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Na entrevista à Folha, Rucpero fez observações sobre o governo golpista que foram sentidas de imediato.

Arnaldo César (*)

Na entrevista à Folha, Rucpero fez observações sobre o governo golpista que foram sentidas de imediato.

Na entrevista à Folha, Ricupero fez observações sobre o governo golpista que foram sentidas de imediato.

A “Folha de S.Paulo”, na última terça-feira (dia 26/09), traz uma interessante entrevista de página inteira com o ex-ministro e embaixador Rubens Ricupero. O texto é assinado pela repórter Patrícia Campos Mello. Aos 80 anos de idade o competente diplomata fala sobre o livro que está lançando “A diplomacia na Construção do Brasil -1750/2016” e faz comentários sobre Lula e Dilma e aproveita para zombar do impostor Michel Temer.

Com a autoridade de quem ocupou os maiores cargos da diplomacia brasileira (inclusive a embaixada em Washington) e foi ministro do Meio Ambiente e da Fazenda do governo Itamar Franco, o arguto Ricupero observou que “nenhum chefe de estado quer sair na foto” ao lado do golpista Temer. Aponta Dilma como a pior presidente que o País já teve em termos de relações internacionais e não esconde a sua admiração por Lula. Enxerga no ex-presidente petista um diplomata nato.

Não tardou para o governo passar recibo. O fez, de certa forma, dando razão ao diplomata aposentado, ainda que por via inversa. Ao divulgar nota criticando-o na tarde de terça-feira  (26/09), o governo usurpador mostrou a sua total falta de diplomacia. Precisou enumerar alguns encontros de Temer com autoridades estrangeiras – que ocorreram mais por questões protocolares do que por espontaneidade – na tentativa de desacreditar as observações de quem acumulou experiências na diplomacia brasileira.

Independente de suas posições ideológicas, Ricupero continua sendo um alento num País marcado pela polarização das ideias e pela estupidez produzida por toda a sorte de radicalismos. Lembra-nos que, num passado não muito distante, tivemos um presidente que falava de igual para igual com os principais líderes mundiais.

Ricupero comparou Lula a Mandela, o ex-presidente da África do Sul. Ambos por serem bem sucedidos em suas respectivas nações eram disputados para aparecerem ao lado daqueles que, realmente, decidem sobre os desígnios do mundo. Fica mais que evidente, nesta entrevista que, no entender do velho embaixador, o Brasil e a nossa diplomacia perderam, nos últimos tempos, a estatura e a credibilidade que sempre desfrutaram nas relações internacionais.

Entre os muitos serviços prestados à diplomacia brasileira, Rubens Ricupero também foi secretário-geral-da-Conferência-das-Nações-Unidas-para-o-Comércio-e-o-Desenvolvimento-Unctad (FOTO: Arquivo EBC)

Entre os muitos serviços prestados à diplomacia brasileira, Rubens Ricupero também foi secretário-geral-da-Conferência-das-Nações-Unidas-para-o-Comércio-e-o-Desenvolvimento-Unctad (FOTO: Arquivo EBC)

Ricupero, ao lado de figuras como Ítalo Zappa (para citar um embaixador com uma visão política de esquerda), ajudou a construir um conceito que o Itamaraty jamais perdeu, nem mesmo nos momentos mais nebulosos da ditadura militar. O Brasil sempre foi visto, internacionalmente, como uma nação conciliadora.

Infelizmente, até isso os golpistas conseguiram destroçar. Nunca os diplomatas brasileiros permitiram em tempo algum, que um presidente brasileiro ocupasse a tribuna nas Nações Unidas para mentir descaradamente como o usurpador Temer fez, recentemente, quando falou sobre preservação da Amazônia, no plenário daquela Casa, em Nova Iorque.

Em meados de 1992, o autor deste texto foi escalado pela revista Veja para acompanhar Ricupero, na ECO-92. Foi considerada a mais bem sucedida cúpula de chefe de estados já realizada no mundo. Cento e setenta e oito países se fizeram representar e mais de cem deles tiveram suas delegações chefiadas por seus próprios presidentes, reis, sheiks ou primeiros-ministros.

Foi na ECO-92 que surgiu o conceito de sustentabilidade (no qual a economia pode se desenvolver em plena harmonia com as pessoas e a natureza). Ricupero coordenou as negociações em torno de um documento no qual os países mais ricos concordavam em destinar 0,7% de seus PIBs para a limpeza do planeta.

Tratava-se de um texto de 2 mil palavras debatido por 50 representantes de 22 países. Conseguir a concordância de todos parecia uma missão impossível. Ricupero colocou-os dentro de uma sala e por 18 horas seguidas debateram cada letra, cada ponto, daquele documento.

Ao final, as mangas da camisa do embaixador brasileiro estavam ensopadas de sangue. Para dar ênfase aos seus argumentos, ele esfregava os cotovelos na mesa. Deixou-os em carne viva. O documento foi aprovado às quatro horas da manhã. Em tempo de ser assinado pelos chefes de estado presentes, antes de retornarem aos seus países.

Mesmo carregado de nostalgias, não podemos nos esquecer de episódios dignificantes como este. Essa “quadrilha” encastelada no Planalto passará. 2018 é logo ali.

(*) Arnaldo César Ricci é jornalista e colaborador do Blog.

5 Comentários

  1. Antônio José - Vermelho disse:

    Que belo artigo do Arnaldo!
    Pena que hoje, neste país, as pessoas do quilate de Recúpero são simplesmente ignorados pelos quadrilheiros que tomaram o poder.
    Mas o amanhã irá chegar breve!

  2. C.Poivre disse:

    Relações promíscuas escancaradas entre banco e ministro da “suprema corte” só poderia ser mesmo no Brasil e o “ministro”(sic) só aquele de codinome ‘Beiçola’:

    https://www.buzzfeed.com/filipecoutinho/exclusivo-bradesco-deu-desconto-milionario-em-emprestimo-a?origin=shp&utm_term=.gg389bGgY#.aj7YP02VA

  3. C.Poivre disse:

    O que menos os nossos “líderes” nacionais menos precisam fazer é dar declarações públicas sobre questões que não dizem respeito à maior urgência da nação: a redemocratização imediata sucedida por um referendo revogatório para anular TODAS as medidas do “governo” ilegítimo de MT e sua quadrilha.
    O que mais precisamos de nossos desmobilizados “líderes”: sentar ao redor de uma mesa (do centro democrático e progressista à Esquerda), chegar a um consenso sobre uma agenda mínima de resistência popular e UNIFICADAMENTE convocar o povo às ruas. A resistência ao golpe de Estado não pode ficar toda nas costas do ex-Presidente Lula.

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