Em Brasília, Lula poderá ser vigiado, como em 1978
3 de maio de 2021

Marcelo Auler

Claudio Castro cantando e rezando na Paróquia Santa Rosa de Lima, em agosto de 2020. (Foto: divulgação)

Carismático como é, certamente ao ingressar em uma igreja – o que pode até ter ocorrido neste domingo, uma vez que tem o hábito de assistir às missas na Paróquia Santa Rosa de Lima, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro -, o governador Claudio Castro certamente molha os dedos na água benta existente na entrada de cada templo. Será em vão. Mesmo que ocorresse um descuido e algum padre trocasse o líquido santo por removedor, Castro dificilmente apagará de suas digitais as marcas do sangue que a polícia do governo que controla fez jorrar na quinta-feira, dia 06/05, nas ruas, becos, vielas e residências da Comunidade do Jacarezinho, Zona Norte do Rio.

Ainda que seja cedo para se cravar que a operação policial responsável pela morte de 28 pessoas tenha sido autorizada antecipadamente pelo governador – cabe o direito da dúvida e a presunção de inocência -, decorridos quatro dias da maior chacina provocada por forças oficiais que se tem notícia no Estado, não há mais como inocentá-lo e deixar de responsabilizá-lo.

A responsabilidade lhe cai não apenas pelo pouco que já disse, seja por meio de nota oficial na própria quinta-feira – ocasião em que alegou que “a ação foi pautada e orientada por um longo e detalhado trabalho de inteligência e investigação, que demorou dez meses para ser concluído” -, seja através de áudio, no dia seguinte, quando expôs que “a operação de ontem realizada pela Polícia Civil foi o fiel cumprimento de dezenas de mandados de prisão”. Não foi, nem uma coisa, nem outra.

Mais grave, porém, foi Castro omitir-se, como se estivesse concordando com tudo o que ocorreu. Omitiu-se, como lembra a deputada estadual Daniella (Dani) Monteiro (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (ALERJ), no decorrer da própria operação que perdurou por cerca de 10 a 11 horas. Ele poderia, desde cedo, ter dado ordens para suspendê-la, mas nada fez.

Delegados provocam STF, Castro se omite

Na entrevista, os delegados Rodrigo Oliveira (esq.) e Felipe Curi provocaram o STF.(Reprodução da TV)

Também se omitiu diante das provocações de delegados que se acharam empoderados o suficiente para criticarem e questionarem à autoridade da mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal. O governador calou-se, consentindo, após o subsecretário Operacional da Polícia Civil, Rodrigo Oliveira, disparar pérolas como: “o ativismo judicial prejudica a ação policial e fortalece o tráfico”; “a Polícia Civil não irá se furtar a garantir o direito de ir e vir da sociedade de bem”. Tão grave quanto as “pérolas” foi o silêncio do governador.

Os delegados, porém, não conseguiram expicar qual foi a “excepcionalidade” que os fez desrespeitarem as ordens do Supremo Tribunal Federal impedindo operações policiais em comunidades durante a pandemia. Não havia nenhum risco eminente naquele dia. Prender traficantes, não se encaixa nas hipóteses admitidas para descumprir a ordem da mais alta corte do país.

Isto, porém, não é tudo. Até o domingo (10/05), o governo não explicou a demora em mais de 48 horas para identificar 27 das 28 vítimas da operação. Afinal, se a ação foi fruto de inteligência, no  “fiel cumprimento de mandados de prisão”, seria razoável imaginar que a polícia sabia de antemão quem seriam as suas vítimas, os seus alvos. Mas o único identificado foi o agente policial André Frias, um dos primeiros a tombar naquela manhã.

Ocorre que entre os 27 mortos, como constatou um levantamento preliminar feito pelas Comissões de Direitos Humanos da ALERJ e como afirma Álvaro Quintão, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados (OAB) seccional do Rio, ao menos um terço dos assassinados sequer tinham passagem pela Justiça. Entre os mortos, segundo aqueles que estiveram na comunidade, há os que simplesmente transitavam pelas ruas com destino certo, sem ligações com o submundo do crime. Sem falar nos dois passageiros da Linha 2 do Metrô que sequer estavam na comunidade – talvez nem a conheçam – e foram feridos dentro de um trem em circulação.

Não pode o governador endossar um discurso de “um longo e detalhado trabalho de inteligência e investigação, que demorou dez meses para ser concluído” quando se descobre que dos 21 “alvos” desejados pelas forças policiais apenas seis foram encontrados e somente três acabaram presos. Outros três engrossam a lista dos chacinados. Que inteligência existe em uma operação na qual se invade uma comunidade com um número bem superior de policiais e acaba não se conseguindo encontrar aqueles a quem se procurava.

Tais fatos, por si só, já deveriam deixar ressabiado o chefe do Executivo fluminense, superior hierárquico desses policiais, levando-o a desconfiar do serviço feito por seus subordinados. Mas Castro calou-se. Endossou. Está passando o pano”.

Pior ainda, permanece calado – “passando o pano” – quando surgem versões conflitantes com a oficial. Relatos de famílias denunciando que a polícia matou aqueles que se renderam. Que pessoas que entraram vivas no Caveirão surgiram depois no Instituto Médico Legal (IML) com tiro no estômago. Ou duvidaremos do desesperado morador da comunidade que, chorando, demonstrou toda sua preocupação com o futuro da filha de 9 anos que viu assassinarem um “procurado”, já ferido na perna – logo, sem condições sequer de fugir – ser morto junto à cama que ela dorme?

Surgem duvidas sobre a morte do policial

O policial Andre Farias morreu no início da operação e surgem questionamentos a respeito.(Foto: reprodução)

São relatos que colocam em dúvida a versão oficial e, ao levantarem suspeitas sobre a mesma permitem que se vá mais longe nos questionamentos. Terá mesmo o agente policial André Frias, último que desceu do blindado, morrido por disparo dos supostos traficantes? Quem garante que ele não foi vítima, ainda que ocasionalmente, de um “fogo amigo”?

É possível se afastar a possibilidade de queima de arquivo, quando se sabe que ele esteve envolvido na apreensão de 60 fuzis no Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, em 1º de junho de 2017. Um armamento que, pelo que se deduziu, abasteceria milicianos?

Todas essas apurações que surgem esparsamente em um trabalho conjunto das comissões de Direitos Humanos da ALERJ, da OAB e o esforço de defensores públicos do estado e da União começam a indicar que a versão oficial é falaciosa.

Apesar disso, ela continua sendo endossada pelo governador que deveria, em nome da total imparcialidade das apurações, afastar os policiais envolvidos na desastrosa e mortífera operação. Mantê-los na geladeira enquanto perdurarem investigações feitas por outros e pelos demais órgãos de controle da ação policial. Apurações sérias e descomprometidas. Uma decisão que permitiria até, futuramente, direito a pedidos de desculpas caso se comprove que os policiais não mentiram, o que é pouco provável que aconteça. Mas o governador ainda não deu sinais de que assim agirá.

Com isso, Castro mantem seus dedos sujos do sangue derramado na Comunidade do Jacarezinho e alimenta ainda mais as suposições que ligam a chacina ao encontro que teve na véspera com o presidente Jair Bolsonaro, um intransigente defensor das milícias e das operações policiais violentas. Um político que, acuado, precisa manter seu discurso de ódio e de violência para agradar seu público, cada vez mais reduzido.

Apoio a Bolsonaro provoca questionamentos

O encontro de Jair Bolsonaro com Claudio Castro, na véspera, aumentou os questionamentos. (Reprodução: TV Brasil)

Como se sabe, Castro chegou ao poder pelo acaso. Ao que tudo indica, gostou da cadeira e pretende concorrer à reeleição. Deve ter consciência de que para isso precisa do apoio do bolsonarismo. Por si só, esse apoio poderá não ser suficiente. Mas, sem ele, não pode sequer pensar em permanecer no Palácio Guanabara em 2023. Logo, precisa apoiar e fortalecer este espectro mais radical dos eleitores, por mais que ao fazê-lo acabe contrariando os seus ditos “princípios cristãos carismático”.

É exatamente a tese da necessidade de Castro apoiar e fortalecer o bolsonarismo que alimenta as chamadas teorias da conspiração que ligam a chacina ao encontro da véspera no Palácio Laranjeiras. Terá o governador, na expectativa de auxiliar a campanha de Bolsonaro, autorizado uma operação policial, descumprindo decisão do Supremo, logo, afrontando a corte mais alta do país? A mortandade ocorrida era o que ele desejava, ou foi algo que fugiu ao controle com um resultado inesperado. São dúvidas que, por mais estapafúrdias que pareçam, acabam alimentadas pelo comportamento, e o silêncio, do próprio Castro.

Elas, porém, não serão resolvidas facilmente. Permanecerá pairando sobre a mente de muitos enquanto não houver uma averiguação isenta, profunda e totalmente transparente. Por isso que, paralelamente a todos os movimentos que cobram dos ministérios públicos – tanto da Procuradoria Geral de Justiça do Rio, como da Procuradoria Geral da República -o que seria inquéritos criminais sobre os homicídios provocados, é necessário que a sociedade exija também outro tipo de investigação.

Uma proposta já colocada em andamento pela deputada estadual Rosangela de Oliveira Zeidan (PT) é a da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). É algo que deveria incorporar representantes da própria sociedade civil.

Para que a CPI se torne realidade, será preciso pressão social, do público. Não apenas das vítimas e atingidos, mas de todos os democratas, independentemente de colorações partidárias. Sabe-se, que dentro da ALERJ os bolsonaristas se armaram. Não apoiarão a CPI. Terão o respaldo do próprio governador. Logo, a pressão deve ser sobre o petista André Ceciliano, presidente da Assembleia. Sem pressão, não haverá investigação e será difícil qualquer punição.

Enquanto persistirem as dúvidas, porém, as mãos de Castro permanecerão com manchas de sangue, sem que a água benta as remova. Ele precisa clarear os fatos para tentar se livrar das mesmas.

 

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3 Comentários

  1. Antonio Dias disse:

    Uma pessoa que mora numa outra favela próxima ao Jacarezinho diz que os tiros começaram por volta de 3:30 da madrugada e que na comunidade se fala em 35 mortos. Mais um problema causado pela “polícia” (acho bem adequadas as aspas neste caso) é que será impossível se conhecer a verdadeira extensão da chacina, pois a área foi devidamente limpa!

    • Marcelo Auler disse:

      Vermelho, os moradores estão sendo ouvidos por diversas comissões. Há uma proposta de CPI. Deverá haver antes uma audiencia pública. Pode ser que essas questões acabem surgindo. abraços

  2. A morte desse policial civil, que saiu por último da viatura, é muito suspeita. Mas nada justifica esse morticinio, a lei brasileira, não admite pena de morte. O máximo é que o infrator, ou suspeito seja preso, mesmo sendo um criminoso, a polícia não pode matar. O que aconteceu foi uma barbárie, chancelada por autoridades!😰😰

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