Marcelo Auler

“A Beija Flor não tem nada para ensinar”

Duas ou três palavras sobre pobreza, corrupção e a Beija Flor (*)

Vanessa Cavalieri Félix (**)

Trabalhei em Nilópolis durante cinco anos. Fui titular de uma vara que tinha competência, entre outras, para julgar ações contra o município. Também fui juíza eleitoral e fiz três eleições na cidade. Era responsável pelo registro das candidaturas, ou seja, por barrar os candidatos “ficha suja” (como se sobrasse alguém…)

Logo na entrada da cidade, depois da estação de Ricardo de Albuquerque, tem um portal com um beija-flor prateado de uns cinco metros de altura, que é para não deixar dúvidas sobre quem manda ali.

Na primeira semana, minha secretária perguntou aos funcionários nilopolitanos se tinha perigo andar a pé pelo centro da cidade. Naquela época, pré UPPs, não tinha. “Aqui é muito tranquilo. Mês passado andaram acontecendo umas saidinhas de banco, mas depois apareceram cinco garotos executados na porta da agência do Bradesco e as saidinhas acabaram”. Era assim, bolsonaramente, que se resolviam os problemas de segurança pública na cidade.

Já nos outros serviços públicos essenciais não se via tanta eficiência.

Era assim, bolsonaramente, que se resolviam os problemas de segurança pública na cidade“. (Foto do desfile da Beija Flor, 2018 – extraída do site da Escola)

Diariamente eu deferia liminares determinando que o município fornecesse remédios a doentes crônicos, ou que internasse pacientes graves. Mas lá, para o secretário de saúde, a decisão judicial era uma mera sugestão, geralmente não acolhida.

Perdi a conta de quantos atestados de óbito a defensora pública juntou aos processos. Perdi a conta de quantos bebês nasceram com paralisia cerebral por anoxia de parto, adiado ad infinitum pela equipe médica de plantão que não tinha condições de atender tanta gente.

Culpa dos políticos?

Além do envolvimento com o jogo do bicho, com a escola de samba, com a milícia, a família Abrahão Davi se reveza na política da cidade há décadas. São prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais. Até um senador da república esse minúsculo e paupérrimo município da Baixada Fluminense conseguiu eleger.

Além do envolvimento com o jogo do bicho, com a escola de samba, com a milícia, a família Abrahão Davi se reveza na política da cidade há décadas” (Foto, governador Moreira Franco recebendo a cúpula do Jogo do Bicho no Palácio Guanabara – copiado do Conversa Afiada – Arquivo Jornal do Brasil)

De todas as atrocidades que eu tomei conhecimento nesses cinco anos lá, duas coisas me impressionaram demais.

O caso de uma menina de 9 anos, que era tão negligenciada, tão miserável, tão invisível, que nunca na vida teve uma boneca. E aceitou ser estuprada por três homens de mais de sessenta anos, em troca da primeira boneca, que ela escolheu nas Lojas Americanas, com os olhos brilhando.

E o choque que eu tomei quando a Polícia Federal apreendeu mais de um milhão de dólares e euros em espécie, no bunker do bicheiro Anísio Abrahão Davi, lá mesmo naquela cidade. Lembro de ir trabalhar nesse dia, vendo as crianças nas ruas brincando nas vielas de esgoto, a caminho do fórum, sem acreditar no tesouro escondido naquele lugar.

E, por fim, o dia mais deprimente do ano era a quinta feira seguinte ao Carnaval. Ver todas aquelas pessoas, que sofriam com o descaso do Estado o ano inteiro, sorrindo, cansadas, de ressaca, os restos de fantasias, plumas e paetês pelas ruas, entorpecidas com pão e circo, porque a escola tinha, de novo, sido campeã, garantindo assim mais uma eleição para a família que se perpetuou no poder.

“Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!
Você que não soube cuidar
Você que negou o amor
Vem aprender na Beija-Flor”.

Sinto muito estragar a festa. A Beija Flor de Nilópolis não tem nada para ensinar.

(*) O Artigo acima foi publicado originalmente no Facebook da juíza que autorizou sua reprodução no Blog.

 

(**) Vanessa Cavalieri Félix – juíza de direito há 13 anos, há 2 anos é titular da Vara da Infância e Juventude da Capital, de competência infracional.  Entre 2007 e 2012 esteve à frente da 2ª Vara Cível da Comarca de Nilópolis onde também respondeu pela 201ª Zona Eleitoral. também foi juíza titular da 1ª Vara Criminal de Nova Friburgo.

 

 

 

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