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Marcelo Auler

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De forma bastante oportuna, Ivan Consenza Souza, filho do cartunista Henfil, relançou as camisetas que fizeram sucesso na Campanha das Diretas Já de 1983/84. Esta deve ser a bandeira atual. Foto: Marcelo Auler

No artigo publicado ontem aqui no Blog, Eugênio Aragão, de forma direta, apontou a saída para a crise política que vivenciamos: uma mobilização social que nos leve a uma eleição direta. Hoje, na entrevista que deu à Mônica Bérgamo, na Folha de S. Paulo, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, outrora herói nacional do Mensalão, de forma indireta apontou na mesma direção. Primeiro, segundo ele, só se sairá da crise,

no dia em que a sociedade despertar e restaurar a Presidência através de uma eleição em que se escolha alguém que representa os anseios da nação, isso limpa esse “malaise”, essa perda dos grandes trunfos“.

Barbosa foi além. Para ele,

“É tão artificial essa situação criada pelo impeachment que eu acho, sinceramente, que esse governo não resistiria a uma série de grandes manifestações”.

Ele não explicou como se chegará às Diretas, mas ao falar e manifestações e , principalmente, ao citar os erros dos governos, notadamente de Dilma Rousseff – extensivos também ao PT, de uma maneira em geral – criticou o fato de optarem pelo diálogo com o Congresso Nacional. Também não expôs, mas esse tipo de diálogo em busca da chamada coalizão,  sempre começa com o jogo de troca de interesses e favorecimentos. Por isso, tornaram-se os alimentadores da malfadadaecorrupção. A prática, no entendimento dele, deveria ser outra:

“Uma das características da boa Presidência é a comunicação que o presidente tem diretamente com a nação, e não com o Congresso”.

diretas-ja-sp-e1473141271429Faltou detalhar mais esta questão, porém, entendo que coincide com o que prega Aragão hoje para sairmos da situação em que os golpistas nos colocaram: mobilização social cobrando diretas já. Uma campanha que, diga-se, Ivan Consenza Souza, filho do cartunista Henfil, já lançou a reeditar uma camiseta desenhada por seu pai na época da famosa campanha das Diretas Já, em 1983/84.

Se essa análise partisse de qualquer um de nós jornalistas blogueiros, que somos considerados por muitos como “sujos”, certamente nos ridicularizariam. Mas, não. Veio no bojo de uma entrevista de autoria da brilhantíssima Mônica Bérgamo da Folha de S. Paulo. Ela, em uma verdadeira aula às suas colegas do Estadão e àqueles que diante de um presidente golpista, sem respaldo popular, colocam como prioridade saber como ele começou a namorar a atual mulher, não perdeu a chance de retirar de Barbosa uma análise crua e dura da situação que nosso país vive. É dele a explicação do retrocesso que tivemos:

“O Brasil deu um passo para trás gigantesco em 2016. As instituições democráticas vinham se fortalecendo de maneira consistente nos últimos 30 anos. O Brasil nunca tinha vivido um período tão longo de estabilidade.

E houve uma interrupção brutal desse processo virtuoso. Essa é a grande perda. O Brasil de certa forma entra num processo de “rebananização”. É como se o país estivesse reatando com um passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. Isso é muito claro. Basta ver o olhar que o mundo lança sobre o Brasil hoje”.

É interessante ver que, no entendimento dele, os políticos manipularam os eleitores:

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Não as lideranças, mas muitos dos que foram às ruas pedir o impeachment de Dilma, não percebiam que estavam sendo manipulados e tampouco imaginavam que nos levariam à situação atual.

“Aquelas lideranças da sociedade que apoiaram com vigor, muitas vezes com ódio, um ato grave como é o impeachment não tinham clareza da desestabilização estrutural que ele provoca.”

Muitos – não todos, menos ainda as lideranças apontadas pelo ministro aposentado – foram levados a fazer papel de bobos.

Omissão sobre o papel da mídia – Barbosa, entretanto, não aponta uma outra importante responsabilidade, talvez por conta da única falha que a entrevistadora possa ter cometido ao não abordar o papel da mídia nessa “manipulação”.  O apoio sem a percepção do que estavam fazendo – em outras palavras, atropelando a democracia e gerando o retrocesso de 30 anos do qual ele fala – foi provocado pelos ataques virulentos que a mídia tradicional. Com muito ódio.

Isto se explica com os dados que Miguel do Rosário apresentou, em 10 de outubro, no blog Cafezinho, através do artigo – Temer inicia trem da alegria para a mídia do golpe. Repasses federais à Folha crescem 78% . Como mostramos na reportagem “E agora, golpistas?” a mídia, o que, obviamente, inclui a própria Folha de S. Paulo, foi o único setor da economia brasileira a ter ganhos expressivos com o golpe do impeachment.

Mas, se falhou ao não debater com Barbosa o papel da mídia nessa “conscientização” da sociedade para a defesa do impedimento de uma presidente eleita, que nos levou a um retrocesso na nossa democracia, Mônica obteve dele, responsável pela condenação de diversos políticos com a discutível tese da Teoria do Domínio do Fato, um alerta claro para o juiz Sérgio Moro e os procuradores da Força Tarefa da Lava Jato, sobre a possível prisão do ex-presidente Lula. O ministro aposentado foi claríssimo, mas talvez seja necessário ainda desenhar:

Aragão sobre Barbosa: "forma estra

Barbosa: há um esforço grande para prenderem Lula, mas isto não me impressiona. Uma prisão sem fundamento de um ex-presidente com o peso e a história do Lula só tornaria esse olhar ainda mais negativo. FOTO ASCOM/STF

“Sei que há uma mobilização, um desejo, uma fúria para ver o Lula condenado e preso antes de ser sequer julgado. E há uma repercussão clara disso nos meios de comunicação. Há um esforço nesse sentido. Mas isso não me impressiona. Há um olhar muito negativo do mundo sobre o Brasil hoje. Uma prisão sem fundamento de um ex-presidente com o peso e a história do Lula só tornaria esse olhar ainda mais negativo. Teria que ser algo incontestável”. 

Como se tem visto ultimamente, por mais que esteja procurando, Moro e a Força Tarefa da Lava Jato ainda não encontraram o incontestável a que se refere Barbosa.

A entrevista – Para Joaquim Barbosa, governo Temer corre o risco de não chegar ao fim – merece ser lida na integra.

Estampa de uma das camisetas Fora Temer

Estampa de uma das camisetas Fora Temer

 

 

SERVIÇO AOS LEITORES: As camisetas com os desenhos do Henfil (há também a com o Fora Temer, cuja foto publico ao lado) podem ser encomendadas virtualmente na loja do Instituto Henfil, criado pelo Ivan para perpetuar a obra do pai. O endereço virtual é:  https://www.facebook.com/lojadagrauna/

Quem preferir a compra direta, ele às quintas-feiras à noite está no Debate da Esquerda, na Praça São Salvador (Laranjeiras) e aos sábado, na feira da Praça do Glicério, também em Laranjeiras.

10 Comentários

  1. C.Poivre disse:

    Também odeio este JB e não lerei nem hoje nem nunca o que este canalha diz ou escreve. É um hipócrita que está ressentido porquê foi abandonado pela plutocracia que o usou à vontade e ele lhe prestou vassalagem alegremente enquanto estava debaixo dos holofotes. O que ele fez na AP470 é um crime imperdoável. E ainda mal agradecido pois a invenção daquela “ação penal” era um primeiro ensaio para tentar depor o Presidente Lula que o nomeou ministro do stf contra a opinião de todos os juristas que Lula consultou.

  2. teste disse:

    alert(‘teste’)

  3. Luiz Carlos P. Oliveira disse:

    C.ALBERTO: Apoiado. Postei isso em outra matéria para um coxinha que acusou o PT de votar contra a lava jato. Certamente ele não leu a lei e foi na “pilha” da inprensa.

  4. Stella Pacheco Pimenta disse:

    Desculpe-me, Marcelo Auler, mas acho um desserviço à nação brasileira dar voz a esse facínora do Sr. Joaquim Benedito Barbosa Gomes. Ainda não perdi a esperança de ver esse senhor devidamente desmascarado da infâmia que foi aquele julgamento do mensalão (Ação Penal 470). O julgamento em si é que foi um crime.

    Mansinho com Daniel Dantas, os Marinhos da Globo, e um perseguidor implacável do inocente Genoíno.

    Não dê voz a esse crápula.

    Ele e Reinaldo Azevedo se merecem.

    Stella

  5. Rekernr disse:

    Já estava tudo combinado entre os tucanos, mídia, MP e STF. Primeiro negariam a eleição da Dilma, depois finaciariam uma garotada para começarem as manifestações contra ela. O Barbosa sairia de cena por um tempo e depois voltaria como herói da democracia querendo as diretas.

  6. João de Paiva disse:

    Joaquim Barbosa merece o ostracismo que desejou àqueles que julgou e condenou, SEM PROVAS, apenas por ressentimento, ódio vingativo e rancor. Cooptado pela mídia, a quem serve Mônica Bérgamo (e os dois parecem ter pactuado e nada disseram sobre o nefasto papel do PIG/PPV na incitação e disseminação do ódio, na criminalização e perseguição à Esquerda), Joaquim Barbosa contrabandeou uma teoria do direito alemão – a do domínio do fato – para abusiva e arbitrariamente condenar José Dirceu e José Genoíno, mesmo que não houvesse qualquer prova robusta contra eles. Além disso ele ocultou informações que poderiam beneficiar os réus e as separou, para compor o inquérito 2474, que foi colocado em sigilo e depois arquivado. JB agiu como capitão do mato, fez o serviço sujo e depois deixou o STF; a mídia que o bajulava, o abandonou. Apenas agora, depois que os nefastos efeitos do golpe de Estado estão evidentes, a FSP finge alguma preocupação e faz uma entrevista com JB. Esse torquemada que envergonha a magistratatura brasileira não merece o destaque que alguns blogs progressistas têm-lhe dado.

  7. Rui disse:

    Joaquim Barbosa? Me poupe foi ele que começou todo esse ódio.

  8. Francisco de Assis disse:

    Respeito muito o Autor, mas se apoiar em Joaquim Barbosa?

    Esse ser abjeto e repugnante, um dementator e assassino em potencial, que só não conseguiu seu intento de sangue contra um prisioneiro porque foi contido por outros a tempo, é o patrono de todo o ódio que explode na sociedade brasileira hoje. Pretende ser presidente, mas só merece mesmo ser chefe dos jagunços de Gilmar Mendes no Mato Grosso ou carcereiro e torturador de latino-americanos em Miami.

    Sinceramente, melhor não.

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