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Ghuilherme Boulos (Foto: Crédito: Coletivo Comunicadores Sem Medo).

Marcelo Auler

Existe um casuísmo evidente de querer resolver as eleições no tapetão do judiciário. Impedir Lula significa isso. Nós entendemos que é um desafio de toda a esquerda defender o direito do Lula ser candidato“.

Guilherme Boulos (Foto: Crédito: Coletivo Comunicadores Sem Medo).

A frase acima não é do Manifesto “Eleição Sem Lula é Fraude” que com menos de um mês em circulação, na tarde desta sexta-feira (12/01) já tinha atingido 169.693 assinaturas. Um número que apenas cresce: há dois dias, como noticiamos em Querem ringue em Porto Alegre? Lembrem da Diele, eram 151.384 adesões.

O Manifesto, embora defenda o direito de Lula se candidatar – o que tentam impedir apressando o julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) do recurso interposto contra a sentença de Sérgio Moro -, é, na verdade, uma peça na Defesa do Estado Democrático de Direito, como bem lembrou o possível candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Foi ele que deu o veredito acima em entrevista publicada nesta sexta-feira ao Esquerda On Line – Guilherme Boulos: “Em 2018, é preciso barrar a agenda do golpe”– na qual mostra a necessidade de a esquerda se unir não em nome de um candidato, mas na defesa dos direitos da sociedade que o governo golpista de Michel Temer vem derrubando.

Da entrevista, destacamos sua percepção sobre o julgamento do próximo dia 24 de janeiro:

“Se trata, na verdade, de uma nova fase do golpe, um aprofundamento do golpe. E da mesma forma que nós enfrentamos o golpe e defendemos o mandato da Dilma, muito embora discordássemos de caminhos que foram tomados pelo seu governo, nós achamos que é necessário nesse momento defender o direito do Lula ser candidato e enfrentar essa nova etapa do golpe independentemente de termos discordâncias com o programa político e eleitoral que Lula oferece para a sociedade. Ou seja, é uma defesa democrática.

É disso que se trata. É uma necessidade de toda a esquerda, mesmo que discorde do programa apresentado pelo Lula, mesmo que tenha diferença com as políticas – seja no arco de alianças ou de não ter aprendido lições do processo do golpe – como nós temos também essas diferenças, defender o direito de Lula ser candidato. O que está em jogo nesse momento é uma unidade em torno da defesa da democracia”.

Massimo D’Alema, ex-primeiro ministro da Itália, a mais nova adesão ao Manifesto “Eleição Sem Lula é Fraude”. Foto: Wikipédia

Esta mesma percepção é que tem levado políticos das mais diferentes extirpes ideológicas – naturalmente, à esquerda – engrossarem o Manifesto “Eleição Sem Lula é Fraude” lançado, em 19 de dezembro, pelo Projeto Brasil Nação. Na Itália surgiu a adesão do ex-primeiro ministro (1998-2000) Massimo D’Alema. No Brasil quem também assinou foi Aldo Rebelo, ex PCdoB, atualmente no PSB, que está oferecendo seu nome para concorrer à presidência da República pelo PSB.

Boulos confirmou ao Blog sua presença na manhã do dia 24 em Porto Alegre e no final da tarde do mesmo dia na manifestação a ser realizada, com a presença de Lula, em São Paulo. Ele tem consciência de que a condenação de nove anos e meio que o juiz Sérgio Moro deu a Lula é uma aberração, como deixou claro na entrevista:

Dia 24 teremos uma grande batalha em defesa da democracia. Se nós observarmos, a condução do processo da Lava Jato contra o Lula é uma verdadeira aberração jurídica. Lula foi condenado em primeira instância sem qualquer prova material, de maneira casuística, com uma atuação evidentemente política e arbitrária do juiz Sérgio Moro.

A própria antecipação do julgamento do TRF4 para o dia 24 foi escandalosa, ajustando os prazos para impedir Lula de concorrer nas eleições. Então, nesse sentido, se trata num primeiro momento de impedir e denunciar o abuso judicial de uma condenação sem provas. Mas, ao mesmo tempo, isso tem muita relação com o processo eleitoral porque existe um casuísmo evidente de querer resolver as eleições no tapetão do judiciário. Impedir Lula significa isso. Nós entendemos que é um desafio de toda a esquerda defender o direito do Lula ser candidato”.

Deixando claro que sua candidatura ainda não está decidida, mas confirmando o processo de discussão em torno dela junto à direção do PSOL, Boulos – cuja entrevista deve ser lida na íntegra no site do Esquerda On Line – mostra os dois desafios que o processo eleitoral trará para os movimentos sociais:

O primeiro é enfrentar o golpe em curso. Isso se expressa, como dissemos, na tentativa de obstruir o Lula, mas não somente. Isso também se expressa nas propostas de semiparlamentarismo que tem aparecido com cada vez mais frequência na boca de gente como Gilmar Mendes e do próprio Michel Temer; isso se expressa na necessidade de garantir que os setores mais retrógrados da sociedade não bloqueiem ainda mais o que restou de ambiente democrático no país. Esse é um desafio fundamental. Isso passa também por enfrentar as alternativas da direita, e o crescimento de figuras como Jair Bolsonaro querendo canalizar o sentimento de antipolítica para um retrocesso político ainda maior.

E um segundo desafio, é que o momento eleitoral coloca a necessidade de debater um projeto de país. Nós vemos a agenda do golpe sendo implementada, penalizando as maiorias, e é preciso aprender com as lições desse processo. É preciso entender que o momento é outro. O momento atual não permite avanços do ponto de vista de direitos sociais, avanços das pautas populares do país sem enfrentamento decidido aos privilégios, sem colocar o dedo na ferida de questões fundamentais. Na economia, o enfrentamento aos bancos e ao sistema financeiro; a necessidade de uma reforma tributária progressiva. Na política, a necessidade de uma democratização profunda, que apresente uma saída popular à falência do sistema da Nova República. Dentre vários outros debates programáticos, muitos deles colocados pelo próprio VAMOS. É um momento de enfrentamento e a esquerda precisa saber colocar esses temas no centro da agenda. Senão as políticas de retirada de direitos novamente serão vendidas como única ‘alternativa’”.

 

 

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