O bom jornalismo aderiu à greve

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Temer perdeu! A Câmara e a mídia também!
28 de abril de 2017
Na próxima terça-feira a 2ª Turma do STF julgará o habeas corpus de José Dirceu. Se a lei vale igual para todos, ele terá que ser solto. (Foto: reprodução da Internet)
Se a lei é para todos, soltarão Zé Dirceu!
1 de maio de 2017
Reprodução da Coluna Ombudsman da Folha de S. Paulo

Reprodução da Coluna Ombudsman da Folha de S. Paulo

Marcelo Auler

Reprodução da Coluna Ombudsman da Folha de S. Paulo

Reprodução da Coluna Ombudsman da Folha de S. Paulo

Em uma postagem na sexta-feira, dia 28/04, anunciei “Temer perdeu! Com ele a Câmara e a mídia“. Mostrei que, independentemente do sucesso que a greve teve, só os preparativos davam outra dimensão à luta política que estamos vivenciando. Apontei ainda, junto com Temer, a Câmara dos Deputados, em especial os parlamentares que aprovaram a Reforma Trabalhista, assim como a chamada mídia tradicional, também perderam. Os primeiros por aprovarem um Projeto de Lei que vai contra os interesses dos brasileiros, o que certamente refletirá nas próximas eleições. Já jornais e televisão, por terem tentado esconder uma movimentação que deu certo e que, ao dar certo, desmoralizou ainda mais o papel deles na sociedade atual

Na sexta-feira eu estava em São Paulo. Passei o dia no computador, escrevendo e declarando imposto de renda. Não vi televisão, não circulei em manifestações, fiquei apenas com noticiário da internet. Depois, li em alguns lugares que a TV Globo – sempre ela – foi obrigada a recuar e noticiar no Jornal Nacional a greve como greve. Fui verificar nos vídeos da internet e continuo discordando. A Globo deixou de fazer jornalismo. A omissão da grande imprensa foi comentada em diversos artigos aqui na Internet, mas destaco em especial A Globo, a população, o serviço de utilidade pública, a notícia e a Greve Geral, por Alexandre Tambelli, publicado no JornalGGN.

Neste domingo (30/04), Luiz Carlos Azenha, em Viomundo, escreve uma excelente análise com base no que ele mesmo presenciou em 1983, quando pertencia à redação da TV  – Na histórica Greve Geral de 2017, Globo fez pior do que nas Diretas Já de 1984. Foi reproduzido por Luis Nassif no JornalGGN, e aqui destaco dois trechos:

A maneira como a TV Globo tratou a histórica Greve Geral do 28 de abril de 2017 é, na minha avaliação, muito pior do que aconteceu com a cobertura das Diretas Já em 1983/1984 (…..)  Agora, porém, não tem como se esconder atrás da ditadura, da qual foi a principal beneficiária, como fez em 1984. Agora, fez mau jornalismo — distorcido, omisso, descontextualizado — porque coloca seus interesses empresariais, representados pelo governo Temer, acima do interesse da maioria dos brasileiros”.

Recorri à internet, por recomendação de uma querida amiga, e assisti ao Jornal Nacional de sexta-feira e de sábado para verificar o que ela disse ter sido “interessante” na mudança de comportamento da emissora com relação à greve.

Não me satisfez. Tentaram apenas remendar o erro maior, já abordado por Tambelli. Sobre o que vi, comentei com a minha amiga e aqui reproduzo, com pequenos acréscimos:

O JN e a greve geral

1 – O Jornal Nacional todo foi basicamente em cima da paralisação dos motoristas de ônibus, das barreiras impedindo o ir e vir, e de serviços que a população não  contou;
2 – Todas as referências à greve foram no sentido do movimento chamado pelas centrais sindicais.
3 – Na hora de debater as mudanças trabalhistas, além de ter sido algo muito reduzido para o tamanho do estrago que essas mudanças causarão, ouviu-se apenas governo e centrais sindicais.

Em cima disso, questiono?

1 – A OAB e a CNBB foram favoráveis à greve, mas a emissora nem sequer falou das duas. Por que da omissão? Ou seja, a TV Globo errou, pois não foram só as centrais sindicais que convocaram o movimento. Seus telespectadores, novamente foram mal informados;

2 – Ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST), desembargadores dos Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT) também apoiaram a greve, inclusive suspendendo expediente. A própria Procuradoria Geral da República não funcionou. Faltaram motoristas. Assessores e servidores paralisaram seus trabalhos com o consentimento e apoio da maioria dos procuradores. Tudo isso foi totalmente ignorado. Não era notícia?

3 – As críticas às mudanças da CLT são amplas, inclusive por muitos membros da Justiça do Trabalho, como desembargadores, juízes, procuradores do Trabalho e advogados. São muitas as notas mostrando onde é que a mudança que o governo Temer defende gerará retrocessos e prejuízos à classe trabalhadora e também à economia brasileira. Tudo isso passou ao largo no noticiário da TV Globo. Não ouviram esses críticos e sequer os citaram ao debaterem essas mudanças. Por que da omissão? O papel da imprensa não é mostrar todas as opiniões e divergências sobre um tema?

4 – Em Brasília, o governo não funcionou? Ao que consta, não. Aliás, com a ajuda dos próprios governantes, que montaram tapumes nos ministérios e criaram barreiras na Esplanada. Mas à TV Globo só interessava mostrar que escolas, postos de saúde e o transporte público paralisaram. O tempo inteiro dando a entender que a paralisação foi consequência da falta de condução. Não de uma opção voluntária dos trabalhadores.

5 – Curiosamente, nenhuma equipe do jornalismo da maior rede de TV do país – que são concessões públicas, recorde-se – visitou a porta de uma fábrica. Não houve um balanço isento de que indústrias funcionaram ou deixaram de fazê-lo. Provavelmente medo de mostrar a dimensão da paralisação.

Questiono ainda: e as decisões de órgãos públicos suspendendo as atividades, não por falta de transporte, mas pelo reconhecimento do legítimo direito à greve? Isso não interessa aos ouvintes da emissora? Mais parece que não interessa à emissora.

Ou  seja, a Globo, que segundo consta durante o dia teria evitado em falar de greve, teve que recuar diante do tamanho do movimento. Mas o fez de forma capenga e sem realmente mostrar a dimensão do que ocorreu. Não fez jornalismo.

Hoje, domingo, o assunto é abordado – e muito bem – por Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, em uma análise mais ampla da cobertura que o jornal deu, mas que vale, no meu entendimento, para toda a chamada grande imprensa.

Do comentário que fecha o artigo dela, adaptei o título dessa matéria. Ela diz:

Na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar.”

Não sou de republicar integra de artigos escritos pelos outros. Costumo dar o link, para respeitar o autor e levar leitores às páginas do original. Mas muitos dos meus poucos leitores não teriam acesso ao texto, pois ele só é aberto a assinantes. E como a Folha não precisa de leitores, peço desculpas à Paula e republico abaixo a integra. Os grifos são meus:

A Imprensa e a greve geral - Ombudsman foto

Assim como a de milhões de brasileiros, minha rotina diária foi alterada pela greve geral da sexta-feira, 28. Lojas de que precisei estavam fechadas; no supermercado, o gerente disse que apenas um terço dos funcionários comparecera; a experiência nos aeroportos de amigos e familiares que viajaram foi sofrida, apesar de a Folha ter dito que os aeroportos funcionaram normalmente. Pode não ter sido um caos, mas normal não foi.

De modo geral, esse foi o problema da cobertura da greve geral convocada contra as reformas da Previdência e das leis trabalhistas. Focou a alteração da rotina das cidades, de modo previsível, sem inventividade nem relatos ricos.

Em suma, os jornais se concentraram no impacto sobre as árvores e deixaram de abordar a situação da floresta. A velha imagem é eficiente por condensar a mensagem de modo tão claro.

Um parágrafo do editorial da Folha trazia o resumo do que pretendo dizer quando cobro abordagem mais ampla: “Em nenhum país do mundo, propostas de redução de direitos relativos à aposentadoria contarão com apoio popular. Governantes, em geral, só as apresentam quando as finanças públicas já estão em trajetória insustentável. Este é, sem dúvida, o caso do Brasil”.

Essa é a visão da floresta que deveria ser discutida nos jornais. É preciso acrescentar que a discussão sobre a reforma trabalhista é também uma discussão sobre perda de direitos, contraposta à possibilidade de dinamização e crescimento do mercado do trabalho –promessa de comprovação difícil. Esses são os dois lados da moeda.

Pode-se até afirmar que essa discussão está presente no jornal. Não com a clareza do dilema exposto pelo editorial da Folha: está em jogo a perda de direitos em nome do ajuste fiscal. Jornais estrangeiros assim enquadraram a manifestação. A imprensa brasileira abriu mão da discussão sobre a floresta.

A greve geral convocada por centrais sindicais e movimentos de esquerda mostrou que a mídia precisa se qualificar para esse tipo de cobertura, complexa e de altíssimo interesse do público leitor.

Quase em uníssono, os três principais jornais destacaram nas manchetes de suas edições impressas o efeito no transporte e a violência com que terminaram manifestações em São Paulo e no Rio.

Será que o vandalismo em pontos isolados do Rio e de São Paulo era notícia a destacar em enunciado de manchete, se a própria Folha escreveu que a calmaria reinou durante quase todo o dia? Por que valorizar as cenas de confronto, em vez de imagens que pudessem, por exemplo, mostrar o que diziam as faixas levadas às manifestações.

A greve paralisou, segundo o noticiário da Folha, parcialmente as atividades nas principais capitais do país e em ao menos 130 municípios, em todos os Estados e no Distrito Federal. Os organizadores classificam como a maior greve da história do país: cerca de 40 milhões paralisaram suas atividades.

Não há reportagem ou quadro na edição que diga qual era exatamente o objetivo da greve ou, se fosse o caso, a análise de seu impacto nos objetivos do movimento.

Há dois pontos básicos a que o jornal, na minha avaliação deveria ter respondido:

Qual foi o tamanho da paralisação? Era preciso encontrar parâmetros que permitissem ao leitor entender o que foi o movimento de agora em comparação com convocações anteriores.

Quais as possíveis consequências da greve? Terá algum efeito em seu objetivo principal de parar a tramitação das reformas trabalhista e da Previdência, obrigando Executivo e Legislativo a negociar com a sociedade e os sindicatos?

Eram desafios difíceis, mas a imprensa não conseguiu nem chegar perto de enfrentá-los.

À exceção dos colunistas André Singer e Demétrio Magnoli, não houve tentativa de interpretação do que aconteceu. Cientistas políticos, sociólogos e analistas não estão nas páginas da Folha ajudando a entender o que aconteceu e o que pode vir a acontecer.

Deputados e senadores não se manifestaram de forma a sinalizar se o protesto pode vir a ter algum efeito objetivo nos projetos em discussão. Apenas o governo federal fala, expressando a óbvia e obrigatória avaliação de que adesão foi pequena, fracassou.

Ainda há muito a aprender e a ser desenvolvido em cobertura de casos dessa magnitude.

Na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar“.

Apoio:

Advocacia Eny Moreira

5 Comentários

  1. Armando Coelho disse:

    Muito emblemática a chamada. Não fizeram jornalismo. Como diz o ditado nas escolas de jornalismo, não noticiaram nada sobre a inauguração da Ponte por que a Ponte caiu.

  2. Ivo disse:

    A grande mídia brasileira não faz jornalismo, faz política. Ela desequilibra o jogo jogado pelas forças sociais. E nada indica que deixará de fazê-lo um dia. A parceria com o Judiciário e o Legislativo dá à mídia a proteção pelo retribui na mesma moeda. É não é de hoje. Assim, mais que um partido político, juntos, formam uma organização (..)com tentáculos poderosos dentro da sociedade e do próprio estado. Nesse contexto a verdade e o destino da Nação são capturados, não sendo mais necessário o militar. É desafiador o cenário.

  3. Ric disse:

    Vergonhoso vc republicar algo destinado a assinantes de outro site. Mostra que sua ética profissional só existe quando convem…..

  4. Luiz Mattos disse:

    BRAVO! A MÍDIA BRASILEIRA SEMPRE FOI TERRORISTA ELITISTA E GOLPISTA,ACREDITAR QUE MUDEM É SONHAR ALTO,URGE LEIS QUE PUNAM INVERDADES QUE PARALISAM O PAÍS,PROVOQUEM O ÓDIO E O PRECONCEITO LEVANDO A GOLPES DE ESTADO.

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