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“O que aconteceu??”, espanta-se o jovem Inquisidor”. Quem será?

Marcelo Auler

coluna marcio Amaral.24.09.16Pela segunda vez nessa semana reproduzo neste espaço um texto do meu amigo Marcio Tavares D’Amaral. No domingo (18/09), reproduzi uma verdadeira aula, distribuída por ele ao grupo de amigos do qual faço parte. Como bom mestre que é, na postagem – Didaticamente, em sete itens, a explicação sobre o golpe do impeachment – demonstrou porque o impeachment de Dilma Roussef é considerado um golpe, apesar dos “coxinhas” e dos usurpadores do poder não quererem admiti-lo como tal.

Professor emérito de História da Filosofia na UFRJ, D’Amaral, na coluna deste sábado (24/09) em O Globo, onde escreve semanalmente, foi buscar nos filósofos da era AC a tentativa de explicar o grande dilema entre prova e convicção, criado recentemente.

Ele se superou no artigo de hoje. Lembra-me do período da Ditadura Militar quando, por conta da censura, tentávamos passar as informações sem dize-las diretamente. Aqui, D’Amaral foi, ao mesmo tempo, didático, crítico, sarcástico e ainda por cima, irônico. Não há como não admirar este texto que é revelador, sem revelar. Não preciso me aprofundar, o texto de D’Amaral, fala por si.

Apenas lanço no ar uma pergunta: “quem será o “jovem inquisidor” a que ele se refere? (respostas podem ser dadas nos comentários abaixo)

Prova e convicção

Márcio Tavares D’Amaral (*)

 

Um farol apagado é ou não um farol? É a luz que faz o farol ou é o farol que faz a luz?

Problema tremendo da filosofia, há mais de dois milênios, é distinguir o que parece, mas não é, do que é mesmo, de verdade. Devia ser óbvio: se é, é; se não é, pode parecer à vontade, mas, sinto muito, não é. Pronto. — Só que não. Um farol apagado é ou não um farol? É a luz que faz o farol ou é o farol que faz a luz? O que é que faz a maré alta? A água que avança sobre a praia ou a praia que encolhe sob as águas? As duas? Enquanto não se souber isso, não se sabe nada. A verdade fica em suspenso, perdida nas aparências. Pode-se pensar que essa é uma daquelas questões que só interessam aos filósofos, dessas incompreensíveis, meio tolas, nada a ver. Mas não. É talvez a questão que mais diretamente diz respeito à vida. Não à Vida, assim, com maiúscula, coisa metafísica. À vida mesmo, às nossas vidas. No mais miúdo delas. Esse problema de ser ou parecer é do nosso cotidiano. Às vezes a gente não vê. Mas está lá.

Por exemplo: fulano é ou não é dono de uns imóveis? Pergunta bem simples, só devia admitir um sim ou um não. Mas o jovem Inquisidor encarregado de respondê-la não sabe. E diz: “Parece”. Um filósofo tem a obrigação de perguntar: “Parece ou é?” — “Não tenho prova”, admite o jovem Inquisidor. — “Nada?” — “Nada cabal. Evidência, mesmo, não. Mas que parece, parece”.

Tem bem uns dois mil e quatrocentos anos que isso não basta. A angústia da filosofia foi, ainda é, justamente lidar com as aparências. Desencavar o ser de dentro do parecer. Porque, disseram lá atrás, as aparências enganam. E, no engano, a verdade desanda. A verdade ou é ou não é. Não tem negociação.

Os sofistas do século V a.C. não concordaram com isso. Só há aparências, disseram. Nada de verdade. Só discurso. Fala-se não para provar, mas para convencer. Produzir convicções. Sem provas. (Eu sei, o jovem Inquisidor não disse a frase assim, nessa forma brilhantemente lapidar. Mas esse é o sentido, e como um sofista o invejaria!)

Os filósofos de carteirinha, Sócrates, Platão e Aristóteles à frente, revoltaram-se, no século IV, com essa barbaridade. Os sofistas, francamente, tinham exagerado. Contra eles, esses grandes filósofos foram os primeiros procuradores. Buscaram a verdade soterrada sob as aparências. Se as aparências enganam, a verdade precisa de quem a defenda dos entulhos. Os grandes filósofos foram também os primeiros advogados. E eram eles que decidiam quando a verdade finalmente aparecia de dentro da impureza das aparências. Lavavam-na, faziam-na luzir, iluminavam-na. Também foram, portanto, os primeiros juízes. Procuradores, advogados e juízes, tudo por amor à verdade. — Com essa altíssima origem, a ética filosófica devia ser prova obrigatória no exame da OAB.

Pois, no direito, a coisa se passa assim: dá-se um fato; ele vem envolto numa multidão de aparências e pistas, boas e más; é preciso discernir umas das outras; as boas viram prova; a verdade é encontrada: parecia uma coisa, foi-se ver, não era, e fez-se a luz. Fim do processo. A vida pacificada pela verdade, o mundo equilibrado pela justiça.

Mas também pode ser assim: parece haver um fato; ele vem envolto numa multidão de aparências; na impossibilidade de discernir as boas das más, acrescentam-se outras (na esperança de que, somando mais, se encontre algo); não se consegue achar a boa prova; mas o processo precisa fechar; e se fecha ‘por convicção’. Não apareceu a tal demonstração cabal. “Mas parece ser”. (Isso é uma simples convicção.) “Então só pode ser.” (Já isso é um grande chute, um desejo extrajurídico.) “Logo, é. E isso, finalmente, é péssima lógica. Esse ‘logo’ entrou no raciocínio menos naturalmente do que Pilatos no Credo.

Mas fechou o processo. Podemos voltar para o mundo e a vida, tudo lavado e limpo, expeditamente, a jato. — Qual o quê! O mundo está de cabeça para baixo, e a vida ferve de raiva.

“O que aconteceu??”, espanta-se o jovem Inquisidor. — Aconteceu que, por falta da prova de filosofia no exame da OAB, o sofista venceu. O filósofo, procurador da verdade, não foi chamado aos autos. Mal procurada sob os escombros das aparências, a verdade ficou uma ferida aberta. “Será? Não será? Pode ser.” — “Pode ser” não vale. Convicção não serve.

O pobre filósofo precisa de evidências. Cabais. Probatórias. Ou não pode julgar. E a verdade não vai aparecer. “Eu creio que…” “Tenho certeza de…” “Está na cara que…”. Essas certezas subjetivas não colam. São inúteis. Pior, são perigosas. A verdade pode naufragar nelas, a justiça pode morrer delas. O processo não pode fechar assim. A verdade sofre.

Chamem depressa um filósofo. A coisa está feia. O tempo esquentou. O fervor das convicções se arroga direitos de verdade. Provas? Não há. Nem precisa. Chamem depressa um filósofo! Nem carece ser dos grandes. Mas tem que ser logo. Agora. A jato.

(*) Marcio Tavares d’Amaral – é professor Emérito da UFRJ (História da Filosofia), escritor e colunista semanal do jornal O Globo. O texto acima foi publicado na edição de O Globo deste sábado, 24/09.

14 Comentários

  1. João de Paiva disse:

    Texto refinado, inteligente, que diz muito sem ser explícito.

    Entretanto, num momento como o atual, sinto a necessidade de textos mais diretos, mais objetivos, mais contundentes, de modo que possam ser entendidos pelos integrantes das classes sociais que mais serão as mais afetadas pelo golpe nazifascista e neoliberal: as classes trabalhadoras e dos excluídos.

    Muito mais úteis e impactantes se mostram as declarações que tem feito o subprocurador da república Eugênio Aragão. Ademais, Márcio Tavares D’Amaral publica seus textos no jornal O Globo; e o leitor médio desse jornal é integrante de uma classe média reacionária, conservadora e mesmo nazifascista. Há mais de dois anos não dou sequer um segundo de audiência aos veículos do PIG/PPV nem acesso qualquer portal de notícias controlado ou ligado às famiglias do PIG/PPV. Portanto não sei como os leitores do jornal reagem e comentam artigos como este reproduzido aqui. Mas pelo baixíssimo nível civilizatório de argumentação que demonstram, o mais provável é que textos como este tenham sido mais criticados do que elogiados.

  2. Joel Duarte disse:

    “Chamem depressa um filósofo! Nem carece ser dos grandes”. Tem que dos grandes sim… e se chamarem o Pondé? Que tempos!

  3. Eudes Gouveia disse:

    O domínio do fato sendo implementado. Dirceu preso, Palocci preso, Paulo Bernardo preso e solto por HC, Mantega preso e solto por barberagem do Moro: Com o primeiro escalão na cadeia fica fácil para a turma de Curitiba dar material para a mídia justificar a prisão do Lula. Enquanto isso Cunha continua usufrutuário leve e solto, Jucá não vai para a cadeia porra nenhuma e Renan continua sofismando.

  4. C.Poivre disse:

    O texto é genial, Já o compartilhei com amigos.
    A truculenta e cruel prisão do ex-Ministro Guido Mantega, apontado por todos que o conhecem de perto como pessoa íntegra, mostra cabalmente que não há mais nenhuma garantia ou segurança para as pessoas de bem. Agora basta uma pessoa que não gosta de vc fazer uma delação gratuita na vara da lava jato que primeiro vc será preso e depois, se gastar muito com uma equipe de advogados de primeiro time, vc terá chance de provar a falsa denúncia. Como diria Chico Buarque, “chame o ladrão, chame o ladrão!”.

    • Flics disse:

      Não, não é verdade que basta fazer uma deduragem na Vaza a Jato, digo, lava jato, para ser preso. Na delação tem que ter alguém do PT, senão, bueno… senão “não vem ao caso”.

      E que história é essa de “chame o ladrão”?… Nós aqui no Fora Temer e quadrilha e o amigo chamando mais ladrão?… Essa música do Chico é de outro tempo, quando justiça se começava com J.

  5. Claudia Duarte disse:

    Pode ser que o autor esteja fazendo uma alusão ao “Grande Inquisidor”, um magistral poema em prosa de Dostoievsky. Neste, o personagem, ao reconhecer Jesus Cristo passeando numa praça ao lado de condenados pela Inquisição espanhola, manda prendê-lo. Na masmorra, fala a Cristo que a condição de liberdade que ele concebera para a humanidade era insuportável para a maioria das pessoas comuns. E que eles, inquisidores, tinham a missão de manter o povo saciado com o pão, o espetáculo, e a lei, que, segundo eles, seria o que a maioria queria. No fim, ele condena Jesus Cristo à fogueira. Mesmo que em ficção, se aplica o caso em que “o fervor das convicções se arroga direitos de verdade.” Me parece que a analogia se encaixa, embora a eloquência do power point do “jovem inquisidor” fique (bem) distante da do personagem do mestre russo.

  6. Ibsem Marques disse:

    O inquisidor não é uma pessoa específica, mas um sistema formado por algumas instituições que, sem provas, mas sob o domínio do fato, amputam a verdade e subtraem vidas. Sim, porque não é apenas um partido que está sendo massacrado, mas em seu interior, vidas.

  7. Carlos Krebs disse:

    Texto objetivo. Sua clareza permite apenas uma interpretação: a verdade!
    Vou compartilhar, enquanto a filosofia ainda estiver disponível nas prateleiras; com esta escassez de cultura; nunca se sabe…

  8. Adenilson Azevedo disse:

    Verdade seja dita: no mundo jurídico das aparências o PT e seus séquitos estão levando chumbo grosso. Vide decisão recente de órgão colegiado do TRF que arquivou denuncia contra o Dr. Moro. Na referida decisão, admite-se claramente o tribunal de exceção para perseguir, processar, julgar, condenar e executar rapidamente as penas dos petistas e seus simpatizantes.
    Valha-me Deus!!! Sou eleitor do PT e já estou com medo da Polícia Federal.

  9. De fato, uma verdadeira aula. Reproduzir este belo texto no seu blog foi uma excelente iniciativa. Agora tenho mais uma referência de leitura – o professor Marcio Tavares d’Amaral

  10. Com relação a pergunta “quem será o jovem inquisidor” penso, embora sem convicção, que o autor não está se referindo a um inquisidor especificamente pois, como os próprios afirmam, eles formam uma equipe.

  11. Ana Cristina disse:

    Gostei demais e vou compartilhar. Como é importante a busca da verdade: só ela pode trazer paz a nosso país. Os senhores que andam buscando criminalizar sem provas, deveriam pedir desculpas a todos pelos atropelos e pela insegurança que andam semeando.

  12. INGRID MULLER XAVIER disse:

    Bravo!
    Sagaz e contundente
    Um primor!

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