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Marcelo Auler

Tem se tornado prática no jornalismo pátrio a chamada “suíte” de reportagens, sem que se tenha o cuidado de checar as informações. Aliás, em recente postagem nesta página – ”Notícias Presunçosas” – Arnaldo César já comentava: “Um dos principais fundamentos do jornalismo, a apuração/checagem da informação, está em total e absoluto desuso. O bacana agora é fazer militância escancarada no noticiário”.

Ricardo Pessoa dono da UTC - Foto Jornal GGN

Ricardo Pessoa dono da UTC – Foto Jornal GGN

Apego-me a isso diante do noticiário de alguns jornais no final de semana em torno da delação premiada de Ricardo Pessoa, dono da UTC, no caso Lava Jato. O que se sabe é que, durante cinco dias, ele esteve com procuradores da República em Brasília fazendo sua delação premiada que, a esta altura, já foi homologada pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal.

Pode-se questionar a necessidade da PGR e do próprio STF manterem estes depoimentos em segredos. Dificilmente a sua divulgação comprometerá a apuração dos fatos ali narrados, que já são do passado, o que torna improvável possíveis mudanças.

O segredo, porém, gera especulações. O Estadão foi capaz de adiantar uma parte do depoimento. Mas, a revista Veja garante ter acessado os depoimentos completos. Consta, no meio jornalístico, que isto foi possível graças à ajuda dos advogados de Pessoa. Não vem ao caso a motivação da defesa do réu em facilitar esta publicidade. Seja como for, é mérito do jornalista que a conseguiu.

O questionável é que, a partir da divulgação da Veja, vários jornais deram como certo tudo o que foi dito nas reportagens da revista. Deixam-se de lado possíveis interpretações feitas por quem escreveu, ou mesmo a hipótese de a narrativa dos fatos não ter sido fiel ao contexto.

O que saiu publicado tornou-se “verdade” e, a partir desta “verdade” todos se dão ao direito de conjecturar, opinar e palpitar. E se os fatos não corresponderem exatamente à verdade?

A propósito, ao me deparar com este caso, me veio à lembrança episódio que vivenciei com meu amigo Ricardo Noblat, em 1989,

em plena campanha presidencial em que Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva disputariam o segundo turno.

Noblat, que na sua coluna de hoje tomou como verdadeiras as afirmações da Veja, naquele ano, em uma atitude digna, corrigiu um comentário feito com base em informação que recebeu e não teve como checar: o envolvimento de Collor com o desaparecimento da menina Ana Lídia Braga, ocorrido em Brasília, em 11 de setembro de 1973.

Estávamos os dois no Jornal do Brasil, ele em Brasília, escrevia a coluna “Coisas de Política”. Eu, no Rio, como repórter. No dia 11 de agosto, véspera do meu aniversário – e, coincidentemente, também do de Fernando Collor – encontrei-me por acaso no centro do Rio com um velho amigo, o já falecido advogado Paulo Goldrajch e ele, mesmo sem saber do meu natalício, me ofereceu um presente: a cópia integral do processo do caso Ana Lídia.

Jornal do Brasil, edição de 12 de agosto de 1988

Jornal do Brasil, edição de 12 de agosto de 1988

 

De imediato tratei com o jornal a respeito dos custos para xerografar nove volumes que continham 2.907 folhas, Não recordo se foi Ancelmo Góis (editor de política) ou Luiz Fernando Gomes (editor de Cidade) quem assumiu o custo das cópias. A autorização foi imediata.

No dia seguinte fui surpreendido pela coluna de Noblat falando do caso. Em uma simples nota, resumia que o PDT de Leonel Brizola estava com o processo nas mãos e que o nome de Fernando Collor constava dos autos, tendo ele, inclusive, sido interrogado.

Detalhe da Coluna Coisas de Política de 12/08/1989

Reprodução da Coluna Coisas de Política

 

 

 

 

 

Com Luciana Villas-Boas e Ronie Limas, nos trancamos no meu apartamento no Edifício Gemini, no Corte do Cantagalo, para darmos conta o mais rapidamente possível da leitura de todas as peças. No final constatamos que a versão que passaram a Noblat era apenas uma meia verdade.

Fernando Collor aparecia no processo, mas não como interrogado. Ele foi citado como fazendo parte de um grupo de amigos de uma das pessoas ouvidas pela polícia. Ele jamais esteve envolvido com o caso, embora até hoje essa versão permaneça a circular.

Noblat, com dignidade, refez a notícia no dia 24 de agosto, esclarecendo definitivamente a história.

Detalhe da Coluna Coisas de Política de 24/08/1989

Detalhe da Coluna Coisas de Política de 24/08/1989

Reprodução Jornal do Brasil edição de 24 de agosto de 1989

Reprodução Jornal do Brasil edição de 24 de agosto de 1989

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No caso específico da delação premiada de Ricardo Pessoa, o que todos nós jornalistas deveríamos fazer, com o apoio da própria sociedade interessada no caso, é exigirmos a divulgação dos depoimentos já prestados e que, aparentemente, em nada irão modificar os fatos ocorridos. Assim, todos comentariam sobre os fatos realmente existentes e publicizados. Não haveria vazamentos, nem tampouco versões.

Nesse ponto, o juiz Sérgio Moro, tem agido com isenção ao disponibilizar seus despachos via internet a todos os interessados. Afinal, como dizem todos os códigos processuais, os autos devem correr com publicidade. O segredo de Justiça que muitos adotam, é para ser exceção.

É verdade que a cada vazamento de notícias há sempre quem o responsabilize, acusando-o de fazer um jogo político. Mas isso, frise-se,  jamais ficou claramente provado ter sido de sua autoria.

1 Comentário

  1. Murilo Rocha disse:

    Texto correto, Marcelo. A velocidade de nosso tempo, sem dúvida, não é acompanhada pela imensa maioria da imprensa, que parte para a simples encampação de matérias alheias. Mas, esclareça-se, as vítimas de denuncismos apressados e/ou irresponsáveis têm o direito legal à reparação. Que o façam, portanto. Ao mau jornalismo, sem dúvida, a morte tarda mas não falha.

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