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Lula, mesmo abatido com a morte precoce do neto, continua sendo tratado pelos lavajateiros de Curitiba como um marginal perigoso. (Foto Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Marcelo Auler

Lula, mesmo abatido com a morte precoce do neto, continua sendo tratado pelos lavajateiros de Curitiba como um marginal perigoso. (Foto Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

A participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no velório e enterro de seu neto, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, paralelamente à questão humanitária de um avô abatido se despedir do neto e consolar o filho Sandro e a nora Marlene, acabou por jogar por terra todos os argumentos usados pela chamada República de Curitiba quando impediram-no de velar seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, no final de janeiro.

Mas, ao autorizarem a viagem de Lula sábado passado (02/03), os lavajateiros de Curitiba não perderam a oportunidade de mostrar a face perversa da República de Curitiba com aquele que tratam como o seu verdadeiro “troféu político”. Ao que parece, mais uma tentativa de, a todo custo, manterem o ex-presidente isolado, na masmorra. Talvez na expectativa de que seja esquecido pelo grande público, o que aos poucos verificam ser algo quase impossível de acontecer.

A viagem de Lula a São Bernardo estava amparada pela lei. Mas, na República de Curitiba, as leis ganham interpretações próprias, tal como noticiamos em Dano irreparável a Lula confirma sua prisão política e reafirmamos em “República de Curitiba”: acima das leis e do STF.

Desta vez, porém, os lavajateiros curitibanos não tinham mais como negar o direito do preso em velar seu parente. Até por conta da reprimenda que ganharam no episódio do velório de Vavá, ao acabarem desautorizados pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

Verdade que a decisão de Toffoli foi capciosa. Sua autorização foi dada quando o caixão já baixava ao túmulo e pelas suas exigências, o morto é quem seria levado ao parente preso. Mas ele refugou todos os argumentos que os curitibanos elencaram para não permitirem a viagem de Lula.

Curiosamente, todos os óbices levantados em janeiro pelos lavajateiros de Curitiba foram esquecidos na sexta-feira passada, ainda que os personagens fossem os mesmos. Relembre-se, por exemplo, dos empecilhos listados pelo superintendente da Polícia Federal no Paraná, delegado Luciano Flores.

O mesmo que, há exatos três anos, no dia 4 de março de 2016, a partir de uma decisão arbitrária e ilegal do então juiz Sérgio Moro – o hoje ministro da Justiça – invadiu a casa de Lula para realizar busca e apreensão e o conduziu coercitivamente para depor na delegacia do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na mesma manhã, a cada de Sandro e Marlene também foi invadida e o iPad de Arthur acabou apreendido.

Em janeiro, a lista de dificuldades por ele arroladas – e imediatamente acatadas pelos procuradores da República que compõem a Força Tarefa da Lava Jato, pela juíza da Vara de Execução Penal, Carolina Moura Lebbos, e por Leandro Paulsen, desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região – foi ampla, como mostra a ilustração ao lado, com alguns trechos do ofício encaminhado pelo superintendente do DPF no Paraná à juíza.

Ele listou desde a falta de aeronaves até a possibilidade de um atentado ao preso ou aos agentes que fariam sua segurança, passando por uma hipotética dificuldade de translado de carro, por apenas dois quilômetros, entre o heliponto de São Bernardo do Campo e o cemitério.  O mesmo onde agora foi velado e cremado Arthur.

Não bastassem tais “argumentos”, no dia seguinte ao enterro de Vavá, o delegado ainda falou, em entrevista, da impossibilidade de se aceitar um voo particular pago pelo Partido dos Trabalhadores por desconhecerem quem seria o piloto. Levantou a hipótese de um possível “sequestro do preso”. Sendo esse preso um ex-presidente da República, líder político de fama internacional, é algo ainda mais impensável, destacamos à época e repetimos agora.

Nada disso, porém, foi levado em conta pelo ministro Toffoli. Em seu despacho, ainda que dado com atraso e impondo condições inaceitáveis, ele foi lacônico com relação aos empecilhos expostos pelo delegado e acatados pelos procuradores da República, juíza e desembargador:

“(…) as eventuais intercorrências apontadas no relatório policial, a meu ver, não devem obstar o cumprimento de um direito assegurado àqueles que estão submetidos a regime de cumprimento de pena, ainda que de forma parcial, vale dizer, o direito de o requerente encontrar-se com familiares em local reservado e preestabelecido para prestar a devida solidariedade aos seus, mesmo após o sepultamento, já que não há objeção da lei. Até porque, prestar a assistência ao preso é um dever indeclinável do Estado (art. 10, da Lei nº 7.210/84), sendo certo, ademais, que a República Brasileira tem como um de seus pilares fundamentais a dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, inciso III), como já anunciado por esta Suprema Corte”.

Como se viu no sábado passado, as “intercorrências” apontadas pelo delegado foram facilmente superadas. Nem se falou mais de aeronaves da Polícia Federal. Houve até abuso na força policial levada ao cemitério como se Lula fosse pensar em fugir ou alguém pensar em lhe atacar e/ou sequestrar. Policias federais desfilaram, desnecessariamente, com armas de grosso calibre, típicas de enfrentamento com bandos armados.

Lula foi e voltou do velório do neto tranquilamente. Abatido, como mostra a foto acima feita por Ricardo Stuckert quando o ex-presidente deixava o cemitério. Humildemente, mas de forma altiva, a ponto de lembrar a um possível delegado que o teria advertido por acenar ao público que não poderia deixá-lo de fazer.

Não perdeu a dignidade nem mesmo diante das injustiças e perversidade criadas pela chamada República de Curitiba ao liberarem-no para a viagem, certamente por perceberem que não poderiam impedi-lo novamente.

Nas oito horas em que passou fora da cela onde o trancafiaram há quase um ano por conta de uma sentença discutível, pois prolatada sem nenhuma prova do crime que o condenaram, o ex-presidente ficou apenas pouco mais de 1H50min, na presença dos familiares, junto ao caixão do neto. Tempo que, por causa da demora nas orações feitas por um padre e dois pastores, extrapolou a 1H30min determinada pela juíza como prazo máximo para sua permanência na capela.

Ao chegar, por aproximadamente quinze minutos ficou junto ao filho e à nora, na cabeceira do caixão, acariciando e beijando o menino. Aos prantos. Depois, por um bom período, recebeu o consolo e as condolências das mais de cem pessoas – a maioria parentes dele, de dona Marisa, sua mulher, e da família de Marlene, sua nora – que conseguiram entrar no velório. Na despedida final, no crematório, não ficou sentado como os demais. De pé, junto ao caixão, ouviu as orações.

Depois fez a promessa ao neto de levar-lhe para o céu o certificado de sua inocência, como uma espécie de compensação ao bullying do qual o menino foi vítima na escola por ser seu neto. E complementou:

“As pessoas que me condenaram não podem olhar para os netos como eu olho para você, com a consciência limpa”.

Lula, ao deixar o cemitério, acena para os populares. Repreendido, teria respondido: “O senhor saber que eu devia fazer isso”. (Foto: Ricardo Stuckert)

Como a decisão da magistrada encontra-se em segredo de justiça, não se sabe os argumentos que a levaram a limitar o prazo de permanência de Lula junto ao corpo do neto. Mas soa inconsequente. Maldosa. Perversa.

Algo como apregoava, na década de 60, Erasmo Carlos em um dos seus sucessos musicais: “Minha Fama de mau”.

Ele então cantava: “Perdão à namorada é uma coisa normal, mas é que eu tenho que manter a minha fama de mau!”.

Por menos que não se queira, é o que transparece da decisão da juíza quando, diante de um deslocamento de um preso por um total de oito hora, o limita a permanecer no velório do seu neto por apenas 1H30min.

Todos os demais empecilhos listados antes já estavam vencidos e resolvidos. As dificuldades relacionadas pelo delegado que em janeiro teriam impedido a saída de Lula para se despedir do irmão, foram superadas rapidamente. Houve helicóptero, avião, carro, translado, tudo sem confusão ou problema. Não se viu manifestações contrárias a Lula, apenas algumas dezenas de pessoas o aguardando no cemitério. Muitas já tinham passado pela capela visitando o caixão com o neto antes de sua chegada. Nada de ameaça ao preso ou aos policiais que o escoltavam. Tampouco manifestações que possam ser consideradas ato político.

Lula poderia até ter saído mais cedo de Curitiba para permanecer mais tempo com os parentes. Algo que seria considerado normal, diante do quadro trágico da morte de uma criança. Ele foi lá ao mesmo tempo para consolar filhos, noras e demais familiares e também para ser consolado. Mas viu-se obrigado, inclusive, a passar duas horas daquela manhã em um hangar do aeroporto de Congonhas, na companhia dos dois agentes federais, que o acompanharam desde Curitiba.

Fizeram hora para, cumprindo a decisão judicial de permanecer uma hora e meia entre os seus, estarem presente na despedida final do neto no crematório do Cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo (SP).

Soa como perversidade. Assim como outra recente decisão da mesma juíza. Ela impediu as visitas de religiosos e lideranças espirituais que passavam pela cela de Lula às segundas-feiras, pelo prazo de uma hora, na chamada assistência espiritual. Algo também previsto na legislação.

Carolina Lebbos, porém, suspendeu tais encontros e determinou que essa assistência espiritual se limitará a uma vez por mês por um padre pré-determinado pela própria Polícia Federal. Alguém que jamais conviveu com o ex-presidente.

Com apenas 36 anos, a juíza não vivenciou os anos de chumbo da ditadura militar. Nasceu quando os militares já se despediam do poder, em 1982. Poderia, porém, verificar nos livros de história o que ocorria, por exemplo, em São Paulo. Lá, mesmo no período mais duro – anos 70 – o cardeal arcebispo dom Paulo Evaristo Arns visitava presos nos presídios sem avisar a ninguém. Chegava de imprevisto e jamais foi barrado. Não houve militar capaz de propor qualquer medida que o impedisse. Nem mesmo juízes, como ocorreu agora com Lula.

Além dos 20 minutos de “estouro” no prazo pré-determinado pela juíza, Lula, sábado, no cemitério, acabou descumprindo uma outra determinação judicial.

O uso de celulares dentro da capela foi impedido. Medida respeitada por todos presentes. Enquanto estava em um outro ambiente, Gilberto de Carvalho, mais do que ex-ministro-chefe da Secretaria-geral da Presidência da República, um amigo pessoal de Lula, recebeu uma ligação para o ex-presidente. Não teve como não passar o celular ao preso, apesar da proibição. Era o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, querendo se solidarizar. Ambos não conseguiram conversar. Choraram juntos, segundo versões dadas à jornalista Mônica Bérgamo, provavelmente pelo próprio ministro. Ele mesmo avisou que queria que a imprensa soubesse de sua solidariedade.

Fica agora a dúvida: será que para manterem a “fama de maus”, os “lavajatistas” de Curitiba pretendem punir o preso por atender uma ligação de um ministro do Supremo Tribunal Federal?

 

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8 Comentários

  1. C.Poivre disse:

    O “procurador” que especulava com imóveis do “Minha Casa, Minha Vida” queria que o corpo do neto do Presidente Lula fosse levado a um quartel:

    http://www.tijolaco.net/blog/crueldade-da-lava-jato-nao-respeitou-nem-neto-de-lula/

  2. João Ferreira Bastos disse:

    Por conta do telefonema de solidariedade os lavajateiros agora querem o impeachment do Gilmar

    Quem vai colocar um basta nestes criminosos ?

  3. S.Bernardelli disse:

    Em minha opinião essa juíza deveria ser transferida para o quinto dos infernos, não só ela como a sua colega Gabriela HARDT ambas incompetentes, deveriam ainda responder por abuso de autoridade e incompetência no CNJ. Mas sei que isso não irá acontecer, pois o CNJ se tornou uma instituição tão ruim que nem para condenar certos juízes como MORO e aquela desembargadora sem caráter não está prestando. Essas raças de togados de quinta categoria pisam e cospe na cara de seus superiores e tudo fica por isso mesmo.

    • Antônio disse:

      Respeito as opiniões diversas apesar de equivocadas, O presidiário Lula, devido seu poder aquisitivo e influência no Brasil,
      é de fato, uma ameaça para o não cumprimento da sentença imposta por juízes competentes.
      A BANDIDOLATRIA é algo inaceitável no Brasil, portanto este senhor Lula, presidiário condenado, tem que sofrer o
      rigor da lei. Bandido tem que ser tratado como bandido, independente de partido político.

  4. Maria Valéria Novaes disse:

    Essa mulher não é juíza, é um carrasco, daqueles que sentiam prazer em enforcar, decapitar, matando de maneira cruel alguém. Depois que li os ataques ao Lula e seu neto, pelas supostas “pessoas de bem”, me lembrei dos circos romanos e os sacrifícios que lá eram feitos, essa turba bolsonarista com certeza são reencarnação daqueles que riam e se compraziam com as dores dos cristãos mortos, infelizmente não temos como impedir a maldade, não temos como dar um basta nos abusos das supostas autoridades, que se acham e sentem acima de tudo e de todos. Peço a Deus que dê força à Lula e que ele consiga superar toda essa maldade da qual tem sido vítima, nós brasileiros e o Brasil precisamos dele, e um dia as máscaras cairão,senão ficaremos à merce dessa barbárie judiciária, da crueldade dessa juíza e de outras iguais a ela, ficaremos envoltos nas insanidades governamentais desses quatro doentes e seus seguidores sequiosos por sangue e dor. Deus tenha piedade de nós.

  5. João Ferreira Bastos disse:

    Proibição descabida, afrontosa e criminosa as pessoas no velório não estavam sob o tacão desta criatura

  6. Não será surpresa, se houver um despacho de advertência da cruel Carolina lebbos. Essa turma precisa dar satisfação à torcida organizada, criada por outra cruel, a Rosângela moro, mulher do sujeito que destruíram a soberania do Brasil!

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