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Compartilho: “O Natal do “capeta” abençoado pelo papa

 Marcelo Auler

29_10_2014__O-papa-Francisco-recebe-o-marxista-João-Pedro-Stédile,perla segunda bvez - Foto Observatório Romano

29_10_2014__O-papa-Francisco-recebe-o-marxista-João-Pedro-Stédile,perla segunda bvez – Foto Observatório Romano

Hoje, no dia de Natal, o líder mais conhecido do Movimento dos Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, completa 62 anos de idade. Filho de pequenos agricultores, economista formado pela PUC do Rio Grande do Sul e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México, este marxista assumido, dedica-se à luta pela reforma agrária desde 1979.

Ou seja, há 36 anos abraçou uma bandeira de luta e desde então, goste-se ou não dele, mostra uma coerência inconteste com o que pensa e prega,o que ajuda a confirmar a sua liderança no Movimento.

Dentro do espírito natalino, mas sem perder a perspectiva política do momento atual que o Brasil e sua sociedade atravessam, compartilho aqui, através da da página de Leonardo Boff, um artigo de Mario Sérgio Conti, publicado dia 22/12 na Folha de S. Paulo. Refere-se a Stedile, aquele que a direita costuma enxergar como um capeta, mas que com a ascensão do pontificado do papa Francisco, passou a se fazer ouvir no Vaticano.

O-Cajado-de-Francisco - matéria da carta Capital de fevereiro de 2014 narrando a participação de Stédile no encontro de líderes de movimentos sociais com o papa Francisco.

O-Cajado-de-Francisco – matéria da carta Capital de fevereiro de 2014 narrando a participação de Stédile no encontro de líderes de movimentos sociais com o papa Francisco.

Stedile esteve reunido no Vaticano pela primeira vez em dezembro de 2013, conforme noticiamos na revista Carta Capital em fevereiro de 2014, na reportagem O Cajado de Francisco (veja trecho dela ao lado, na foto). Ali, junto com outras lideranças dos movimentos sociais, participou do encontro que debateu “A Emergência dos Excluídos”.

Em outubro de 2014, o papa voltou a reunir cem organizações populares do planeta, das associações camponesas aos cocaleiros, dos catadores de lixo aos movimentos cooperativos, para um encontro em que o debate foi em torno de “Terra, Casa e Trabalho”. E lá estava Steile de novo.

Logo, trata-se de um capeta da direita abençoado pelo papa.

Além da coincidência do aniversariar no dia em que se comemora o nascimento de Cristo, o líder do MST tem outras raízes fortes com a Igreja Católica, como destaca Conti. – “é primo de Dom Orlando Dotti, bispo de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e de vários frades capuchinhos”.

Abaixo reproduzimos o texto de Boff sobre o artigo de Conti e o artigo publicado na Folha de S.Paulo.

Leonardo Boff reproduziu o artigo de Conti sobre Stedile

Leonardo Boff reproduziu o artigo de Conti sobre Stedile

Há muitas formas de se falar do Natal. A maioria se prende ao ideário religioso e cristão. Mas há também formas seculares e poéticas como fez Manuel Bandeira em seu comovedor “Canto de Natal”e de forma, a meu ver insuperável, por Fernando Pessoa. Agora temos a reflexão política, surpreendente do jornalista e entrevistador de televisão de Mario Sergio Conti. De modo secular nos comunica a mensagem de Natal que tem inspirado uma das lideranças mais combativas que é João Pedro Stedile do MST. Vale seguir seu raciocínio estimulante. Lboff

 

O Natal de Stedile

Mario Sergio Conti*

Quando menos se espera, o Natal está aí: calorão, filas, tempestades, engarrafamentos, dinheiro curto, sofreguidão de última hora para comprar presentes. Ainda assim, o Natal é um convite à pausa, à reflexão.

Como o ano foi de tumulto, de luta acre no Parlamento e fora dele, de ações espetaculosas da Lava Jato, de xilindró cheio de nababos em Curitiba, a meditação é política.

É tempo também de reflexão religiosa porque a fé fere cada vez mais o coração da política. As labaredas da jihad, as matanças na França, no Líbano, no Iêmen, no Egito e na Tunísia, fizeram terror e islã fermentar num mesmo caldeirão.

Distante do belicismo redivivo das Cruzadas, nem por isso o Brasil está infenso ao sagrado. Aqui, é a vaga evangélica que transtorna a política. Tanto que Eduardo Cunha, um pentecostal que exala enxofre ao ouvir falar de aborto e casamento gay, quis impor sua dúbia carolice à nação laica.

O Brasil é o país que abriga o maior rebanho católico do mundo. Entre eles está João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem Terra. Ele é primo de Dom Orlando Dotti, bispo de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e de vários frades capuchinhos. Os primos párocos marcaram a sua formação franciscana, que considera “mais atual do que nunca”.

Stedile sustenta que o líder religioso da hora, o papa Francisco, “tem um comportamento revolucionário”. O pontífice, disse ele no intervalo de uma peregrinação pelo interior paulista, “teve uma experiência política no peronismo, é um nacionalista que defende os pobres e é contra o abuso do capital”.

Para ele, a encíclica papal sobre o meio ambiente “é uma obra histórica maior do que dez COP21, a conferência da ONU sobre o clima, que não serviu para nada”.

O MST se atualizou na teoria e na prática nos últimos anos. O movimento, diz Stedile, é contra a “reforma agrária burra”, que só se preocupa com a divisão dos latifúndios. Advoga que a agricultura produza alimentos saudáveis para o povo, em vez de exportar commodities. Prega a “agroecologia”, técnicas de cultivo que não vitimem a natureza.

Ele também se insurgiu contra o machismo, disseminado no meio rural, inclusive no MST. O movimento conseguiu que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra, passasse a entregar títulos de propriedade a casais de sem-terra gays.

Neste Natal, Stedile vê o Brasil numa encruzilhada política, econômica, social e ambiental. A destituição de Dilma Rousseff veio para o primeiro plano: “a pequena burguesia reacionária das grandes cidades quer o impeachment, mas ele não resolve as dificuldades nem representa uma saída para as massas”.

Economista, Stedile não acredita em Papai Noel. Vaticina que “a crise será longa porque, para sair dela, precisamos de um projeto que unifique a maioria das forças sociais. E nenhuma força está conseguindo isso”.

A sua esperança natalina é matizada: “toda crise é positiva, por obrigar a mudanças. Elas podem demorar, mas virão, e espero que sejam a favor do povo. Serão anos de luta”.

Com prenome dos apóstolos João e Pedro, Stedile parece se nortear pelo Cristo do evangelho de Mateus, aquele que disse: “não vim trazer paz, mas a espada” (10, 34). Ele nasceu no mesmo dia do Nazareno; fará 62 anos na sexta-feira.

Um feliz Natal a todos.

 

*Autor de ‘Notícias do Planalto’, obra que dissecou as relações entre a Presidência de Fernando Collor e a imprensa, começou sua trajetória como jornalista na Folha em 1977.

Originalmente publicado na Folha de S. Paulo:
www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2015/12/1721915-o-natal-de-stedile.shtml

 

 

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