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Sem o Estado, caminhada lembra mortos no “campo de concentração”
12 de novembro de 2018

Marcelo Auler, de Senador Pompeu (CE)

Reportagem compartilhada com o Jornal do Brasil edição de 12.11.18

A crença e a religiosidade popular no interior do Ceará não permitiram que uma triste e criminosa história caísse no esquecimento. Verdade que no restante do país quase não se sabe nada a respeito. Mas foi pela persistência dos cristãos, que jamais deixaram de encomendar missas para as Almas do Açude do Patu, que a existência de um Campo de Concentração, na cidade de Senador Pompeu (273 quilômetros de Fortaleza), não caiu no esquecimento. Nele, milhares de flagelados da seca de 1932, incluindo crianças, foram mortos e enterrados sem qualquer respeito humano, em valas coletivas.

Depois de receber o apoio da Igreja Católica, que há 36 anos realiza – tal como ocorreu na madrugada deste domingo (11/11) – a chamada “Caminhada pelas Almas” do Açude do Patu – ou Caminhada da Seca -, a população do município começa a merecer atenção do Ministério Público Estadual. Um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi assinado com a prefeitura no qual ela se comprometia a providenciar o tombamento do Sítio Arqueológico da Barragem do Patu. Mas o prefeito Antônio Maurício Pinheiro Jucá não honrou seu compromisso. Em consequência, o promotor de Justiça Geraldo Nunes Laprovitera Teixeira ajuizou duas ações visando a preservação da área onde se acredita que foram enterrados milhares dos flagelados daquela seca em covas coletivas.

Estes “Campos de Concentração” eram áreas de confinamento idênticas às mundialmente famosas criadas, a partir de março de 1933, por Adolf Hitler, então chanceler da Alemanha. O Ceará, portanto, foi precursor da prática nefastas e criminosa de isolar e confinar seres humanos indesejados. Criou verdadeiras “barreiras sanitárias”, como define o promotor Teixeira, que tinham por objetivo evitar que flagelados da seca invadissem Fortaleza em busca da sobrevivência.

Milhares morreram em seis destes “currais” espalhados na região do semiárido do estado. A criação dos mesmos, segundo o promotor Teixeira constatou em matérias jornalísticas da época, foi aplaudida e elogiada pela sociedade e políticos da capital cearense. As vítimas morreram em consequência da fome, subnutrição e de doenças – fala-se em surto de cólera, peste e sarampo. Enfim, não só do descaso governamental que os amontoou e confinou para não “contaminarem” a capital que vivia seu momento de “Belle Époque”. Mas também pelo criminoso desvio de alimentos que chegavam na estação ferroviária, mas não serviram para alimentar os flagelados. Foram desviados.

Por conta da devoção popular, a Igreja tomou a iniciativa de criar um cemitério simbólico no local onde milhares morreram confinados e Senador Pompeu (Foto: Marcelo Auler)

Não eram considerados pessoas – Na falta de alimentos e proteínas para os famintos – inclusive muitas crianças – apelava-se para práticas pouco usuais. Torravam, por exemplo, sangue de boi para depois rasparem-no e misturarem ao café, na expectativa de aumentar a proteína. Tal como Raimunda Correa do Nascimento contou ao Blog (leia o depoimento abaixo) ter ouvido do seu esposo, Afonso Ligório do Nascimento, um dos sobreviventes do campo.

A maioria dos mortos foi enterrada em grandes valas comunitárias, sem que “ninguém tomasse nota dos nomes deles, quase não eram considerados pessoas e cristãos”, descreveu Afonso Ligório do Nascimento, um dos sobreviventes do “Campo de Concentração” de Senador Pompeu, antes de falecer em 2008.

Até hoje, porém, não houve nenhuma iniciativa para confirmar a existência de tais ossadas e providenciar seu resgate, até para estudos históricos e arqueológicos. Somente em 2017, após as diversas Caminhadas promovidas pela Diocese de Iguatu – e, desde então, com a participação do bispo dom Edson de Castro Homem, que assumiu o posto em 2016 – ocorreu a primeira movimentação do Ministério Público Estadual buscando preservar a área e a história. Deu-se com o TAC, não cumprido pelo prefeito Pinheiro Jucá.

Na visão do padre Anastácio Ferreira de Oliveira, um dos religiosos da diocese de Iguatu que se empenha em manter viva a memória do que ocorreu, o que fizeram foi “uma espécie de higienização”. Ele é um dos que, a partir da devoção dos paroquianos da região, ajudou a fazer de Senador Pompeu o único município que preservou a área onde ocorreram tais atrocidades.

Fica junto ao Açude de Patu, onde a igreja construiu um cemitério simbólico. Ali é onde, sempre aos segundos domingos de novembro, ocorre a celebração da missa e memória dos mortos, após o percurso a pé – com muitos fiéis descalços – dos cinco quilômetros que separam o local da matriz.

Neste domingo (11/11) fiéis de Senador Pompeu repetem a “Caminhada das Almas” que já realizam há 36 anos. (Foto: reprodução de documentário da Diocese de Iguatu)

Essa movimentação, de iniciativa popular, não permitiu o esquecimento de uma parte da história do Estado do Ceará. Todos os demais “Campos de Concentração” que se espalharam pelo estado desapareceram. Sabe-se que existiram, identifica-se onde funcionaram, mas nos locais não existe nenhum registro a respeito dos mesmos. Provavelmente, apenas cadáveres enterrados sem qualquer identificação. As antigas áreas de confinamento de flagelados estão hoje reutilizadas por empreendimentos distintos.

Em Senador Pompeu, a igreja se mantém firme no propósito de não deixar que o descaso se repita e usa o exemplo passado para levar os vivos à uma reflexão sobre intolerância e a defesa da fraternidade:

“A “Caminhada” recupera a memória que muitos gostariam de esquecer. A destruição dos outros sítios não é só um descaso pela história, mas um descompromisso com os flagelados que foram vítimas da brutalidade. Nesse sentido, a “Caminhada” é um resgate que faz pensar, refletir, agir. Pelos mortos, se atinge os vivos. Por isso, há sempre um tema motivador que relaciona fé e política. Este ano é a relação “Água, Vida, Liberdade”. Se o sítio for conservado por tombamento, os 36 anos de “Caminhada” terão dado algum fruto. Os romeiros querem mais”, lembra dom Edson que assumiu o compromisso consigo mesmo de comparecer a todas as “Caminhadas” enquanto estiver na diocese.

Açude demorou sete décadas – A manutenção deste “Sitio Arqueológico da Barreira do Açude do Patu” vinha sendo feita pela Igreja, sem qualquer envolvimento do poder público. Já na “Caminhada” deste domingo (11/11) o governo do Estado contribuiu com parte da estrutura, como o carro de som. Por conta do intenso calor que a região vive – há sete anos não chove no semiárido cearense – a caminhada se inicia às 5h00 da madrugada.

Mas quem idealizou a romaria, a partir de 1982, como forma de preservar na memória o flagelo de 1932 foi o padre italiano Albino Donatti. Ele residiu no município do final de 1980 ao início de 1995, até retornar à Itália, onde faleceu em 2013. Foi também quem criou, na companhia da pedagoga Marta, o CDDH-AC, que ela ainda coordena.

Na realidade, o padre e a pedagoga apenas materializaram algo que os fiéis já cultivavam. Ambos perceberam que os populares encomendavam missas e rezas em nome das “almas da barragem do Patu”. Ao se debruçarem sobre o assunto, acabaram dando início a um trabalho que, à revelia dos governos, manteve viva a memória da tragédia de 1932.

A construção do açude foi contratada, por volta de 1919. A então Inspetoria Federal de Obras contra as Secas – IFOCAS, o correspondente hoje ao Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) assinou o contrato com a empresa inglesa Dwight P. Robinson e Co.. No meio da década de 1920, após os ingleses erguerem construções que abrigariam seus empregado e atenderiam a necessidade do projeto – casa dos engenheiros, escritórios, armazéns, casa de força, paiol, enfermaria –, no que hoje é denominada Vila dos Ingleses, a construção foi paralisada pelo governo do presidente Artur Bernardes (novembro de 1922/novembro de 1926).

Como registra uma já surrada placa no local, o Açude do Patu só foi concluído sete décadas depois, em 6 de outubro de 1989, no governo de José Sarney.

Já com a obra paralisada, a estrutura da Vila dos Ingleses foi utilizada, em 1932, quando o Ceará instituiu as chamadas “barreiras sanitárias” para evitar que flagelados da forte seca daquele ano chegassem – e ameaçassem o sossego da sociedade cearense – à capital Fortaleza.

Como lembra o jornalista Luiz Sucupira, assessor da Diocese de Iguatu, com base em levantamento da historiadora Kênia Rios, da PUC-SP, registrado no livro “Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932”, foram construídos, pelo menos, seis “currais” de confinamento dos flagelados no estado.

Reproduzindo texto de Kênia, Sucupira explica; “Eram locais para onde grande parte dos retirantes foi recolhida a fim de receber do governo comida e assistência médica. Dali não podiam sair sem autorização dos inspetores do campo. Havia guardas vigiando constantemente o movimento dos concentrados. Ali ficavam retidos milhares de retirantes a morrer de fome e doenças’’.

Número estarrecedor – Destes campos, o único espaço preservado foi o de Senador Pompeu, graças à religiosidade dos moradores e a iniciativa de padres como Albino Donatti, Anastácio Ferreira de Oliveira e o atual pároco igreja de Nossa Senhora das Dores, de Senador Pompeu, padre João Melo dos Reis. Este, ao assumir o posto há seis anos, incluiu a “Caminhada das Almas”, que até então era uma atividade restrita à sua paróquia, no calendário oficial da Diocese.

No mesmo comentário no Jornal da Manhã, na rádio Jornal de Iguatu, Sucupira cita dados estatísticos sobre os “Campos de Concentração” do Ceará. Não podem ser considerados oficiais, por inexistirem quaisquer registros. Afinal, ao que tudo indica, trata-se de uma parte da História do Ceará e do próprio Brasil que nenhum governo se preocupou em elucidar. Há quem suspeite que se tenta esconde-lo.

O que se tem são iniciativas pessoais, como da historiadora da PUC de São Paulo ou do advogado e historiador Valdecy Alves, natural da região e hoje residindo em Fortaleza. Pelos dados citados por Sucupira, 73.918 “molambudos” sucumbiram nas seis áreas de confinamento: 6.507, em Ipu; 1.800, em Fortaleza; 4.542, em Quixeramobim; 16.221, em Senador Pompeu; 28.648, em Cariús e 16.200 no Crato.

No espaço entre o muro da barragem do Açude do Patu e as construções da antiga Vila dos Ingleses acredita-se que milhares de corpos foram enterrados em valas comuns. (Foto Marcelo Auler)

A imprecisão dos números é grande, como admite o promotor Teixeira. Ao assumir a promotoria do município em agosto de 2015, ele encontrou uma investigação sobre o assunto já instaurada, porém, ainda incipiente. A partir de então, preocupado com a função do Ministério Público em preservar a história e o patrimônio cultural, tratou de aprofundar o trabalho iniciado pelos antecessores.

Identificação das ossadas – Nos levantamentos que fez, não conseguiu chegar a números fechados. “Os dados de mortes no local não são confiáveis, mas se estima que só neste “Campo de Concentração” de Senador Pompeu possam ter morridos entre 2.500 e 5.000 pessoas. Como lá, no auge, chegou a ter 20 mil pessoas, acredito que a previsão de que um quarto das pessoas que lá estiveram pereceram, morreram. Um número estarrecedor”, esclarece.

O promotor luta pelo tombamento da área em torno do Sítio Arqueológico do Açude do Patu, além do tombamento, como “bem imaterial cultural” da “Caminhada das Almas”. Quer uma iniciativa da prefeitura municipal da cidade. Com vistas a isso é que ele ingressou na Justiça, após o descumprimento do TAC. Trata-se apenas de um primeiro passo, pois os subsequentes poderão ser de investigar se e onde estariam os restos mortais dos que sucumbiram no “Campo de Concentração”. Ele defende a identificação dos mesmos e o enterro em local conhecido, em cerimônia pública e oficial.

Para isso, porém, será preciso a participação do Ministério Público Federal (MPF), uma vez que a área é de uma autarquia federal – DNOCS. Teixeira, inclusive, já alertou tanto aos colegas da Procuradoria da República como à Advocacia Geral da União (AGU) de que alguns dos imóveis que compõem a Vila dos Ingleses estão sendo usados. Não há informações sobre quem os habita e se com alguma autorização. Ao visitar o local, por mais que tentasse contato com moradores de uma das casas, o Blog não conseguiu ser atendido.

 

 

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8 Comentários

  1. A historia humana ´tem sombras estarrecedoras. Também a Espanha teve seus campos de concentraçao durante e depois da guerra civil e é o país, depois dp Camboja, com mais pessoas desaparecidas. Nas valas comuns jazem 140 000 anti fascistas.

  2. Maria Luisa disse:

    Desconhecia esse tais campos de concentração no Ceara. Sabia que havia tido muitas mortes por causa das secas e, verdade seja dita, pelo descaso politico e social, mas não sabia que as pessoas doentes de fome tinham sido confinadas em lugares para morrerem ali.

  3. João de Paiva disse:

    O Arraial de Canudos, que chegou a reunir alguns milhares de pobres, desvalidos e abandonados pleo Estado brasileiro, seguidores do beato Antônio Conselheiro, só tem seu relato fiel conhecido nacionalmente devido ao brilhante trabalho do escritor e jornalista Euclides da Cunha. Não fosse ele, teríamos uma versão falsa, fantasiosa, oficial, contada pelos soldados que para lá foram enviados, para massacrar aqueles pobres. O leitor Daniel Carnaúba cita outros exemplos em que grande contingentes humanos foram confinado, pra trabalhar como escravos e morrerem de fome e doenças, oprimidos por vencedores de guerras e conflitos. As senzalas do período escravista foram campos e concentração, exploração e extermínio, mas metodologicamente explorados pelo capitalismo primitivo colonial.

    Como dica para continuar o trabalho, sugiro ao repórter investigar as razões que motivaram a construção de outros açudes e mesmo algumas usinas hidrelétricas, como a maior do brasil, a de Itaipu. Há muitos segredos (e crimes) que os homens de poder e força procuram ocultar com esses lagos.

  4. Daniel Carnaúba disse:

    Sou de Senador Pompeu e agradeço o belo trabalho jornalístico. Sei de histórias e personagens que enriqueceriam ainda mais a narrativa.

    Gostaria de apontar, no entanto, um pequeno detalhe: não somos precursores de campos de concentração nem em relação aos campos de extermínio nazistas nem ao próprio Ceará, a exemplo do Alagadiço na Seca do 15. Na verdade, a história humana é cheia de exemplos de confinamento em massa forçado e as razões para este fenômeno são múltiplas.

    Em tempos de guerra, por exemplo, campos de concentração são táticas comuns tanto para evitar que populações potencialmente hostis causem problemas, quanto para utilizar seu trabalho forçado em prol das campanhas. Claro que depois de tal horror estes povos não têm outro destino senão a morte: do ponto de vista da guerra e da governança, seria um erro deixá-los viver, uma vez que se tornariam párias sociais e potenciais ameaças.

    Dito isto, a grande diferença entre os campos do Patú e outros ainda maiores que existiram no Brasil (Ceará, Bahia, Amazonas e Minas Gerais), é que não se tratava de uma guerra, mas de puro higienismo: não queria que estes pobres invadissem as capitais e trouxessem consigo suas mazelas, loucura, cólera, febres, gripes etc.

    No mais, ainda há muito para se descobrir do nosso passado e o senhor faz um ótimo trabalho em resgatar esta memória. Obrigado!

  5. O BRASIL tem histórias cruéis, ainda desconhecidas, como essa agora revelada na matéria de Marcelo Auler. Além disso, a memória quase sempre é relegada a segundo plano e assim graves violações continuam a acontecer!

  6. Deus Carmo disse:

    É preciso que se divulgue mais este fato, para que saibamos, de verdade que o espécie de gente, nós brasileiros somente somos. Sem nos conhecermos, não vamos para lugar nenhum.

  7. Patrick disse:

    Obrigado por trazer luz a esse caso

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