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Compartilho: SUBMISSÃO

Marcelo Auler

Trago para o meu blog, através de um comentário do deputado federal Jean Wylliys (PSOL-RJ),  o editorial de hoje da Folha de S. Paulo que pode significar um marco na linha editorial do jornal com relação à vida política que o país está assistindo a partir da ascensão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) à presidência da Câmara dos Deputados, e das novas posturas do senador Renan Calheiros, que retornou à presidência do Senado.
O editorial em muito me lembra a boa e velha Folha de S. Paulo dos anos 80, quando nela trabalhei com bastante orgulho. Era um jornal que se posicionava a favor de teses compartilhadas pela sociedade de um modo em geral, principalmente, na Campanha das Diretas Já! Quem viveu aquela época, sabe do que estou falando.
Recomendo ainda o artigo de Luís Nassif, “O dia em que a Folha voltou a ser a Folha”, sobre o mesmo editorial  deste domingo (14/06) que transcrevo abaixo.
Reprodução - Folha de S.Paulo - edição  14/06/2015

Reprodução – Folha de S.Paulo – edição 14/06/2015

Em função de uma oposição aos governos petistas e ao PT (que, sim, merecem críticas honestas, republicanas e justas, mas não merecem ataques demagógicos, desonestos e fascistas), a Folha de S.Paulo – jornal que, até o início dessa oposição antipetista (e excetuando as suas relações obscuras com a ditadura militar), mais primou pela imparcialidade e pela crítica justa em sua cobertura dos fatos da política – blindou e até promoveu Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na presidência da Câmara Federal, já que ele se apresentava como fator de desestabilização do governo Dilma recém-eleito.

Mas, diante dos abusos de poder, ardis, intransigência, demagogia, aparelhamento e, sobretudo, locupletação do presidente da Câmara, apoiado por uma bancada de asseclas subservientes e ignorantes, a Folha de São Paulo parece que FELIZMENTE despertou do sono da razão (e, já dizia Goya, o sono da razão produz monstros!). Em editorial tão contundente quanto necessário, o jornal expõe o perigo real que Eduardo Cunha et caterva impõem à jovem democracia brasileira, às liberdades individuais e aos direitos das minorias religiosas e sexuais (ou seja, às causas que sobretudo nosso mandato representa). Valeu, Folha! Leiam e passem adiante! 

“SUBMISSÃO”

Num futuro não muito distante, a aliança entre grupos políticos moderados e fundamentalistas religiosos obtém expressiva vitória eleitoral. Logo se estabelece, num país de tradições laicas e liberais, o predomínio da repressão, do obscurantismo e do preconceito.

Em “Submissão”, polêmico livro de Michel Houellebecq recém-traduzido no Brasil, imagina-se o domínio de certa “Fraternidade Muçulmana” sobre o Estado francês.

O Brasil por certo não é a França retratada nesse romance, e se o fanatismo de alguns grupos traz perigo à sociedade ocidental, não há sinais de sua atividade em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília.

Um espírito crescente de fundamentalismo se manifesta, contudo, em setores da sociedade brasileira –e, como nunca, o Congresso Nacional parece empenhado em refleti-lo, intensificá-lo e instrumentalizá-lo com fins demagógicos e de promoção pessoal.

O ativismo legislativo que se iniciou com a gestão de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Câmara dos Deputados, e que Renan Calheiros (PMDB-AL) não deixou de seguir no Senado, possui o aspecto louvável de recuperar para o Parlamento um padrão de atuação e de debate por muito tempo sufocado.

Essa aparência de progresso institucional se acompanha, porém, dos mais visíveis sintomas de reacionarismo político, prepotência pessoal e intimidação ideológica.

Tornou-se rotineiro, nos debates do Congresso, que este ou aquele parlamentar invoque razões bíblicas para decisões que cumpre tratar com racionalidade e informação.

Condena-se a união homoafetiva, por exemplo, em nome de preceitos religiosos e de textos –não importa se a Bíblia ou o Corão– que podem muito bem ser obedecidos na esfera privada, mas pouco têm a contribuir para a coexistência entre indivíduos numa sociedade civilizada e plural.

Muitas religiões pregam a submissão da mulher ao homem, abominam o divórcio, estabelecem proibições a determinado tipo de alimento, condenam o consumo do álcool, reprovam o onanismo, legislam sobre o vestuário ou o corte de cabelo.

Nem por isso se pretende, nas sociedades ocidentais, adaptar o Código Penal a esse tipo de prescrições, dos quais muitos exemplos podem ser encontrados no texto bíblico. Sobretudo, não é função do Estado legislar sobre a vida privada.

Ainda assim, num evidente aceno a parcelas crescentes do eleitorado, uma verbiagem religiosa toma conta do Congresso.

Nos tempos de Eduardo Cunha, mais do que nunca a bancada evangélica se associa à bancada da bala para impor um modelo de sociedade mais repressivo, mais intolerante, mais preconceituoso do que tem sido a tradição constitucional brasileira.

O conservadorismo sem dúvida é forte no Brasil; a pena de morte, a redução da maioridade penal, a rejeição ao aborto e à liberação das drogas têm apoio em larga parcela da população –e diante de tais assuntos, naturalmente, cada pessoa tem o direito de se posicionar como lhe parecer melhor.

Mas nossa sociedade também é, felizmente, mais complexa do que pretendem os mais conservadores.

A tradição do sincretismo religioso, da liberalidade sexual, do bom humor, da convivência com pessoas vindas de todos os países e das mais diversas culturas, a prática do respeito, da cortesia e do perdão constituem elementos tão cultivados na identidade brasileira quanto o que possa haver –e indiscutivelmente há– de autoritário e violento em nosso cotidiano.

O debate entre essas forças contraditórias é constante e, a rigor, interminável. Não combina com o açodamento das decisões que, em campos diversos, têm sido tomadas na Câmara dos Deputados.

Seria equivocado criticar seu presidente por ter finalmente posto em votação algo que se arrastava há anos nos labirintos da Casa, como a reforma política. É inegável, entretanto, que Eduardo Cunha atropelou as próprias instâncias institucionais ao impor ideias como a do distritão na pauta de votações.

A toque de caixa, questões intrincadas como a do financiamento às campanhas eleitorais sofreram apreciações seguidas, e nada comprova mais a precipitação do processo do que o fato de que, em cerca de 24 horas, inverteram-se os resultados do plenário.

Uma espécie de furor sacrossanto, para o qual contribui em grande medida o interesse fisiológico de pressionar o Executivo, alastra-se para o Senado. No susto, acaba-se com a reeleição e se altera a duração dos mandatos políticos. O cidadão assiste a tudo sem sentir que foi consultado.

No meio dessa febre decisória, há espaço para que o Legislativo comece a transformar-se numa espécie de picadeiro pseudorreligioso, onde se encenam orações e onde se reprime, com gás pimenta, quem protesta contra leis penais duras e sabidamente ineficazes.

Setores políticos moderados se veem quase compelidos a conciliar-se com a virulência ideológica dos que consideram a defesa dos direitos humanos uma complacência diante do crime; dos que consideram a defesa do Estado laico uma agressão contra a fé; dos que consideram a racionalidade ocidental uma forma de subversão, e as conquistas do iluminismo uma espécie de conspiração diabólica.

Os inquisidores da irmandade evangélica, os demagogos da bala e da tortura avançam sobre a ordem democrática e sobre a cultura liberal do Estado; que, diante deles, não prevaleça a submissão.”

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/06/1641792-submissao.shtml

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