Marcelo Auler

Perderam a classe média

Arnaldo César  (*)

Âncora, por 19 anos, do telejornal “Evening News”, da rede de televisão CBS, Walter Conkrite foi considerado o norte-americano de maior credibilidade junto à opinião pública do seu País. Ele morreu em 2009, aos 92 anos de idade. Ficou célebre um editorial que pronunciou da bancada do seu telejornal, no final dos anos 60, depois de uma série de reportagens que produziu no Vietnã.

O então presidente Lindon Johnson ao assistir esse pronunciamento comentou: “Perdemos o Conkrite, perdemos a classe média”. Perderam também a guerra. Depois disso, Johnson desistiu de se candidatar à reeleição. Volta e meia, a historinha narrada acima é relembrada pelas escolas de jornalismo dos Estados Unidos, especialmente quando querem demonstrar o papel da imprensa nas tomadas de decisões de uma nação.

Não é o caso da grande mídia brasileira. Por aqui, ela sempre rezou de acordo com a cartilha e os interesses dos poderosos. Por isso, a capa da Veja desta semana, a de número 2524, com a manchete “A vez de Aécio”, chama a atenção.

Aliada, de primeira hora, do ex-governador de Minas nas eleições presidenciais de 2014, a revista de maior circulação do País revela que Aécio Neves e sua irmã Andrea eram mimoseados com propinas depositadas pela empreiteira Norberto Odebrecht, em contas sediadas em Nova Iorque.

“A reação dos irmãos Neves não fugiu ao figurino. Andréa Neves questionou: ‘Por que tanto ódio?” – Foto – reprodução do DCM.

A reação dos irmãos Neves não fugiu ao figurino de todos que foram alcançados por delações premiadas. Andrea, visivelmente, emocionada, com os olhos rasos d’água, esbravejou: “por que tanto ódio?”.

Só para não deixar passar em brancas nuvens, na edição 2.397, de 23 de outubro de 2014, ou seja, três dias antes do pleito do segundo turno que se realizou no dia 26, Veja estampou uma capa, igualmente espalhafatosa, com letras vermelhas, entre as imagens recortadas de Dilma e Lula em que apregoava: “Eles sabiam de Tudo”.

Reproduzida aos milhões, essa capa foi espalhada por todos os cantos do País, como se fosse um galhardete de campanha. Nem o adereço de mão e tampouco a denúncia contida naquela edição conseguiram derrotar nas urnas a dupla Dilma e Lula.

Na campanha eleitoral de 2014, a Veja tentou empurrar a candidatura de Aécio detonando Lula e Dilma. Não conseguiu

Entre uma edição de 2014 e a da desta semana já se passaram mais de dois anos. No meio do caminho, Dilma foi golpeada por uma conjuração que reuniu Aécio Neves, o seu PSDB e uma gang de políticos corruptos comanda pelo nefando Michel Temer.

Admite-se que a comparação com Walter Conkrite é um tanto exagerada. Mas, há de se concordar que a publicação semanal de maior penetração do Brasil está pulando fora da canoa furada do golpe. Até mesmo quando trata da política econômica liberal imposta pelos golpistas – é bom não esquecer tão ao gosto daquela semanal – lança mão de um tom de crítica e reprovação: “O recuo do recuo” foi o título usado para um texto que desanca o ministro Henrique Meirelles, o queridinho de onze entre dez empresários pátrios.

As pesquisas de opinião, fartamente divulgadas na semana passada, mostram que a chapa esquentou para os golpistas. Ao contrário do que prometeram, há dez meses, não conseguem tirar o Brasil do buraco. O governo de o ímpio Temer arregimentou míseros 10% de aprovação entre os pesquisados.

A “imparcialidade” da Veja na edição desta semana, contudo, não recomenda que se acendam rojões. Deve ser entendida pelo prisma de que ela apenas transformou Aécio Neves num bagaço a ser descartado. Fazer isso, nas semanas que antecedem o depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba, no próximo dia 3 de maio, pode dar ideia de que a publicação não nutre ódio por ninguém. Não se deixem enganar.

Esta manobra pode ter o mesmo objetivo daquela outra que levou o juiz Sérgio Moro condenar com surpreendente ligeireza o bucaneiro Eduardo Cunha a 15 anos de cadeia. A mudança de rumo da Veja, como de resto da grande imprensa, é para livrar a própria pele, diante do desastre provocado pelo golpe e seus coadjuvantes.

A intenção de esmagar o ex-presidente Lula e o seu projeto político continua intacta.

(*) Arnaldo César é jornalista e colaborador do Blog

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