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Carta ao pai Henfil

Marcelo Auler

Quem é daquela época lembra. Semanalmente, entre 1977 e 1984, surgiam as Cartas da Mãe. De autoria do jornalista, desenhista, cartunista, cidadão brasileiro Henfil (Henrique de Souza Filho, 1944-1988), eram verdadeiras crônicas sobre a situação que o país vivia, em plena ditadura militar.

Publicadas em excelente fase da revista Istoé, as cartas eram dirigidas à dona Maria, que vivia em Belo Horizonte. Começaram quando Henfil morou por um longo período em Nova Iorque (EUA).

Ficaram famosas, não apenas por abordarem criticamente os dramas da política brasileira naqueles dias. Mas, principalmente, pelo humor mordaz do autor. Fazem parte da História do Brasil. Narram a uma parte da nossa História Contemporânea.

Ainda são atuais. Como nos comentários sobre a previdência social, por exemplo.

Trinta e três anos depois de “Cartas da Mãe” surgiu a “Carta ao Pai”.  Foi escrita no último dia 21 de novembro, quando Ivan, filho de Henfil, completou 47 anos.

Pode ter sido filha única, quem sabe? Mas vale o registro, até porque servirá para resgatarmos a memória de Henfil,  que jamais deve ser esquecido. Com ela, aproveitamos para resgatar alguns de seus trabalhos. Algo que Ivan vem fazendo através do Instituto Henfil.

Antigos, mas atualíssimos. Como se verifica nas charges reproduzidas abaixo, a começar pela citada por Ivan na “Carta ao Pai“. Ela se encaixam perfeitamente bem no atual momento político brasileiro, pós golpe do impeachment. Momento, que como lembra Ivan, seria prato cheio para a crítica mordaz de Henfil.

Trazemos ainda o documentário “Cartas da Mãe“, de 2003, dirigido por Fernando Kinas e Marina Willer. A narração é de Antônio Abujamra. Os depoimentos de Luís Fernando Veríssimo, Angeli, Gilse Cosenza, Iza Guerra, Laerte, Luiz Inácio Lula da Silva, Zuenir Ventura e um texto final de Frei Betto.

Através dele, quem não conheceu Cartas da Mãe, terá uma noção do que elas eram e da importância que tiveram naquela época.

E da falta que fazem.

Rio de Janeiro, 21 Novembro de 2017.

Pai,

Hoje é meu aniversário, meia noite sua neta apareceu com dois bolinhos, uma vela em cada um, achei que tinha queimado a luz, mas era ela fazendo surpresa.

Ê surpresa boa!!

Mas não tem muita coisa pra comemorar não. Estamos voltando ao tempo da escravidão pai, vai todo mundo trabalhar por um prato de comida, sem férias, sem aposentadoria, sem nada, até morrer.

E ainda vai piorar mais. A novidade é que vamos viver até os 140 anos, mas acho que ninguém gostou muito disso não!

Você teria material de sobra para as suas charges e para suas “Cartas da Mãe” que vc escrevia pra vó Maria.

Teria muito trabalho naquilo que vc fazia de melhor, decodificar as informações para o povão, que ainda não está entendendo o que está acontecendo.

Falta um tradutor, um decodificador, como vc foi na época da ditadura militar.

Mas você estaria se divertindo com o pessoal aqui hoje em dia, com medo de comunista!

Sério! Isso mesmo! Medo de comunista!

Cheguei a republicar uma tirinha sua do Fradim. Sabe aquela que o cara lava a mão depois de apertar a mão do Baixim e ele dizer que é comunista?

É o mesmo papinho.

“Não seremos uma nova Cuba!”, e por aí vai…

E olha que agora qualquer um tem acesso à informação que quiser, não tem mais desculpa.

Mas a cegueira é a mesma, igualzinha.

Fico com a impressão que estavam congelados, foram descongelados e acham que ainda estão em 64.

A diferença daquela época, é que agora uma mala de dinheiro não é suficiente pra incriminar ninguém, tá liberado!

Se for uma só não tem problema.

Parece que a Policia Federal vai liberar.

Só não pode ser comunista!

Saudade das suas cartas, pai!

Um beijo do seu filho,

Ivan

 

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2 Comentários

  1. Belmiro Machado Filho disse:

    67 anos. Eu e meus contemporâneos vivemos nossa adolescência, nossa juventude e parte da nossa vida adulta sob uma ditadura repressiva e assassina. As crônicas, os desenhos, as tirinhas, o Pasquim, eram o nosso esteio, o nosso norte e a nossa vingança. Riamos muito ao imaginar quanto os milicos deviam ficar putos da vida com o Henfil. Esse vídeo me emociona, mas ao mesmo tempo me enche de tristeza por não estarmos honrando a memória e o exemplo de luta e abnegação do grande BRASILEIRO HENFIL.

  2. Doug Evangelista disse:

    Outro excelente artigo do sempre genial Marcelo Auler. Como de costume, Marcelo nos leva a refletir com seus textos, ao mesmo tempo em que ele cita artigos de outros autores e/ou traz-nos documentos que deveriamos conhecer e/ou rever, quando e se já os conheciamos.

    Isto é exatamente o que Marcelo fez neste artigo, ao dar-nos a conhecer esta “Carta ao Pai” escrita pelo filho do Henfil, e ainda nos indica o documentário Cartas da Mãe.

    Recomendo assistir este documentário, pois nos faz lembrar de um Brasil que já existiu (ainda que alguns o negue hoje em dia)… e ao que parece -pelo conteüdo das Cartas do Henfil para sua mãe- um Brasil que não mudou muito no que seria essencial uma mudança!.

    Após assistir ao documentário me restou um pensamento: Precisamos, urgentemente, de um outro (ou talvez milhares) Henfil “para nos abrir um clarão nesses tempos escuros…”!

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