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Marcelo Auler

Matéria publicada na edição do Jornal do Brasil desta segunda-feira, 19 de março.

Receosos de se tornarem a chamada “bola da vez”, 14 jovens moradores de Acari deixaram a favela onde sempre residiram. Entre eles, a estudante de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Buba Aguiar, de 23 anos.

Temem se tornar a nova Marielle Franco, a vereadora do PSOL executada com quatro tiros na cabeça, no Estácio, na quarta-feira (14/03).

Certamente que o assassinato da vereadora Marielle não foi causado exclusivamente por uma denúncia que ela tenha feito, mas pelo chamado conjunto da sua obra na defesa dos Direitos Humanos, que incomodava há muitos.

Mas, tal como Marielle, estes jovens há muito denunciam as atrocidades cometidas por policiais militares do 41º BPM dentro de Acari, bairro na Zona Norte do Rio.

O mais grave é que essas suas denúncias não encontram eco junto às autoridades responsáveis pela chamada Intervenção Federal Militar do Rio de Janeiro.

Antes pelo contrário, enquanto assistem o Exército, como definiu o próprio general chefe da intervenção, Braga Netto, fazer das comunidades da Zona Oeste – notadamente a Vila Kennedy – palco de suas “experiências”, os moradores de Acari sentiram na pele o recrudescimento da ação dos policiais militares, seus velhos algozes.

Em um vídeo gravado dia 11 de março, para o site Ponte Jornalismo, ela denunciou:

“A impressão que nos dá é que com a intervenção os policiais estão se sentindo muito mais à vontade. Sempre se sentiram, mas agora estão se sentindo muito mais à vontade pra fazer o que estão fazendo”.

Neste depoimento inicial, Buba não nega o medo que sentem:

“Medo a gente tem. A gente vai cm medo mesmo, sabe? Alguém tem que fazer alguma coisa. Alguém tem que gritar. Alguém tem que espernear, igual criança dentro do supermercado querendo Danone. Só que a gente quer respeito, a gente quer dignidade, a gente quer os nossos direitos”.

Histórico de medo e pavor – As denúncias dela, porém, prosseguiram em um debate realizado na noite do dia 12, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro, do qual participaram ainda o ex-ministro da justiça Eugênio Aragão e o psicanalista e professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP), Tales Ab’Sáber. Tudo devidamente registrado na página do Facebook  “Precisamos agir e falar contra o fascismo”.

Neste debate, de forma didática, Buba demonstrou porque as comunidades carentes temem intervenções militares e operações policiais. Citou o que vivenciou em um sábado:

“Eu saí com uma moradora para buscar doações, porque Acari foi uma das favelas atingidas pela última enchente. A polícia estava entrando, a gente foi pelo cantinho das ruas. Começamos a ouvir tiros. Olhamos para trás, não tinha nenhum “bandido” atrás da gente. Ou seja, eles estavam atirando na nossa direção. Portanto, você é pobre, você é negro, você é favelado e você ainda ousa bater de frente com o Estado, você está muito ferrado. Está muito ferrado”.

A comunidade de Acari tem um histórico de medo e terror, imposto por Policiais Militares. O desaparecimento , em 1990, de onze jovens que ali residiam ficou famoso como a Chacina de Acari. Crime sempre relacionado aos policiais do então 9º Batalhão da Polícia Militar, que depois foi extinto. As mães destes jovens sempre correram atrás de informações dos corpos de seus filhos. Não só não conseguiram, como uma delas acabou assassinada (veja resumo do caso abaixo). O Estado jamais deu resposta aos familiares dos jovens e à comunidade em si.

Caveirão fede – Em outro momento, Buba contou ter sido presa por policiais militares simplesmente por ter ido comprar cigarro em uma padaria, na noite de uma sexta-feira. “Ele me deu voz de prisão, me algemou e me colocou dentro do caveirão. Gente, eu nunca tinha entrado no caveirão. Que sensação horrível. Lugar escuro, fede, fede a sujeira, suor”, explicou.

Seria levada para a delegacia, não fosse a interferência de moradores e, principalmente de outro policial que alertou ao colega para “a merda que você fará, levando-a em um caveirão para a delegacia por desacato”.

No seu relato, invasões de residência, independentemente de mandados, são comuns. “A minha eu nem sei quantas vezes, já perdi as contas… meu pai ainda tenta contar, doce ilusão. Não tenho dedo para tanto. Mas, é o tempo inteiro… é acordar na base do tapa, assim”.

Relatou ainda um sequestro, em 2016, sem qualquer acusação contra ela.

“Três policiais militares do 41º BPM me sequestraram. Me levaram para um lugar totalmente deserto. Depois me fizeram voltar para o Metrô de Acari sozinha. Eu fiquei quase um ano fora da minha casa, fora de Acari. Eu não podia nem ir lá visitar minha família, porque eles continuavam mandando recado, dizendo que iam me matar. Entravam na minha casa, pegavam fotos minhas. Quando eu passei o fim de semana lá, com minha família, escondida, eles descobriram, entraram na minha casa e deixavam recados e fotos minhas. Rabiscavam fotos minhas me chamando de piranha, de vagabunda,… Isso permanece até hoje. Esta perseguição política permanece até hoje”, narrou.

Para o público do teatro Oi Casa Grande, Buba deixou claro que todas estas experiências que ela e seus colegas de comunidade conhecem de perto, a fazem dizer que eles não sabem o que é democracia.

“Não só eu e o Raul (Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto, também no debate), mas outros companheiros e companheiras de favelas que também estão aqui. A gente não sabe o que é democracia. A gente nunca teve democracia. A gente não está ligado no que é democracia”, explicou.

Lembrou que nos ditos governos de esquerda “foi quando se aumentou, absurdamente, o número de assassinatos de jovens negros, de indígenas, de quilombolas, de defensores dos Direitos Humanos”. Questionou em seguida:

“Que país é esse? Democrático? Esse é o governo de esquerda que a gente está buscando? Que a gente está querendo? Porque se for, acho que é melhor dar a mão aí e caminharem juntos em direção ao trono da velha política. Porque a gente não está vendo nada de novo”.

Logo, lembrou quem paga a conta do chamado combate à violência através de intervenções militares:

“Essa ditadura que nós estamos vivendo não é uma ditadura que está exterminando o militante de classe média. É uma ditadura que está exterminando o povo negro, favelado”.

 

(*) Esclarecimentos do Blog – Esta reportagem saiu publicada na edição desta segunda-feira (19/03) do Jornal do Brasil impresso. Dentro do acordo firmado entre o editor do Blog e o JB, as matérias produzidas para o jornal estarão liberadas para o Blog, após a circulação do impresso. Como previsível, o espaço físico do jornal impresso limita o tamanho dos textos. A versão do Blog, portanto, contém informações que não couberam no impresso.

 

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2 Comentários

  1. Gustavo Horta disse:

    AS DIGITAIS DA GLOBO ESTÃO NO GATILHO. Por Ricardo Cappelli, no blog Diário do Centro do Mundo

    A Globo é de um cinismo impressionante. Patrocina o Golpe. Lidera os absurdos do Estado de Exceção. Alimenta o fascismo e seus patos amarelos. Agora, não satisfeita, tenta sequestrar a alma da vereadora carioca executada brutalmente.

    Ideóloga dos absurdos sucessivos que tomaram o país, “sua digital está no gatilho da arma utilizada no assassinato”. Fato consumado, Bonner, no melhor estilo hollywoodiano, veste a roupa de defensor dos direitos humanos e tenta sequestrar a alma da executada. Um cinismo revoltante.

    Quantas vezes Marielle foi vista na Globo? Quando sua luta teve espaço na emissora? A família Marinho agora é socialista e defensora dos direitos humanos?

    Cuidado PSOL, nunca vi jabuti subir em árvore. Tem caroço neste angu. Qual o objetivo da emissora?

    O mais provável é que a Globo, sabedora de nossas idiossincrasias, esteja apostando na ampliação da fragmentação. Sabe que o PSOL rejeita alianças. E sabe que sem alianças, isolados, estaremos fora do jogo.

    O partido deveria dar uma resposta forte à emissora. Demarcar claramente. Se recusar a participar deste teatro cínico e nojento que estão patrocinando diante de um fato que tem sobretudo razões ideológicas.

    O jogo é bruto. Acreditar que o diabo virou um carneirinho desinteressado e altruísta é fazer o jogo do inimigo. Seria muito bom denunciar ao mundo as digitais de todos que apertaram este inaceitável gatilho. A digital da Globo está entre elas. Não há dúvida.

    https://www.diariodocentrodomundo.com.br/as-digitais-da-globo-estao-no-gatilho-e-o-psol-fara-um-bem-se-denunciar-por-ricardo-cappelli/

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