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Carlos Franco, de Uberlândia (MG)*

Uberlândia, segunda maior cidade do Estado de Minas Gerais depois da capital Belo Horizonte, principal referência da região do Triângulo Mineiro com uma população estimada pelo IBGE em 700 mil habitantes, vive o caos causado pela pandemia covid-19 desde a quarta-feira (17/02). A data marcou o início do colapso da rede hospitalar, pública e privada, que em apenas poucos dias atingiu seu ápice. Foi no domingo (21/02) que o colapso completo se mostrou.

A tragédia, porém, começou a ser desenhada antes, tendo como protagonistas justamente aqueles que deveriam evitá-la. Representantes dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) a fermentaram com muita disposição e condenáveis omissões por força do característico negacionismo bolsonarista. Ajudaram a construir um domingo (21/02) de terror.

Nele morreram médicos renomados, como o neurocirurgião Robson Alarcão de Carisio e da vereadora Drika Protetora, uma bolsonaristas/negacionista assumida. O caos se revelou ainda nos comunicados de dois dos maiores hospitais privados da cidade – o Santa Marta e o Santa Clara -, de que todos os seus leitos de UTI estavam ocupados. Sugeriam aos pacientes a procura por outras unidades de saúde. Plantaram a insegurança na população.

Uma insegurança que foi reforçada pelo apelo dramático da terapeuta intensivista Ludmila Rezende. Mesmo sem ser figura pública na cidade, no domingo (21/02) ela recorreu às redes públicas em um vídeo dramático pedindo socorro, mais leitos e hospital de campanha para a cidade. Nesta segunda-feira (22) ela voltou a falar sobre o problema como mostramos no vídeo abaixo implorando atenção mesmo para aqueles infectados que não estão em caso graves, para evitar que piorem e morram.

“Deixar o paciente em casa, além de tudo é uma covardia”

Afinal, os sinais da tragédia começaram a surgir ainda em 6 de janeiro, quando a cidade sepultou o juiz Miller Rogério Couto Justino, vítima de covid-19, com apenas 48 anos. Uma morte que mexeu com a chamada elite uberlandense que, nas eleições passada, apoiou em massa o bolsonarismo. Mais de 60% dos votos do município foram para o hoje presidente negacionista e omisso diante da Covid-19.

No boletim daquele dia 6 de janeiro, o município registrava 756 mortes e 44.461 pessoas contaminadas. Nesse último domingo, ou seja, seis semanas depois, Uberlândia contabilizou 966 vítimas fatais pela Covid-19. Crescimento de 27,7%. No mesmo período, o número de contaminados chegou a 65.456 habitantes do município que passam também a ser passiveis vetores de propagação do vírus, inclusive junto a seus próprios familiares. Situação que deve se agravar nas próximas semanas, como admitem representantes do poder público.

Na busca por culpados, sobrou para os manauaras

Diante do caos instaurado e como sugere manuais de crise, busca-se culpados, sobretudo quando se é, senão no todo, em parte, responsável pela situação atual a que chegou à cidade. Foi o que fizeram, em live no domingo (21), a primeira-dama do município e secretária de Governo e Comunicação, Ana Paula Junqueira, e o assessor técnico da rede de urgência e emergência da Secretaria de Saúde, de Uberlândia, Clauber Lourenço.

“Ledo engano achar que ela (a nova cepa brasileira do coronavírus) não chegou aqui em Uberlândia. Nós estamos a 100 km de Uberaba. Já chegou. Explica a morte de pessoas tão jovens, que antes não tinham”, disse Lourenço, em uma crítica indireta ao fato de a cidade vizinha ter recebido para tratamento 18 pacientes de Manaus. Por este raciocínio míope, são eles os responsáveis.

Lourenço também fez coro com a primeira-dama na cobrança por mais empenho da Universidade Federal Uberlândia (UFU) e de seu Hospital de Clínicas (HC-UFU), referência na região, para o tratamento da doença. O HC-UFU tem hoje 16 leitos de UTI destinados para este fim. Com a taxa de ocupação de leitos de UTI em toda a cidade atingindo escandalosamente 99%, surgiu a cobrança por mais empenho da UFU, em uma tentativa de esconderem as omissões dos demais responsáveis.

Um discurso que começou a ser alinhavado na coletiva de imprensa do Comitê Municipal de Enfrentamento ao Covid-19, quarta-feira (17/02). Nela, o prefeito Odelmo Leão Carneiro Sobrinho (PP) fez um pronunciamento que nada pronunciou. *Deixou para anunciar somente dois dias depois, na sexta-feira (19), a tardia decisão* de fechamento dos serviços não-essenciais. Foi quando incluiu o município no que denomina de regras rígidas das atividades econômicas e sociais. Rígidas, porém, apenas no discurso, pois não afeta, por exemplo, o funcionamento de igrejas, nem o comércio de diversos setores, entre os quais o da construção civil.

Falta explicações das verbas aplicadas

Na entrevista, o próprio prefeito começou a cobrança de mais empenho da UFU. Não comentou, porém, parecendo ignorar, os cortes nas verbas federais para Educação de que a universidade local é vítima, tal e qual as demais universidades públicas. Algo que afeta diretamente a capacidade de investimento da UFU no HC.

Até o procurador da República em Uberlândia, Cléber Eustáquio Neves, aproveitou, como que munido de procuração do alcaide, para fazer eco ao discurso dele, reforçando a cobrança. Em nenhum momento, porém, o nobre representante do Ministério Público Federal cobrou do prefeito a destinação dos recursos provenientes do governo federal no ano passado. Foram R$ 82 milhões a mais do teto da saúde para o município. Não se questionou, por exemplo, se a prefeitura se preocupou em repassar algum centavo desse “extra” para o hospital universitário. Ao que parece, não houve tal preocupação.

Praticamente todos os municípios com mais de 200 mil habitantes em Minas Gerais criaram programas próprios de auxílio emergencial para os mais pobres, menos Uberlândia. Mas a destinação desses recursos e sua locação não pareceu, pelo menos nesta coletiva, ser matéria de interesse do procurador que tem por missão constitucional fiscalizar o cumprimento das leis e defender os interesses dos cidadãos da República (Lei Complementar nº 75/93). Funções para as quais a Constituição lhe garantiu autonomia e independência nas ações.

O poder legislativo que também poderia ter um papel mais decisivo para evitar o caos, concorre para ampliá-lo. No sábado, 12 de fevereiro de 2021, portanto poucos dias antes de o colapso da saúde ser anunciado na coletiva, o presidente da Câmara Municipal de Uberlândia, Sérgio do Bom Preço (PP), emprestava a sua assinatura, à discutível proposta de retorno das aulas. Ao lado dos vereadores, Antônio Augusto Queijinho (PP) e Thiarles Santos (PSL), apoiou a carreata que pedia a volta das atividades presenciais nas redes públicas e privadas de educação. Defendiam isso apesar das insistentes manifestações de professores e até de pais de alunos preocupados com os riscos que este retorno representaria. Um retorno que acabou impedido, posteriormente, pela Justiça.

O mais entusiasmado defensor desse movimento, Cristiano Caporezzo, chega agora à Câmara Municipal, com seus 2012 votos, acabou se beneficiando com toda esta tragédia. Assumirá a vaga aberta pela vereadora Drika Protetora (2.653 votos), como ele, também do Patriota, que se tornou a primeira vítima fatal do coronavírus em exercício no legislativo municipal.

Carreata dos irresponsáveis negacionistas de Uberlândia

Portanto, não foi estranha a omissão do presidente do legislativo municipal, na quarta e na sexta-feira da semana passada, quando o caos causado pelo coronavírus já se instalava, recusando-se a convocar seus pares para reunião extraordinária. Foi proposto pela vereadora Dandara Tonantzin (PT), a mais votada nas eleições de 2020, com mais que o dobro de votos do Sérgio do Bom Preço. Ela defendeu que os vereadores debatessem a crise na saúde.

Do lado empresarial, a Associação Comercial e Industrial de Uberlândia (ACIUBE) e o Clube dos Diretores Lojistas (CDL) reforçam o discurso do prefeito de que a UFU tem que ter mais empenho neste momento. O presidente do CDL, Cícero Heraldo Novaes, através das redes sociais, pediu ao presidente Jair Bolsonaro apoio à Uberlândia. Um apelo patético diante da falta de interesse do governo federal, desde março do ano passado, em conter a pandemia.

O caos em Uberlândia é um triste retrato do que o negacionismo da ciência pode fazer a uma população, sobretudo quando os poderes se conjugam não em busca de solução, mas de culpados. Os 18 pacientes vindos de Manaus que lutam pela vida em Uberaba, não fossem também vítimas do desgoverno na área federal, agora o são também de bullying por parte do representante da Secretaria de Saúde de Uberlândia, que é incapaz de enxergar as omissões das autoridades municipais diante de todo o caos que vem se anunciando há tempos. .

*Carlos Franco, nasceu em Uberlândia, é jornalista profissional tendo atuado como repórter e editor no Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil e Correio Braziliense.

 

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2 Comentários

  1. Anonimo disse:

    Por que não fala também do pessoal que tá turistando de Florianópolis a Maragogi se aglomerando e vindo pra cá?
    O jornalista deu ênfase à vereadora mais votada, mas ela tá propondo DEBATE invés de propor MEDIDAS então ela também é parte do problema chamado PODER PÚBLICO!
    Melhore jornalista amador!!
    Melhore câmara despreparada!!

  2. anonimo disse:

    Sou da cidade, trabalho na prefeitura.
    É impressionante o descaso não só com a população em geral, mas também com os funcionários diretos da administração pública.
    Foi editado um decreto definindo novas ações no ambito da administração municipal, mas os próprios gestores (secretários, diretores, etc.) amigos do rei se negam a aplicá-lo aos seus subordinados.
    Nem ao menos orientação passaram… reuniões para discutir ações? Zero…

    De onde eu venho, a culpa é do gestor…

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