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Marcelo Auler

Petisco da Vila no inicio.1jpgAtacado por um Alzheimer, o jornalista, compositor e boêmio Sérgio Cabral, de 79 anos, foi poupado da notícia de ter seu filho, Sérgio Cabral Filho, 54 anos, preso em Bangu VIII, desde novembro do ano passado. A doença, porém, o poupará de outras decepções que o filho estaria lhe provocando: como, por exemplo, ver tradicionais lugares boêmios, que Cabral, o pai, certamente levou o filho em priscas eras, fecharem as suas portas. Caso do tradicional bar Petisco da Vila, que como o nome diz, fica em Vila Isabel, bairro de Noel Rosa, Martinho da Vila e tantos outros sambistas, motivo pelo qual também é chamado de “berço do samba”.

Boêmio por natureza, Cabral, o pai, não ficaria satisfeito em saber que a causa maior do tradicional bar da boemia do “berço do samba” ter cerrado suas portas foram as bandalheiras provocadas por Cabral, o filho, à frente do governo do Estado do Rio.

Conforme Nota Oficial divulgada no Facebook do próprio bar que encerrou suas atividades segunda-feira (06/03), depois de 44 anos funcionando, a culpa é menos da crise econômica que o país suporta com o desgoverno de Michel Temer, do que da crise administrativa da gestão do PMDB de Cabral Filho, Luiz Fernando Pezão e Jorge Picciani. No comunicado eles resumem as causas da queda de frequência que provocou o encerramento das atividades. Citam, é verdade, a crise econômica, mas não a colocam como principal motivo os quais, segundo a nota, estão ligados à administração peemedebista do Estado do Rio de Janeiro.

 “(…) ao longo deste tempo também enfrentamos e superamos desafios. Mas agora fomos vencidos. A violência tem afastado as pessoas das ruas, especialmente à noite, horário em que outrora havia grande movimento. O Maracanã, que também trazia grande público nos dias de jogos, há muito está inativo. O mesmo acontece com a UERJ e o Hospital Pedro Ernesto, cujas greves frequentes afastam o público consumidor (…)“.

Nota oficial do Petisco da VilaA violência que assombra a população do Rio e, em especial, bairros da Zona Norte, como Vila Isabel, sempre menos policiados que os da Zona Sul, está diretamente ligada à má administração do Estado. Atrasos de salários, falta de manutenção dos carros de polícia, desmotivação dos policiais, são alguns exemplos desta má administração que, no início deste ano, acumulava dívidas de R$ 19 bilhões.

Também está diretamente relacionada à péssima gestão do PMDB, que se endividou confiando nos royalties do petróleo, a profunda crise por que vem passando a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), cujo principal campus fica em Vila Isabel, assim como o Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE).

Em recente matéria – A agonia da UERJ -, a revista CartaCapital revelou que dos gastos de 1,1 bilhão de reais previstos no orçamento da universidade em 2016, 35% não foi repassado, segundo dados informados pela Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz). Só em pessoal, encontram-se pendentes de pagamento 212,4 milhões de reais, que representam 18,9% do orçamento total. Com isso, 30 mil estudantes não têm mais aulas. São consumidores do comércio de Vila Isabel que deixam de circular por lá.

Houve ainda a crise do Maracanã. No esquema do governo de Sérgio Cabral Filho de beneficiar a Odebrecht e a Andrade Gutierrez para que estas lhes garantissem propinas e mesadas, a reforma do estádio foi superfaturada – o custo inicial de R$ 700 milhões pulou para R$ 1,3 bilhão.

Atingida pela Lava Jato, a Odebrecht que detinha o poder da administração do estádio, o deixou literalmente entregue às traças. Nem luz o estádio tinha e até registrou caso de furtos de equipamentos eletrônicos ali instalados para os Jogos Olímpicos de 2016. Na quarta-feira (08/03) ele voltou a ser palco de um jogo em que o Flamengo venceu de 4 x 0 o argentino San Lorenzo, pela Libertadores. Mas, sem os jogos, o comércio no seu entorno sofreu a falta de clientes.

A mesma crise já fez com que os proprietários do Petisco da Vila fechassem outro bar que detinham – Planeta do Chopp – no mesmo Boulevard Vinte e Oito de Setembro. Este estava estrategicamente defronte à UERJ – na esquina da Rua Felipe Camarão -, cujos alunos e professores eram seus principais clientes. Com o fechamento do Petisco (esquina de Rua Visconde de Abaeté) já são dois  restaurantes do mesmo grupo que cerram as portas. Fora outros menos famosos, que também já encerraram as atividades em diversos pontos da cidade.

O Alzheimer de Sérgio Cabral pai, certamente também lhe poupará de testemunhar que os “mal feitos” de seu filho estão derrotando uma tradição carioca: a boêmia. Com isso, o ex-governador e atual presidiário, Sérgio Cabral, o filho, derrota também o Rio que seu pai, que sempre se considerou um “eterno boêmio”, adorava, curtia e ajudou a construir. Lamentável.

 

2 Comentários

  1. Angela disse:

    O artigo é bom , mas a resposta é infinitamente melhor : matadora e precisa

  2. João de Paiva disse:

    ERRO DE AVALIAÇÃO

    Prezado jornalista, prezados leitores.

    Moro na ZN do Rio e diàriamente, quando volto do trabalho no centro da cidade, passo por Vila Isabel e observo mais e mais portas fechadas em estabelecimentos comerciais. Notei o fechamento do bar citado na reportagem, assim como de outros estabelecimentos.

    Sérgio Cabral Filho, todos os excessos, orgias, negociatas e esquemas de corrupção em que ele, alguns de seus aliados, a grande mídia (sempre parceira de 1ª hora e que faturou milhões em publicidade do governo fluminense, que apoiou tàcitamente Cabral até 2013, quando a parceria com o MPF e com com outras instituições e ONGs golpistas – daqui e do exterior – mostrou que as sementes do golpe haviam encontrado terra fértil para prosperar) têm sua parcela de responsabilidade pela situação caótica em que se encontra o Estado do Rio de Janeiro. Mas atribuir apenas ao governo estadual a crise atual e sequer mencionar o efeito da Fraude a Jato – que arruinou todo o setor de óleo e gás e de construção naval, que destrói contìnuamente a Petrobrás e toda a cadeia de fornecedores, que desmantelou e destruiu as grandes empresas da construção pesada – e das quadrilhas políticas e judiciárias que tomaram o Executivo Federal, ah, isso é ingenuidade, omissão para dizer o mínimo.

    Sobre a dívida dos estados, recomendo ao repórter e aos leitores que ouçam e leiam atentamente o Professor José Carlos de Assis, da COPPE-UFRJ, que já demonstrou que as dívidas estaduais – na maioria dos casos sequer existe. José Carlos de Assis, o senador Roberto Requião e outros já propuseram uma auditoria dessas dívidas. Até hoje ninguém no Congresso Nacional ou no GF teve coragem de debater o assunto, muito menos apresentou argumentação contrária, capaz de de mostrar que JCA está errado. O governador de MG, Fernando Pimentel, tem mostrado que as desonerações com a chamada Lei Kandir, deram um prejuízo a o estado mineiro que é maior do que a alegada dívida atual de MG com a União.

    Por fim o jornalista e os leitores devem se lembrar que o governo fluminense concedeu mais de R$200 bilhões em isenções fiscais, para que empresas fizessem investimentos no estado. Por mais que tenha havido corrupção nos governos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, é evidente que os recursos desviados nesses crimes não chegam a 10% do que o estado deixou de arrecadar nesses anos, com essas isenções fiscais. Aliás, se forem feitas reportagens investigativas, constatar-se-á (ou o ‘MT’ das propinas e caixa 2 pensa que só o velhaco embolorado do século XIX sabe usar mesóclises!?) que tais isenções têm estreita ligação com a corrupção. Os leitores e o jornalista devem observar que se de fato as quadrilhas do judiciário, da PF, do MPF e da política que domina Brasília hoje estivessem, de fato, preocupadas em combater a corrupção, o atual governador do RJ, Luiz Fernando Pezão, assim como o vice, Francisco Dornelles, não só teriam sido destituídos dos cargos que ocupam, como seriam réus em ações criminais. Pezão foi vice de Cabral Filho por dois mandatos; como dizer que apenas o titular estava envolvido em esquemas de corrupção? Está mais claro que o sol do meio dia que o judiciário preservou o mandato de Pezão pela mesma razão que Renan Calheiros foi mantido na presidência do Senado, ou seja, entregar a CEDAE para a privataria e enfiar o pacote neoliberal de maldades para toda a população fluminense, sobretudo os servidores públicos e a população pobre que usas os serviços públicos.

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