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Marcelo Auler

Neste domingo (31/12), véspera do Dia Mundial da Paz – 1º de Janeiro -, recebo da minha amiga Liège Galvão Quintão, companheira eterna do falecido colega Fritz Utzeri, uma mensagem comovente, que imediatamente decidi repassar pelo Blog. Encampo a homenagem que ela faz.

Rememora e reverencia – como todos deveríamos fazer – a um dos Heróis mais importantes que este país teve e que nunca recebeu as honras à altura do gesto que o levou ao ostracismo pela ditadura civil-militar que se impôs ao país de 1964 a 1985 e ao reconhecimento por quem sempre defendeu a democracia.

Em uma época de falsos heróis, forjados pela mídia, em cima de duvidosos moralismos, vale a pena lembrarmos de Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, mais conhecido como Sérgio Macaco. Como lembra Liège, que juntamente com Fritz  teve em Sérgio Macaco mais do que um amigo, ele “teve coragem de colocar o respeito à humanidade acima da hierarquia militar”. Istofará 50 anos em junho de 2018.

Não fosse o gesto heroico dele no duro e sofrido ano de 1968, o país poderia ser outro. Talvez bem pior. Sem contar que milhares de pessoas teriam morrido e outras tantas sofridas consequências impensáveis. Abaixo, o texto de Liège, que endosso plenamente, e parabenizo-a pela lembrança.

Sérgio Macaco: “o respeito à humanidade acima da hierarquia militar”

Liège Galvão Quintão

Sérgio Macaco e o Gasômetro: foto extraída do Itacir-brassiani.blogspot

Capitão Sergio Macaco, o paraquedista que salvou mais de 10 mil vidas que seriam destruídas pela ditadura militar do Brasil. Este capitão da Aeronáutica teve o discernimento, a sensibilidade e a coragem de colocar o respeito à humanidade acima da hierarquia militar.

Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho era militar de carreira da Aeronáutica, com o posto de Capitão em 1968 e era chamado de Capitão Sergio Macaco, sem que esta alcunha o desagradasse. Na época, comandava o Para-Sar, batalhão de elite de paraquedistas da Aeronáutica, especializado em resgate e salvamento. Era considerado um dos mais obstinados e admirados oficiais da Força.

Certo dia, foi chamado pelo Brigadeiro João Paulo Burnier, então Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica, Marcio de Souza e Mello, durante o governo Costa e Silva. O Brigadeiro Burnier planejava a ação típica de guerrilha de explosão do Gasômetro para ser atribuída a militantes de esquerda e, com isso, a sociedade aceitar o endurecimento da ditadura.

No Gasômetro, era produzido o gás que era injetado na rede de gás canalizado da cidade. Na época, havia a necessidade de estocagem deste gás que, com o uso crescente do gás natural, ela diminuiu.

Pelo nível da estocagem, admitindo-se que seria uma explosão planejada para causar o máximo dano e considerando o número provável de pessoas que estariam na região, estimou-se que ocorreriam dezenas de milhares de óbitos.

Quando o Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho recebeu a ordem de explodir o Gasômetro, mesmo estando consciente da repercussão que a negativa a esta ordem representaria, ou seja, ele colocaria no lixo a sua carreira, até então brilhante na Aeronáutica, respondeu que não atenderia a ordem.

Foi uma opção consciente, pois preferiu não ser o assassino de um número expressivo de pessoas, abrindo mão de algo extremamente valioso para ele, a continuidade da sua carreira.

Ao saber do ocorrido, o Brigadeiro Eduardo Gomes apoiou o Capitão Sérgio Macaco. No entanto, o apoio pouco adiantou, pois a história do Capitão foi negada pela Aeronáutica, que buscou caracterizá-lo como um insubordinado. O herói acabou sendo reformado pelo AI-5, em 1969, perdendo a patente e o meio de vida.

Depois de penosa tramitação pela Justiça, em 1992, o Supremo Tribunal Federal reconheceu os direitos do Capitão, estabelecendo que ele deveria ser promovido a Brigadeiro, posto que teria alcançado se tivesse permanecido na ativa.

O então ministro da Aeronáutica, o Brigadeiro Lélio Lobo, ignorou a decisão da corte, sendo o STF obrigado a mandar um ofício exigindo o cumprimento da lei.

O Brigadeiro Lobo novamente se recusou a cumprir, transferindo o problema para o Presidente da República, à época Itamar Franco, que por sua vez protelou a decisão até que o Capitão Sérgio Macaco morreu de câncer em 1994, sem ver sua reintegração à Aeronáutica e a simultânea promoção a que tinha direito.

Excetuando políticos, que, com suas decisões econômicas e sociais, podem postergar ou antecipar a morte de milhões de brasileiros, o Capitão Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho foi o cidadão que mais salvou vidas no Brasil.

Se você vivia ou transitava pelo Rio de Janeiro em junho de 1968, deve agradecer ao Capitão Sergio Macaco por ter, talvez, salvado a sua vida e, como consequência, as de seus descendentes ainda não nascidos.

Aos leitores, seguidores e incentivadores:

O difícil ano de 2017 acabou servindo para nos fortalecer a todos.

Fortalecidos, continuemos juntos em 2018 em prol da Justiça, do Bem Estar de Todos, da Fraternidade e do Respeito mútuo. Respeito, acima de tudo e principalmente, à Democracia.

Tenha um Ano Novo de muitas alegrias, saúde e grandes realizações.

7 Comentários

  1. Benedito disse:

    Parabéns, Marcelo Auler, a você e sua amiga Liege por esse texto sobre uma opção corajosa, no contexto da ditadura, feita por um militar, pondo em risco sua carreira e, quem sabe, sua própria vida para evitar que milhares de pessoas morressem para a culpa recair sobre quem lutava contra a ditadura.
    E a farsa destruiu sua carreira mas sua humanidade prevaleceu.Isso é ser herói a ser reverenciado. Essa história devia ser contada nas escolas.

  2. Nilson Moura Messias disse:

    O ato do brigadeiro Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, é conhecido pelos o que conhecem a história. E, jamais deverá ser esquecido. Viva Sérgio Macaco!

  3. João de Paiva disse:

    pelo que se vê faltam hoje nas FFAA pessoas com a coragem e dignidade demonstradas por Sérgio Macaco. Se houvesse, se negariam a cumprir ordens de um governo ilegítimo e golpista como aquele que derrubou joão Goulart em 1964. O atual governo golpista, formado pelas piores quadrilhas da política e sustentado pelas piores quadrilhas que infestam o sistema judiciário, cooptado pelo alto comando do golpe – que fica nos EUA – deveria ser desacatado por militares que demonstrem algum patriotismo e nacionalismo.

    Se nas FFAA houvesse pessoas com a coragem e dignidade do capitão Sérgio Macaco, bandidos como Pedro Parente, integrantes da ORCRIM Fraude a Jato e outras do sistemas judiciário e político, assim como todo o séquito de criminosos que compõem o governo golpista já estariam presos.

  4. Dilma Coelho disse:

    Obrigada Marcelo Auler, por todo o seu trabalho sério e por essa grande lembrança.
    Conheci o Sérgio, apenas o cumprimentei, durante um pequeno churrasco, que fizeram, e fiz questão de comparecer, para homenageá-lo. Ele é um dos meus, inesquecíveis, heróis.
    Muito, muito, muito obrigada por tudo.
    Um 2018 de paz, de equilíbrio.
    Um grande e carinhoso abraço.

  5. Arsen Salibian disse:

    Um herói. ..Brizola o admirava, pois conhecia bem a história. Lula perdeu a chance de homenageá-lo com o nome de uma refinaria ou mesmo alguma obra importante.

  6. GERALDO JOAQUIM TELLES DE SOUZA disse:

    Auler, um FELIZ 2018 para você e sua família !
    A luta continua, e promete ser mais árdua !
    Um abraço,

    Geraldo.

  7. Marcos disse:

    Capitão Sérgip,um brasileiro de verdade, um herói esquecido. Um exemplo de humanidade .
    Auler, esta feliz lembrança nos traz um pouco de alento neste tempo triste, de exceção, o qual estamos passando !

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