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Marcelo Auler
*Editado às 21H00, para consertar a cidade do jornal Gazeta, que erroneamente citei como do Paraná, mas trata-se de um jornal de Mato Grosso. Peço desculpas pelo erro.
No blog 247, a referencia ao preconceito contra Lula, vítima de acidente de trabalho.

No blog 247, a referencia ao preconceito contra Lula, vítima de acidente de trabalho.

No momento no qual as disputas políticas acirradas levam pessoas a perderem o senso da civilidade, se deixando dominar pela intolerância e o preconceito, surge uma voz chamando à razão e ao bom senso. Vem do Mato Grosso.

Trata-se de um artigo do procurador do trabalho Thiago Gurjão Alves Ribeiro. Ele não se posiciona no FlaxFlu político que se instalou no país, mas alerta para questões mais sérias que passam desapercebidas e que tornaram-se motivo de chacota ou brincadeira de mau gosto. Como ele lembra:

Os dados oficiais revelam que entre 2007 e 2013 ocorreram mais de 5 milhões de acidentes e mais de 100 mil trabalhadores ficaram permanentemente incapacitados para o trabalho no país. 

O detalhe do Twitter de Ricardo Noblat que levou o procurador a escrever sobre a intolerância e preconceito.

O detalhe do Twitter de Ricardo Noblat que levou o procurador a escrever sobre a intolerância e preconceito.No mesmo período foram registradas mais de 19 mil mortes, dados que levam o Brasil ao quarto lugar no mundo em estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT)“.

 Ou seja, uma multidão de vítimas de acidentes de trabalho mutiladas, que deveriam ser respeitadas. Para atingir na briga política o ex-presidente Lula, há quem faça troça com o fato dele possuir apenas nove dedos, vítima que foi de um acidente como torneiro mecânico.
Ribeiro não identifica nem o colunista “do jornal “O Globo”” nem o “agente público” com notória atuação na “operação Lava-Jato” que se refere, entre amigos, ao ex-Presidente como “Nine”. Nomeia apenas o senador Ronaldo Caiado pelo mau gosto de usar uma camiseta com uma mão estampada com apenas quatro dedos. Basta, porém, uma busca no Google com “nine”para localizar uma postagem antiga (junho de 2015) do Brasil 247  na qual consta:
Segundo o jornalista Ricardo Noblat, o juiz Sergio Moro se refere ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ‘Nine’, numa alusão a seus ‘nove dedos’; qualificar alguém em razão de uma deficiência física, como fez Ronaldo Caiado, com a camisa ‘Basta’, nas manifestações de março e abril deste ano, é uma atitude fascista;”
O artigo abaixo foi publicado no último dia 4 de abril na Gazeta Digital, do Mato Grosso. Por concordar que não é possível, mesmo em uma disputa política acirrada, as pessoas perderam o bom senso e se deixarem dominar pela intolerância e preconceito, republico-o.

O “nove dedos”
Por Thiago Gurjão Alves Ribeiro*
Thiago-Gurjão-Alves-Ribeiro-MPT (Medium)Se o leitor esperava um texto fazendo troça da amputação do dedo de um certo ex-Presidente da República, lamento desapontá-lo; mas já que está aqui, fica o convite a percorrer mais algumas linhas. Já falaremos dele. O personagem inicial, porém, é outro e, infelizmente, perdeu mais que um dedo. 

William Garcia da Silva, que tinha então 24 anos e uma filha de oito meses, trabalhava em uma unidade da JBS em Coxim, Mato Grosso do Sul. Segundo consta em publicação da “Repórter Brasil” – Engrenagens Expostas -, ele tinha alertado seus superiores quanto à falta de grades para isolar componentes perigosos de uma máquina de moagem de ossos e chifres.

Em 22 de janeiro de 2015, quando limpava as engrenagens da moedeira, seu braço foi tragado pela moedeira. A rosca amputou seu braço acima do cotovelo. Ainda de acordo com o relato de William, ele não teria recebido treinamento para a função e teria sido designado para fazer a limpeza das máquinas em substituição a colegas demitidos.

Infelizmente casos como o de William são muito frequentes. Porém, salvo uma reportagem aqui e acolá, quase nunca são lembrados na grande imprensa brasileira sob a perspectiva da vítima. Suas histórias são contadas em trabalhos como o documentário “Carne e Osso” e publicações de organizações independentes como a “Repórter Brasil”.

Talvez essas histórias não sejam boas para vender jornal ou incrementar a audiência – ou, talvez mais importante, não devem influenciar positivamente as receitas publicitárias dos veículos de comunicação...

Cotidianamente milhares de trabalhadores encontram no ambiente de trabalho a amputação, a doença, o acidente, a morte. Os dados oficiais revelam que entre 2007 e 2013 ocorreram mais de 5 milhões de acidentes e mais de 100 mil trabalhadores ficaram permanentemente incapacitados para o trabalho no país.

No mesmo período foram registradas mais de 19 mil mortes, dados que levam o Brasil ao quarto lugar no mundo em estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Mas uma pesquisa realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde aponta o subdimensionamento desses dados e estima a ocorrência de 4,9 milhões de acidentes de trabalho apenas em um ano, entre 2012 e 2013.

Tais números e relatos, ao que parece, não têm sido suficientes para sensibilizar boa parte da população brasileira sobre essa tragédia, o que é necessário para que tenhamos uma mudança de paradigma cultural, voltada à proteção coletiva no trabalho, bem como para que se tenha a devida cobrança pela população em relação aos atores públicos e privados que podem atuar para a redução desse número.

No atual momento conturbado do país, diversas referências em páginas da internet e redes sociais fazem pejorativa alusão, explícita ou implicitamente, ao fato de Lula ter nove dedos. Como se sabe, ele perdeu o dedo mínimo da mão esquerda aos 18 anos, após uma lesão por esmagamento em uma prensa, o que levou à respectiva amputação. Continuou a trabalhar como metalúrgico, como ocorre com aqueles que têm condições físicas de fazê-lo após sofrerem um acidente de trabalho, ainda que com sequelas duradouras ou irreversíveis. Os que sobrevivem, é claro.

Um colunista do jornal “O Globo” publicou nas redes sociais que um agente público com notória atuação na “operação Lava-Jato” se refere, entre amigos, ao ex-Presidente como “Nine”. Um Senador da República (Ronaldo Caiado, do DEM/GO), juntamente com diversas pessoas, posou para fotos em que aparece com uma camisa na qual está representada uma marca de mão e dedos (sem o dedo mínimo) sujos de petróleo.

Os comentários explícitos se multiplicam em páginas na internet e redes sociais, desde aqueles que, assim como na camisa usada pelo Senador e (supostamente) a autoridade referida pelo colunista, usam o dedo amputado (os “nove dedos”, o apelido “Nine”, a mão com quatro dedos…) como apodo ou signo para identificar o ex-Presidente, até os que, explicitamente, fazem piadas com a “perda” (amputação) do dedo.

Não tenho a pretensão de tentar explicar aqui o que leva pessoas supostamente “de bem”, em nome de uma “causa justa”, a fazerem referência discriminatória às sequelas decorrentes de acidente de trabalho sofrido por um ex-Presidente da República que começou sua trajetória profissional como metalúrgico e, depois, sua vida pública como representante de sua categoria profissional (como dirigente sindical).

Ou a razão de determinadas pessoas, ao se manifestarem contra aquilo que reconhecem ser o grande mal do país (a corrupção, por todos reconhecida como nefasta, ao menos em palavras e discursos), fazerem referência a uma marca indelével de uma vítima de um acidente de trabalho. Talvez nem haja muito o que explicar e os fatos falem por si só.

De toda forma, é necessário chamar a atenção para essa tragédia brasileira que, dia após dia, assola trabalhadores em todo o país e que precisa contar com a sensibilização da sociedade como um todo para o problema, o que, parece, lamentavelmente ainda não ocorre com algumas pessoas, já que não hesitam em fazer referência pejorativa à amputação de um dedo de uma conhecida vítima de um acidente de trabalho. E sensibilização e mobilização são fundamentais para que se possa reduzir significativamente os atuais números.

Ante a compreensão binária que muitos têm hoje do debate público no país, espero que uma tentativa de alertar para a tragédia dos acidentes de trabalho no Brasil e conclamar as pessoas a serem sensíveis a esse problema não seja compreendida como estar “defendendo um lado” na disputa político-partidária. Acho que não vivemos tempos tão obscuros assim. Mas se for, paciência. Melhor correr esse risco do que o silêncio cúmplice com a marcha da insensatez.

*Thiago Gurjão Alves Ribeiro é Procurador do Trabalho em Mato Grosso.

8 Comentários

  1. […] o colunista Ricardo Noblat, Moro sempre se referia a Lula como o “nine”, nove em inglês e em referência aos nove dedos do […]

  2. […] o colunista Ricardo Noblat, Moro sempre se referia a Lula como o “nine”, nove em inglês e em referência aos nove dedos do […]

  3. […] o colunista Ricardo Noblat, Moro sempre se referia a Lula como o “nine”, nove em inglês e em referência aos nove dedos do […]

  4. Rosali Cantlin disse:

    Cometário em defesa das mulheres? E quem disse que nós queremos ser defendidas desse comentário? Esse não foi um cometário depreciativo. Muito pelo contrário, foi feito como elogio às mulheres guerreiras que saíram à luta contra o golpe. Completamente diferente do que fazem com o Lula. No caso dele é discriminação e preconceito, como se perder um dedo trabalhando o tornasse pior que os outros. E não tem “chora PT”. Tem chora você, coxinha.
    Lula vai voltar em 2018 e Dilma está voltando. Chora você!

  5. Menosmimimi disse:

    E quanto a expressão ” mulheres do grelo duro” utilizada por Lula, nenhum comentário em defesa das mulheres? petistas só sabem acusar outros, mas explicar os seus erros é uma virtude que nunca tiveram. Chora PT

  6. Anonimo PF disse:

    Caro Marcelo, hoje a PF toda te acompanha por aqui. O seu trabalho é íntegro e exemplar. Não preciso dizer o que você já sabe, o que vivemos internamente, o que se transformou uma, mais uma , Operação Policial. Acreditamos na mudança do DPF porque está provado através da rasgacão das tripas que você fez do nosso órgão. Esta podre.Contaminado por vaidades egos e cobiça de poder sem limites de uma classe. Chegam ao ponto de avisar a imprensa até quando vamos levar os presos no IML. Colegas usam máscaras pela exposicao absurda. Os fins da atividade policial hoje infelizmente são os meios; da autopromocao da imposição do meu ponto de vista, da quebra da confiança e consequente perseguição dos outros policiais. Para fora é o ápice. Para dentro é o fundo do poço. A verdade vira a tona. O poço tá quase pra transbordar. Aguarde.

  7. João de Paiva disse:

    Este artigo é uma prova cabal da diferença que existe entre os MPs. Em artigo publicado pelo blog, há cerca de dois meses, eu afirmei que a única semelhança entre o MPT e o MPF é pelas duas letras iniciais da sigla e pelas palavras que essas letras representam. O MPF e boa parte dos MPEs foram tomados pelo corporativismo e pelo vedetismo e atuação político-partidária contra os agentes públicos com alguma ligação com a Esquerda Política. Já o MPT tem-se caracterizado pela atuação dos procuradores em defesa do interesse público e do direito dos menos favorecidos, no caso os trabalhadores que vendem sua força de trabalho ao empresariado.

    Esclarecedor e didático, este artigo desmascara muitos reacionários que se acham bem informados e que no seu mau-caratismo congênito têm a desfaçatez de afirmar que o torneiro mecânico Luiz Inácio da Silva (ele ainda não havia incorporado Lula ao nome, quando sofreu o acidente) acidentou-se propositalmente, para que pudesse se aposentar por invalidez.

    Embora não seja o propósito do artigo escrito pelo procurador Thiago Gurjão Alves Ribeiro, este texto escancara a má índole dos detratores do ex-presidente Lula.

  8. S.Bernardelli disse:

    Depois de ter feito tudo que fez ainda chama Lula de nine? Será que ele tem espelho em casa? Será que ele já reparou que quando dá entrevista ou faz alguma palestra ele pisca feito louco que chega dar aflição para quem está assistindo? Será que ele gostaria de ouvir alguém dizer… “Vamos assistir a aula ou palestra do pisca pisca? Moro deveria primeiro cuidar do seu defeito antes de apontar o defeito dos outros… Ele deveria procurar um psiquiatra não só para cuidar desse ponto, como também para resolver o seu problema de ego excessivo que é pior que a falta de um dedo.

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