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Marcelo Auler

Na sexta-feira 13 a primeira reunião do ministério de Temer. Foto Agência Brasil

Na sexta-feira 13 a primeira reunião do ministério de Temer. Foto Agência Brasil

Trago ao blog o artigo do sociólogo Luiz Alberto Gomez de Souza, a respeito do ministério deste governo interino que se inicia hoje, uma sexta-feira 13.

Na verdade, o que este ministério pode ter de novo é assustador, como a presença do pastor Marcos Pereira. Ele iria para o Ministério de Ciência e Tecnologia, com suas ideias retrógradas. Acabou no ministério do Desenvolvimento Econômico. Acredita-se que a substituição ocorreu por conta das críticas, como a bem humorada escrita por Luis Fernando Veríssimo, em O Globo, em 8 de maio, com o título “Distração“:

O provável ministro de Ciência e Tecnologia no gabinete em formação do Temer é um bispo licenciado da Igreja Universal, indicado pela bancada evangélica. Deixa eu repetir porque ainda não acreditei no que li. O provável ministro da Ciência e Tecnologia do governo Temer é um bispo licenciado da Igreja Universal! Supõe-se que o bispo seja um criacionista, que repele a teoria da evolução das espécies e prefira a tese de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, além de inventar o homem e a mulher. O bispo tem todo o direito às suas crenças — mas no Ministério da Ciência?! Sua escolha é uma amostra do retrocesso que nos espera ou mais uma amostra da distração do Temer, que queria para o Ministério da Justiça um amigo seu, sem se dar conta de que ele assinara um manifesto de juristas comparando os métodos da Lava-Jato a métodos fascistas. A Polícia Federal vetou o preferido do Temer, inaugurando, ao mesmo tempo, um quarto poder na República, o da PF com direito a dar palpites na formação de ministérios. Talvez Temer já esteja cansado da dura tarefa de montar um governo sem votos, e daí sua distração. Ele merece descansar, como o Deus dos evangelhos“.

O general Sérgio Etchegoyen vem de uma família ligada à repressão política durante a ditaduras militar. Seu tio, Ciro, foi um dos criadores da Casa da Morte.

O general Sérgio Etchegoyen vem de uma família ligada à repressão política durante a ditaduras militar. Seu tio, Ciro, foi um dos criadores da Casa da Morte.

O Pastor, na realidade não é a única novidade “estranha” no ministério. Tem ainda, como afirmamos em O constrangimento às baianas sinaliza a criminalização dos movimentos sociais, o general Sérgio Etchegoyen, que o presidente interino está levando para o Palácio do Planalto, de onde comandará, através do Gabinete de Segurança Institucional – GSI, a política de arapongagem do governo e a repressão ao que chamam de “desordeiros”, entenda-se, movimentos sociais.

Seu pai, o general Leo Etchegoyen, e o tio, coronel Ciro Etchegoyen,foram próceres da linha dura na ditadura militar. Ciro, inclusive,com mais cincos oficiais do Centro de Inteligência do Exército, no início dos anos 70, criou o aparelho clandestino no qual torturaram e assassinaram opositores do regime militar: a Casa da Morte, em Petrópolis.

Retirando algumas cabeças novas na administração pública, mas já conhecidas no meio político, o presidente interino conseguiu montar uma equipe “Déjà vu”. São figuras que há tempos ocupam o noticiário político, algumas das quais atualmente poderiam estar também nas páginas policiais.

Abaixo-assinado ao Temer – A propósito, por iniciativa da advogada, professora, mestre em Direito e Sociologia, Nadine Borges, uma defensora de todos os direitos duramente conquistados pela humanidade contra o exercício arbitrário de poder, surgiu o abaixo-assinado Temer não é presidente! É presidente interino!, endereçado ao presidente interino e outras autoridades, no qual exige-se o uso da expressão “interino” enquanto perdurar o afastamento de presidente eleita com 54 milhões de votos, Dilma Rousseff, apeada do poder pelo golpe do impeachment sem crime de responsabilidade  comprovado.

Abaixo, o artigo de Gomez de Souza.

 Um ministério de sexta-feira 13: loteamentos para saciar apetites.

Luiz Alberto Gomez de Souza

Começa um ministério com apenas 180 dias certos até agora, numa sexta-feira 13. Para os supersticiosos é um início aziago. Temer começou há um bom tempo, tentando costurar sua equipe. Os meios de comunicação favoráveis a ele falavam ao princípio, de um “ministério de notáveis”. Mas logo se viu, como nunca, um loteamento (lotizazzione, hábito em certa política italiana), com cargos para atender apetites, sem conseguir totalmente, tanta era a sede por postos na nova coalizão, boa parte da qual migrou, por oportunismo, do governo Dilma.

O pastor Marcos Pereira que acabou no ministério de Desenvolvimento Economico depois de pular fora do governo Dilma com os 22 votos da sua bancada de deputados. Foto Douglas Gomes/PRB

O pastor Marcos Pereira que acabou no ministério de Desenvolvimento Economico depois de pular fora do governo Dilma com os 22 votos da sua bancada de deputados. Foto Douglas Gomes/PRB

É o problema das políticas de coalizão, com tantos partidos, ávidos de poder. O PMDB é situação em qualquer momento político. Os nanicos procuram espaço. O PPS renegou o velho passado do Partidão (que, aliás, foi por vezes oportunista). Entre os políticos favoráveis ao impeachment, Cristóvão Buarque mudou de lado talvez não refeito da maneira como deixou de ser ministro. Marta Suplicy não esconde sua ambição de voltar à prefeitura (afortunadamente, nas pesquisas, Erundina está na frente).

       Nas semanas que passaram, ministros eram anunciados e logo em seguida desapeados da indicação. Um evangélico, o pastor Marcos Pereira, do velho criacionismo de uma leitura literal e errônea da Bíblia, iria para o Ministério de Ciência e Tecnologia, com suas ideias retrógradas. Newton Cardoso Jr. foi vetado, por sua juventude e falta de experiência, por generais e coronéis na casa dos sessenta anos. Ele substituiria seu pai que caíra na ficha limpa. Acabou indo para lá Raul Jungman, do PPS, com passado de esquerda que renegou.

  Falava-se de diminuir drasticamente os 32 ministérios, para cerca de 11, logo aumentavam para 23, tantas eram as demandas afoitas. Foi necessário fazer fusões, algumas discutíveis. Em 1963, trabalhei no Ministério de Educação e Cultura (MEC), como assessor do ministro, com Betinho, e pude constatar o pouco espaço dos problemas culturais, espremidos pelas enormes diretorias da educação. Ao serem separados, mais adiante, a cultura ampliou seu campo de atividades e influência. Vai encolher novamente? E a Previdência, afogada dentro da Fazenda, no feudo de Henrique Meirelles, aliás por 8 anos no governo Lula? Os critérios para equacioná-la serão provavelmente econômicos, no ajuste e nos cortes, sem levar em conta as exigências legítimas dos usuários.

Fica a dúvida sobre o Ministério das Relações Exteriores, agora engordado com a política de comercio exterior, por pressão de José Serra. Pode-se sentir um plano no continente, não tão velado, para mudar as prioridades, perdendo força o MERCOSUL, a UNASUL e, entre nós, os BRICs. Voltará o velho alinhamento com a potência do norte, como “satélite privilegiado”, na concepção de Golbery do Couto a Silva? O primeiro presidente a saudar o governo Temer foi o argentino Mauricio Macri, que evoluciona nesse sentido. O candidato de Cristina, Daniel Scioli, ia em direção contrária. E prepara-se um pós-Maduro e, quem sabe, logo um pós-Correa e um pós-Morales. Não serão necessárias mudanças no México; já está alinhado. As transformações desenhadas parecem ter assim uma certa coordenação. Já o errático Jânio falara de política externa independente. E foi a tônica dos últimos anos, graças a Celso Amorim e a Samuel Pinheiro Guimarães Neto. Como será apoiada a presença do Brasil no Banco de Desenvolvimento dos Brics, com um vice-presidente em Xangai, Paulo Nogueira Batista Jr?

Romero Jucá (PMDB), um dos sete ministrodes do "novo" governo enrolados na Lava Jato, assim como o próprio interino Michel Temer.  Foto Presidência da República

Romero Jucá (PMDB), um dos sete ministrodes do “novo” governo enrolados na Lava Jato, assim como o próprio interino Michel Temer. Foto Presidência da República

Não esqueçamos que essa nova base aliada tem 58 parlamentares investigados pela Lava Jato (N.R: sete dos novos ministros estão entre eles). Apesar de afirmações em contrário nestes primeiros dias, ela não poderá perder força? Vários são candidatos à ficha-suja. Aécio Neves, Cássio Cunha Lima e Alkmin, novos aliados do PSDB que entraram na coalizão talvez, na penumbra, poderiam trabalhar para que inquéritos e investigações percam força.

Como reagirá este ministério biônico, de um governo sem votos populares, diante do clamor das ruas e dos movimentos sociais? A truculência policial em São Paulo é um mau presságio.

Enfim, é tempo de seguir na mobilização social e, no que repito sem cessar, em consonância com a Frente Brasil Popular, a Frente Brasil sem Medo, o MST e lideranças religiosas: há que ir trabalhando, nos próximos 180 dias, nas próximas eleições municipais, naquelas de 2018 e, mais ainda, num processo que se estende adiante, na formação de uma Frente Ampla Democrata e Nacional.

Políticos os mais diversos como Tarso Genro, Luíza Erundina, Flávio Dino,  Jandira  Feghali,  Jorge Viana, um incansável Lindberg Farias e outros companheiros do PC do B, do PSOL, do PDT e do PT provavelmente se uniriam a esse movimento, que teria de ter as bases sociais como eixo, no repensamento de uma democracia representativa, que tem dados tristes sinais nas últimas votações do impeachment. Haveria que articular-se com uma democracia participativa, como pede Boaventura Sousa dos Santos, com o fortalecimento de plebiscitos e referendos e com a possibilidade de depor mandatários (o famoso “recall”, com um termo ainda sem boa tradução). Tivessem já sido instituídos e não teríamos a imagem deprimente que demos ao mundo nas últimas semanas.

6 Comentários

  1. […] reportagens O constrangimento às baianas sinaliza a criminalização dos movimentos sociais  e  Um ministério de sexta-feira 13: loteamentos para saciar apetites todo um clima de se retomar o estado policial que funcionou na época da ditadura militar, […]

  2. […] Fonte: Um ministério de sexta-feira 13: loteamentos para saciar apetites | Marcelo Auler […]

  3. Esmael Leite da Silva disse:

    piór que isso é saber que o PSDB tem um nome para ser candidato a Presidente da República, o nome que está sendo trabalhado é o do Henrique Meirelles o atual ministro da Fazenda, PSDB e PMDB se fundiram neste projeto, que é do “Mercado”, pela primeira vez na história o Mercado vai assumir a presidencia de um país, ou seja um banqueiro vai ser o representante direto do neoliberalismo sem interferências e ruidos, Acredito que as baterias deveriam ser dirigidas contra Henrique Meireles que ditará a politica econômica e ao Temer, visto que ele é o perigo maiór que o Brasil corre.(Só para lembrar : o Temer está fora da parada pois está enquadrado na lei da ficha limpa pelo TSE)

    • João de Paiva disse:

      Tua análise é correta, Esmael. Mas devo te dizer que nós, da Esquerda, devemos fazer oposição vigorosa a esse governo golpista, dando a mesma atenção a pelo menos quatro frentes:
      1) A primeira frente é na área dos direitos humanos, sociais, previdenciários e trabalhistas;
      2) A segunda frente é na área da saúde;
      3) A terceira frente é na área da educação;
      4) A quarta frente é na área econômica.

      Na listagem acima a ordem numérica não estabelece, necessariamente, hierarquia de prioridade. Nosso objetivo agora não é inviabilizar um possível candidato do ‘mercado’, que esse governo ilegítimo tente forjar. O objetivo é destituir rapidamente o governo golpista ou impedi-lo de implementar os retrocessos que já anunciou querer implementar, na marra, à base da força, da truculência e da repressão violenta aos que se manifestarem contra. Não podemos dar trégua aos golpistas.

  4. C.Pimenta disse:

    Caso alguém ainda tenha dúvidas sobre o protagonismo norte-americano no golpe, veja a revelação do Wikileaks: Temer espionou para os EUA (e, claro, continuou até assumir ilegítimamente o poder). Não é à toa que Aloysio Nunes foi correndo dar um retorno ao Deptº de Estado estadunidense.

    https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

    • Esmael disse:

      Caro João de Paiva, seu encaminhamento é muito bom e não exclui a minha análise, Em Tempo? demorei para responder porque não estava acompanhando esta matéria, grande abraço.

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