu claramente que foi procurado por Collor e lhe deu conselhos de como enfrentar o popular Lula.

 Entre outras sugestões, lhe retirou a gravata, usou glicerina para que o candidato almofadinha parecesse suar e ainda o fez entrar no estúdio com várias pastas que sugeriram denúncias contra o petista. Com antecedência, espalharam para jornalistas que denúncias – inclusive de um tal aparelho de som três em um – surgiriam no debate, provocando certa instabilidade no petista.

 Antes do debate, o próprio Collor já tinha “armado” com o que hoje chamaríamos de Fake News. Tal e qual ocorreu, ano passado, com a “mamadeira de piroka”, por exemplo.

 Pagou pelo depoimento de Miriam Cordeiro, antiga namorada de Lula e mãe de sua filha Lurian. Então com 15 anos, e muito ligada ao pai, a menina, como descreveu Mônica Bérgamo dez anos depois, “viu Miriam surgir na televisão e afirmar que seu pai, Lula, “me ofereceu dinheiro para abortar”. Numa cena financiada e levada ao ar por Fernando Collor de Mello, que disputava a Presidência, Miriam contou ainda que, depois do parto, entregou a filha “no colo” de Lula e disse: “Agora, você mata”. A imagem teve impacto histórico. O pai de Lurian perdeu a eleição“.

A ajuda de Boni, embora possa parecer pequena, tinha importância grande pois à época, as campanhas ainda não tinham adotado marketeiros. Collor foi quem deu início a isso. Já a campanha de Lula trabalhava com abnegados, na sua grande maioria sem remuneração, como o editor desse Blog que usou suas férias no Jornal do Brasil para ajudar na assessoria de imprensa comandada por Ricardo Kotscho e Sérgio Canova.

Tudo à base da improvisação. Para se atingir rádios do interior, por exemplo, Canova gravava entrevistas com Lula e os principais nomes do PT em fitas cassetes, copiava-as e depois saíamos de carro distribuindo por rádios do interior. A mim coube faze-lo em cidades do interior fluminense. Com gasolina paga do próprio bolso.

No segundo turno havia mais de 250 rádios de todo o Brasil que divulgavam as entrevistas de Lula e de outras personalidades que o apoiavam. As fitas eram despachadas via Sedex. Foi uma epopeia“, resume Canova, lembrando que Paulo Okamoto, responsável pelas finanças, ainda reclamava das despesas com Correio.

Canova relembra o esquema formado para furar a “bolha” de então: “A equipe de comunicação da campanha também levava ao comitê eleitoral pessoas conhecidas para dar entrevistas ao vivo.  A gente ligava para as emissoras de rádio de todo o Brasil e colocava à disposição personalidades como Marcelo Rubens Paiva, Sergio Mamberti, André Singer e o agrônomo José Gomes da Silva., entre outros. A receptividade era muito boa”.

Era uma batalha entre Davi e Golias. A gente se virava como podia. Por exemplo: enviamos diariamente uma ou duas matérias (releases) sobre a campanha via “busca automática”, serviço de telex que passava os conteúdos para 30 destinatários (mídia) por vez. Enquanto que a campanha de Collor utilizava jatos alugados para levar imagens dele dos rincões do país para um local mais próximo onde eram transmitidas para as redes de televisão, incluindo a Globo. Um jatinho com esse tipo de material infelizmente caiu próximo a Belo Horizonte, vitimando todos os ocupantes“, recorda ainda Canova.

Com amplo apoio dos empresários, Collor atravessava o Brasil em jatinhos fretados, com financiamento arrecadado pelo seu fiel tesoureiro Paulo César Farias, o PC Farias. Um esquema que enriqueceu aos dois e que depois foi amplamente divulgado, já com a eleição terminada.

Lula, por sua vez, como recordou certa feita Kotscho, atravessava o país em voos de carreira, que sempre atrasavam seus compromissos. Só foi contar com aviões particulares – longe de serem jatos – no final do segundo turno.

Não bastassem as “armações” da Globo e as mentiras de Collor, o PT e Lula ainda tiveram que conviver com as armações da Polícia Civil de São Paulo em combinação com a Polícia Federal comandada por Romeu Tuma, o qual, no governo collorido, não só permaneceu à frente do Departamento de Polícia Federal (DPF) que já dirigia, como o acumulou com a Secretaria da Receita Federal.

A armação das polícias ocorreu no sábado, 16, véspera da votação, quando cercaram a casa onde, desde a segunda-feira anterior, o empresário Abílio Diniz, então proprietário do poderoso Grupo Pão de Açúcar, era mantido em cativeiro por um grupo de dez sequestradores – seis chilenos, dois canadenses, um brasileiro e um argentino. Alguns dos chilenos se intitulavam membros do MIR – Movimento de Izquierda Revolucionaria, do Chile.

O Globo levou o inventado envolvimento do PT no sequestro de Diniz para a sua primeira página, no dia da eleição.

Foi o suficiente para que, no próprio sábado, surgissem, a partir de policiais, em nítida manipulação, informações do envolvimento de alguns dos sequestradores com o Partido dos Trabalhadores. Espalhou-se pelo noticiário de rádios – a internet não existia então – a presença de um dos presos trajando camiseta do PT.

Por ser uma “nítida armação”, alguns jornais não embarcaram. Noticiaram com cautela. No dia da eleição, a Folha de S.Paulo, mais comedida, relatou os fatos e a preocupação de autoridades, como o próprio presidente José Sarney, de se evitar contaminar a eleição com falsas notícias.

Mas nem todos agiram assim. No domingo em que seus leitores foram às urnas, O Globo, em sua primeira página expunha o envolvimento que não existia. Respaldando-se no então ministro da Justiça, Saulo Ramos – para quem os sequestradores queriam se beneficiar da legislação especial alegando crime político -, o jornal carioca levou para a primeira página que “dois dos que foram presos estariam usando camisetas do PT e que em suas agendas foram encontrados números de telefones de líderes petistas”. Ou seja, usou o verbo no condicional – “estariam”. Mas a possível ligação foi espalhada.

Logo abaixo, porém, apresentava a opinião do ex-ministro da Fazenda de José Sarney, Luiz Carlos Bresser Pereira.  Este, como diretor do Grupo Pão de Açúcar e, principalmente, amigo de Diniz e de toda a sua família, assumiu as negociações com os sequestradores. Foi quem garantiu, inclusive, que o grupo empresarial bancaria o pagamento dos advogados que o direito constitucional de defesa garantia aos envolvidos no sequestro.

Na própria explicação de Bresser Pereira era irresponsabilidade “envolver o PT” no caso. O jornal, porém, na frase seguinte insistiu: “A Interpol e a Polícia chilena têm registros de atividades políticas de pelo menos um dos envolvidos”.

Na edição de segunda-feira, o jornal então noticiou o desmentido do envolvimento político, novamente recorrendo a Bresser Pereira: “Esta possibilidade está afastada pela polícia. Eles são criminosos comuns. O que se sabe hoje é que são profissionais que já efetuaram operações semelhantes na França e na Inglaterra. Devem pertencer a um grupo internacional. Não acredito que esse grupo tenha ligações com ideologias políticas”. Àquela altura, porém, Collor já comemorava sua vitória. No jornal, provavelmente, muitos também comemoraram.

 

Aos leitores e seguidores do Blog – A manutenção e o sustento deste Blog, que se dispõe a reportagens maiores e exclusivas, dependem exclusivamente das contribuições de seus leitores/seguidores. Com essas contribuições é que enfrentamos despesas com processos que nos movem (ao todo, seis), bem como nossos investimentos em viagens. Nosso trabalho depende delas, em qualquer valor, em qualquer periodicidade. Para ajudar ao Blog e apoiar nosso trabalho, utilize a conta bancária exposta no quadro ao lado.

O Blog aderiu ao Jornalistas Pela DemocraciaEntenda o que é e como funciona

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *