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Comendo nas mãos da mesma fonte, sem maiores questionamentos, os jornais saem com manchetes parecidas quando não idênticas. Reprodução.

Arnaldo César (*)                                                            

Comendo nas mãos da mesma fonte, sem maiores questionamentos, os jornais saem com manchetes parecidas quando não idênticas. Reprodução.

Comendo nas mãos da mesma fonte, sem maiores questionamentos, os jornais saem com manchetes parecidas quando não idênticas. Reprodução.

É divertido ver a indignação de algumas pessoas com o fato de que as delações premiadas da Odebrecht, mesmo debaixo de rigoroso sigilo, tenham sido vazadas através de uma excrescência denominada “entrevista coletiva em off”.  O eminente filósofo, Romero Jucá, já teve a oportunidade de interpretar, num linguajar bem direto, o clima que permeia a atual República: “Suruba é suruba. Vale tudo”.

Na coluna do ombudsman da Folha de S. Paulo, do último domingo (dia 19), a jornalista Paula Cesarino Costa, levantou o véu que encobria as traquinagens entre procuradores da República e jornalistas na divulgação antecipada do conteúdo das delações dos 77 executivos da maior empreiteira do Continente.

Até então, presumia-se que os vazamentos seletivos da “Lava Jato” eram feitos no varejo. Descobre-se, agora, que escancarou geral. Ou melhor, escrachou de vez. O vazadouro de informações sigilosas opera no atacado. Faz-se um grande conluio para se estabelecer o que será levado ao conhecimento da opinião pública. E, estamos conversados!

Não fica bem – e tão pouco é elegante – lançar mão do vocabulário jucaniano para explicar o que intrépidos comandados do procurador Rodrigo Janot fizeram com o ministro do STF, Luiz Edson Facchin, o relator e guardião da lisura nos processos da Lava Jato.

Presumia-se que enquanto ele não levantasse o sigilo, as delações da Odebrecht não deveriam ser “vazadas” pela Procuradoria da República. O nobre magistrado paranaense foi, inapelavelmente, atropelado por Janot e seus procuradorzinhos amestrados. Passaram-lhe a mão sem dó em nem piedade.

Tudo leva a crer que o nobre árbitro fará vistas grossas a tal “entrevista coletiva em off”, denunciada por Paula Costa. No mundo da Lava Jato o que mais se faz é cometer crimes para se combater outros crimes. Estão aí os vazamentos dos grampos das conversas dos ex-presidentes Lula e Dilma, determinados pelo imparcialíssimo juiz Sérgio Moro, que não nos deixam mentir.

Coluna de Paula Cesarino Costa, Ombudsman da Folha.

Coluna de Paula Cesarino Costa, Ombudsman da Folha.

Nesse ambiente de “vale tudo”, de escracho geral e de relações espúrias entre jornalistas e procuradores também não é recomendável querer tirar uma onda de “freirinha de bordel” (outra expressão de uso comum na dialética de Jucá). Por isso, dá para se entender as razões pelas quais os profissionais de comunicação que participaram daquele “pool” estabelecido pela Procuradoria da República tenham evitado tocar no nome do golpista Michel Temer.

Só o delator e executivo da Odebrecht, Cláudio Mello Filho, mencionou o nome de o impostor Temer 43 vezes. Isso sem contar o que teria falado o chefe de Mello Filho, o empreiteiro Marcelo Odebrecht. Há uma explicação legal para tal omissão. Por isso, o nome de Temer não engrossou a relação de presidente e ex-presidente denunciados.

Essas “entrevistas coletivas em off” estão acontecendo em capítulos. A lista de Janot já está no segundo episódio. Outros virão. Pode ser que até lá, o nome do golpista mor saia da sombra e venha à baila.·.

Vê-se que a ideologia do “lawfare” (aquela que defende que a lei pode ser usada como arma de guerra política), que tanto tem embevecido o judiciário brasileiro, tem sido usada por aqui com maestria. Talvez, nem os sábios da Universidade de Harvard, onde é cultuada como se fosse um dogma, tenham tido a ideia de utilizar uma “entrevista coletiva em off” para detonar adversários.

Comer na mão da fonte, como está acontecendo na cobertura da Lava Jato, sempre foi condenado nas redações. Chamava-se isso de “correia de transmissão”. Muitos profissionais já foram demitidos por copiarem releases. Aceitar participar de uma coletiva em off poderia resultar no seu banimento da categoria.

Os tempos mudaram. A apologia do furo jornalístico evaporou-se. Mesmo porque, não há nenhuma razão para ele continuar existindo. Hoje em dia, os grandes acertos e as adesões são feitas, diretamente, pelos donos dos veículos com poderosos de plantão. Estejam eles do judiciário, executivo ou legislativo. Que se danem esses papos de jornalismo investigativo, informação diferenciada e a incessante busca da verdade!

Não é segredo para ninguém que a Lava Jato, com todas as suas estripulias, só se sustenta por conta do irrestrito apoio que recebe da opinião pública.  Noite e dia, os políticos brasileiros, seja de que partido for, sonham em detoná-la. Derrubaram Dilma Rousseff para poder quebrar as pernas da Lava Jato.

Os excessos de truques e de ações heterodoxas podem minar a sua credibilidade. O cidadão-eleitor já começa a sentir enjoos. Por isso, não custa fazer o que tem que ser feito com lisura e transparência. Vazar informação através de uma “entrevista coletiva em off” agride a inteligência e a boa fé de muita gente.

(*) Arnaldo César é jornalista e colaborador do Blog.                                                                          

5 Comentários

  1. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    É a tal “suruba geral e irrestrita” do Jucá (ou Caju, se preferirem).

  2. João de Paiva disse:

    Arnaldo César foi direto ao ponto, sem rodeios. Pinço as frases com que ele demole e chama Fraude a Jato pelo que ela é, mas usando termos diferentes, tão diretos quanto aqueles que usei para classificar tal operação midiático-policial-judicial.

    “No mundo da Lava Jato o que mais se faz é cometer crimes para se combater outros crimes. Estão aí os vazamentos dos grampos das conversas dos ex-presidentes Lula e Dilma, determinados pelo imparcialíssimo juiz Sérgio Moro, que não nos deixam mentir.”

    Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário são instituições da RFB. Segue abaixo duas das acepções do verbete “instituição”, que podem ser encontradas nos bons dicionários.

    1) Organização que atende determinados interesses e necessidades de um grupo, de um coletivo ou da sociedade em geral;
    2) Qualquer agremiação ou corporação.

    Portanto PF, MPF e PJ são organizações. Se elas trabalham em simbiose, conjuntamente ou com objetivos em comum, mais apropriado ainda se faz o termo ‘organização’. A chamada ‘Operação Lava a Jato’ nada mais é do que uma associação de três instituições (a PF, o MPF e o PJ) do Estado, com objetivos que já ficaram bastante claros para os cidadãos atentos, críticos e observadores. Portanto, partindo da premissa apresentada pelo jornalista Arnaldo César, é válida e lògicamente sustentável a conclusão de que a chamada ‘Lava a Jato’, é, sim, uma ORCRIM institucional, já que para – supostamente – combater certos crimes ele comete outros, de forma contumaz, continuada.

  3. Ilma Cordeiro de Macedo disse:

    Pena ou sorte, que o povão não tem tempo de ler “jornais”.

  4. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    ** superam

  5. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    Suruba misturada com swing. É um vale tudo inacreditável. Alguma coisa no Brasil ainda surpreende? Esse governo e essa justi$$a se supetam a cada dia em matéria de estupidez.

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