Ação contra Gleisi esconde “bastidores” da Lava Jato
19 de junho de 2018
Lula descobre “infiltrado” na PF-PR
22 de junho de 2018

Marcelo Auler (*) Reeditado

O verdadeiro – e inacreditável – propósito do delegado federal Eduardo Mauat Silva ao processar este Blog no Juizado Especial Cível de Santa Cruz do Sul (RS) – como noticiamos em Questionado, DPF Mauat, ex-Lava Jato, processa o Blog– ao que parece, não é tanto a indenização por danos morais de 40 salários mínimos (R$ 37.480), como solicitou na inicial da ação.

Bem mais pretensioso, ele reivindica o fechamento deste Blog e a identificação das fontes que nos alimentam com informações – verídicas, ressalte-se – sobre os bastidores da Operação Lava Jato. Isto foi verbalizado pelo próprio, no início da noite de terça-feira (10/06), no Juizado de Santa Cruz do Sul, cidade distante 150 quilômetros de Porto Alegre. Tal como fizemos constar da Ata de Audiência, cujo trecho reproduzimos ao lado (a íntegra apresentamos abaixo).

Com isso, ele não apenas quer calar as vozes que criticam os métodos pouco ortodoxos utilizados pela Força Tarefa da República de Curitiba. Afinal, a eles só interessam os elogios. A prepotência e o absurdo estão no fato de o fechamento do Blog significar o fim de um instrumento-legítimo e legal – com o qual se ganha o pão de cada dia. Apenas e tão somente por terem sido feitos questionamentos, jornalisticamente cabíveis, independentemente de o próprio delegado ter incentivado o público a fazê-los. Além, é claro, de que passando por cima do que a Constituição nos garante – o sigilo de fonte – revelemos onde obtemos informações para, certamente punir que nos ajuda. Mas o que ele desejava é ser incensado. Não criticado.

Curiosamente, embora alegue que a nossa reportagem contenha injurias, calúnias e difamações, o delegado, ao prestar seu depoimento – assim como na própria inicial da ação – não contestou nada do que ali está. O que o surpreendeu foi termos apresentado um e-mail, que lhe foi enviado três meses antes da publicação da matéria, questionando-o sobre o assunto abordado. Na ação ele alegou não ter sido procurado. Falou, inclusive, que descumprimos a ética.

Tese rebatida com veemência na contestação apresentada pelo advogado Antonio Carlos Porto Jr., do escritório Direito Social, de Porto Alegre. Na nossa defesa por ele ajuizada, está destacado:

“Não é verdadeira a afirmação que a matéria foi feita descuidadamente; que não se buscou ouvir todos os lados. Não! O autor foi diretamente questionado por correio eletrônico pelo jornalista antes da publicação da matéria e preferiu se omitir, não responder. E, para piorar, na ação, sonega tal informação ao juízo! A ata notarial anexa prova essa afirmação. O autor poderia ter dado sua versão e explicado os fatos tal como ele os vê. Não quis fazê-lo. Calou-se. Agora acusa o jornalista de falta de ética”. (grifo do original).

Ao gravar um vídeo incentivando a sociedade a questionar autoridades, o DPF Mauat se tornou pessoa pública e atraiu noticias a seu respeito. A favor e contra.

O próprio Mauat, ao ser questionado por Porto Jr. confirmou seu endereço de e-mail profissional, para o qual foi enviada a correspondência jamais respondida. Da mesma forma em que admitiu que, mesmo tendo participado do concurso de remoção para a Delegacia de Santa Cruz do Sul, para onde acabou designado em meados de 2014, permaneceu trabalhando em Curitiba. Até ser dispensado da Lava Jato (em meados de 2016) esteve poucas vezes no novo posto de serviço: “No período em que atuou entre Curitiba e Santa Cruz do Sul, esteve na última cidade em cinco oportunidades”, declarou.

Ao apresentar nossa defesa – na qual trabalha Pro Bono (pela causa, gratuitamente) -, Porto Jr. mostrou que o delegado Mauat só se tornou notícia por ele próprio buscar notoriedade ao receber, em meados de 2016, a determinação de deixar a Força Tarefa da Lava Jato e retornar a delegacia de Santa Cruz do Sul:

“Alega a petição inicial que o réu teria publicado uma matéria difamatória e injuriosa em função da atuação do autor no Grupo de Trabalho da Operação Lava Jato. Nada mais impreciso e irreal. A matéria não decorre da atuação do autor no Grupo de Trabalho da Operação Lava Jato. Antes, se origina da sua saída dele e, sobretudo, de sua extremada e inusitada reação pública contra a decisão de seus superiores.

(…) Ora, o autor se torna personagem da matéria exatamente por sua reação pública e inusitada. Ele virou notícia. Sua reação virou notícia. Aviões que decolam e pousam, salvo quando transportam algum passageiro especial, não são notícias. Quando caem, são. O inusual é notícia; o ordinário, não. O comportamento do autor foi extraordinário. Sua conduta – sobretudo a forma explícita, espalhafatosa, desafiante, com largo uso das redes sociais – despertou curiosidade da opinião pública; o autor obteve o que buscou: tornou-se notícia.

Em um vídeo, ata notarial anexa, o próprio autor incentiva a sociedade a perguntar, questionar, interagir, reclamando do havido. O autor cobra que outros delegados estariam em situação similar a sua e não serem objeto da matéria. A matéria é sobre um servidor que vai a publico questionar uma decisão administrativa”.

A defesa do blog apresentada pelo advogado Antônio Carlos Porto Jr.

Na audiência, a advogada que representou Mauat, Júlia Eloisa de Freitas Limberger, insistiu em questionar as fontes do jornalista, assim como quis saber quem forneceu o documento que comprovava a transferência de Mauat para a Delegacia de Santa Cruz do Sul. Transcrevemos abaixo o diálogo ocorrido:

Advogada – Se o senhor sabe dizer qual foi a fonte da publicação dessa matéria que o senhor postou.

Marcelo – A Constituição me garante, em nome do direito da sociedade ser informada, o direito de eu não revelar fontes. Sobre fontes eu não falo. Em nome do direito da sociedade ser informada,  por favor, eu gostaria que constasse isso.

Advogada – E o senhor, ao menos, checou essa fonte antes de fazer a publicação?

Marcelo – Chequei as informações. Todas. E tinha o boletim… o documento da transferência, da remoção dele. Publicado no Blog. Inclusive telefonei para a delegacia de Santa Cruz do Sul para saber se ele estava aqui.

Outra preocupação da advogada era se o editor do Blog já ocupou cargo de confiança ou foi remunerado pelo PT.

Do PT? Nunca. Nem sou associado (filiado). Apenas assinei o livro da sua fundação“, ouviu como resposta.

Na Ata da Audiência, porém, apesar de constar a resposta de jamais ter se filiado ao partido, saiu erroneamente que o jornalista teria assinado o livro de filiação. Na verdade, a assinatura foi feita, em 1980, no livro de fundação, registrado no Tribunal Superior Eleitoral.

Mesmo sem ser questionado, ficou registrado que, como jornalista, nos dois primeiros anos do governo Lula, o editor deste Blog trabalhou na assessoria de imprensa da Dataprev.

Ata da Audiência no Juizado Especial de Santa Cruz do Sul

Erika Mialiki como testemunha – O próximo passo do processo depende do juiz titular da Vara. Ele terá que decidir sobre os depoimentos de quatro testemunhas arroladas pelas duas partes. O DPF Mauat pediu que fossem ouvidos a delega Erika Mialiki Marena, que também processa este Blog, e o delegado federal Luciano Flores Lima, que atuou na Lava Jato em Curitiba e foi responsável pela condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em março de 2016. Ambos, atualmente, são superintendentes. Erika em Sergipe. Luciano no Mato Grosso do Sul

Já o advogado Porto Jr. arrolou como testemunhas os delegados Victor Antônio Lopes e Fabrício Blini, ambos lotados na Superintendência do Paraná. Os dois, em momentos distintos, foram deslocados para a Delegacia de Polícia Federal de Santa Cruz do Sul (RS), teoricamente para cobrirem o lugar de Mauat que, após ser transferido, permaneceu na capital paranaense atuando na Lava Jato. Tais depoimentos, casos acatados, serão por Carta Precatória.

(*) Reeditado para certo e acréscimo de informações às 11H19 de 21/06

 

AO LEITORES: Para participar da audiência judicial no processo que o DPF Eduardo Mauat nos move no Juizado Especial de Santa Cruz do Sul (RS), o Blog se encontra em Porto Alegre. Agora iremos para Curitiba cuidar do processo que nos censurou e acompanharmos a situação da Vigília Lula-Livre, além de levantar informações sobre as delações premiadas. Como é do conhecimento de todos, o Blog sobrevive com a ajuda dos seus leitores/apoiadores. Tanto na divulgação de reportagens como esta acima, como com contribuições financeiras que servem para o sustento da página e o pagamento de despesas como desta viagem. Elas podem ser feitas em qualquer valor, em qualquer periodicidade, na conta bancária exposta no quadro ao lado. Mais uma vez agradecemos aos que já contribuem e àqueles que vieram a contribuir.

15 Comentários

  1. […] Blog Marcelo Auler, repórter – O verdadeiro – e inacreditável – propósito do delegado da Polícia Federal Eduardo Mauat Silva (DPF Mauat) ao processar este blog no Juizado Especial Cível de Santa Cruz do Sul (RS) – como noticiamos em Questionado, DPF Mauat, ex-Lava Jato, processa o Blog – ao que parece, não é tanto a indenização por danos morais de 40 salários mínimos (R$ 37.480), como solicitou na inicial da ação. […]

  2. […] Proposta prontamente recusada por nós e nossa defesa como aqui narramos em: DPF Mauat quer fechar o blog e conhecer nossas fontes. […]

  3. Felicity disse:

    Caro Marcelo, receba minha solidariedade por mais esse absurdo fascista. Torço para que o poder judiciário atue conforme seu papel de guardião da constituição, apesar de várias decisões terem contrariado isso nos últimos tempos. Abraços..

  4. É o que se está tentando impor à sociedade brasileira: não digam que o Rei está nu! O erro está nos olhos de quem viu – e compreendeu – a farsa da Operação Lava Jato, que é a mesma do golpe que derrubou Dilma, assim como a incompetência absurda do governo Temer. Este presidente pessimamente avaliado e que, com um pequeno deslizamento na acentuação, se transforma no infinitivo do verbo temer.

  5. Francisco Carlos Oliveira de Lima disse:

    Vou contribuir em nome da democracia. Abaixo a ditadura!

  6. […] Em um vídeo, ata notarial anexa, o próprio autor incentiva a sociedade a perguntar, questionar, interagir, reclamando do havido. O autor cobra que outros delegados estariam em situação similar a sua e não serem objeto da matéria. A matéria é sobre um servidor que vai a publico questionar uma decisão administrativa”. (Veja texto completo) […]

  7. João de Paiva disse:

    O que os lavajateiros fazem com Marcelo Auler é o mesmo que fizeram com Eduardo Guimarães; com este último foram além: invadiram a residência dele, a mando do torquemada das araucárias, subtraindo dali equipamentos de trabalho (computadores, celulares, documentos, etc.); a residência de Eduardo Guimarães foi invadida às 6h da manhã; nem mesmo respeitaram a esposa e a filha Victória, que padece de grave doença psico-motora. E por que os lavajateiros fizeram isso com Eduardo Guimarães? Porque ele, praticando jornalismo profissional (mesmo sem o diploma nessa área, que não é exigido pela legislação), revelou de forma antecipada – um furo jornalístico – que o Ex-Presidente Lula e mais 42 pessoas teriam sigilos bancário, telefônico, telemático e fiscal quebrados, estando sujeitos a investidas dos lavajateiros (24ª fase da Fraude a Jato). Os integrantes da Fraude Jato tentaram dissimular e desmentir EG, mas dois dias depois TUDO o que ele noticiou se confirmou. O seqüestro judicial do ex-Presidente Lula, a mando do juiz lavajateiro, ocorreu na mesma época, como se lembram os leitores. Até hoje Eduardo Guimarães não teve devolvidos seus pertences e equipamento de trabalho; o juiz lavajateiro usou o mesmo expediente que esse delegado usa contra Marcelo Auler: tentou desqualificá-lo e obrigá-lo a revelar as fontes.

    Pelo exposto acima e pelo revelado na série histórica de reportagens da lavra de Marcelo Auler, dá para perceber o modus operandi dessa ORCRIM institucional: a Fraude a Jato. Mas Marcelo Auler não há de se intimidar. Além de se defender, ele deve solicitar a seus advogados que proponham a reconvenção, ou seja a reversão da ação contra o autor; razões e provas para isso há de sobra.

  8. Heliana Pessoa disse:

    Por eles, já estaríamos vivendo de novo uma ditadura há muito tempo.. aplicam métodos de tortura, descumprem as normas legais, ferem os preceitos constitucionais e não querem ser questionados.. o Eduardo Guimarães do Blog da Cidadania também foi perseguido por eles.. inclusive invadiram a casa dele, apreenderam seus instrumentos de trabalho, foi um horror que ele viveu por conta dessas pessoas sem escrúpulos que se arvoram arautos da moralidade (para os outros) enquanto eles próprios não querem cumprir o preceito mínimo do direito de sigilo da fonte

  9. […] última notícia no blog de Marcelo Auler, inclusive, trata de novo processo do qual o jornalista é alvo, novamente movido por um agente público. Segundo a nota, o delegado da Polícia Federal Eduardo Mauat entrou com um processo contra Auler […]

  10. DIno disse:

    Marcelo,

    Recomendo muito que você solicite a correção dos pontos que lhe chamaram a atenção por escrito.

    Tenho certeza que esses dados não foram colocados lá sem um fim definido.

    Posso estar errado, mas acredito que somente isso pode ser usado pelos acusados para censurar o blog dizendo que se trata de um panfleto político partidário e, com isto, alcançar o fim que desejam: censurar um jornalista que publica fatos que constrangem esta turma.

    Sabe como é, juiz em um interior conservador, em um estado anti PT e por aí vai.

    Abraços e muita admiração pelo teu zeloso trabalho.

  11. Jorge e Tiao disse:

    O delegado das mordomias, o ilha gourmet, vai enfrentar a CPI das delações com os irmãos. Vai conseguir outro HC para não falar? Agora num da hihihi. Só chororô.

  12. João sabe tudo disse:

    Esse casal me lembra o Brad e a Jolie. Lindos, altos e simpáticos!!! Orgulhos dos papais, adorados pelos colegas!!!kkkkk…a tempestade nem começou a se formar ainda crianças!!!! Aí vai uma fofoca: a remoção do Moscardi foi indeferida!!!! Q pena!!!

  13. Meganha bem informado disse:

    Que cara de pau. Quer saber de fontes? Conheço um delegado de Curitiba que tem diversos registros de jornalistas abastecidos por mauat na época áurea da lavajato.

    Sem querer ligavam pro ramal dele para falar com o cara da pau. Ele anotava tudinho… nome, veículo de imprensa, número, horário…

    Mauat, antes do ostracismo, cansou de passar informações para a mídia mainstream. Agora banca o pudico.

  14. João sabe tudo disse:

    Delegada Érika de testemunha de Mauat? Não pode…ela tem uma relação muito íntima com ele para ser testemunha…foi namorada dele…chegaram a morar juntos…certo no dia dos namorados a Delegada Érika comprou um relógio para dar para o Maut em comemoração ao dia festivo… A delegada no dia especial entregou o belo presente a Mauat. Infelizmente Mauat não havia comprado nada para a Delegada Érika, para celebrar o dia dos apaixonados. Teve uma ideia fabulosa: recebeu o relógio da amada . Passo seguinte ele devolveu o objeto ao seu grande amor e disse: volta onde vc comprou e troque por algo para vc. Esse é meu presente. O amor não durou muito!!! Tenho umas 10 testemunhas dessa historia. A delegada Érika não tem o compromisso de dizer a verdade!!! Apenas atuará como informante!

    • Mitoaut disse:

      Tudo isso referente ao relogio me faz ver que Doutor Mauat sabe muito bem pegar os limões e fazer uma boa limonada. É um delegado perspicaz e altamente comprometido. Pena que nao gerou prole com sua amada, pois dai teriamos uma raça de super heróis entre nozes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *