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Três ex-governadores se encontram na prisão, depois de terem se tornado desafetos. Qual nossa responsabilidade nisso?

Rogério Marques (*)

Três ex-governadores se encontram na prisão, depois de terem se tornado desafetos. Qual nossa responsabilidade nisso?

Você acredita mesmo que um estado pode ter três ex-governadores na cadeia, além de outros políticos eleitos, sem nenhuma conivência ou ao menos leniência da população? Sem que isso seja, de alguma forma, reflexo de um comportamento geral? Eu não creio.

Estou falando do caso do Rio, mas no Brasil inteiro a situação não é nada diferente. Leio agora no “Estado de Minas“: “Mais da metade dos estados brasileiros foi governada por políticos hoje citados em esquemas de corrupção ou caixa 2 nas delações premiadas da Lava Jato.

E isso não é de hoje. A expressão “rouba mas faz” foi patenteada na década de 50 do século passado em São Paulo, pelos cabos eleitorais do governador Ademar de Barros, que tentavam assim defendê-lo das acusações dos adversários. Depois vieram Paulo Maluf e tantos outros.

E o Nordeste? Em Alagoas, Maranhão, Rio Grande do Norte, Bahia temos clãs onde esquemas escancarados de corrupção passam de pais para filhos desde o país foi inaugurado.

Brasília, com os golpistas que se apossaram do poder, hoje tornou-se a sede do escritório do crime organizado.

Sim, é preciso prender todos os políticos corruptos. Mas insisto: se o Brasil não mudar práticas seculares de corrupções vistas como normais nada vai ser diferente.

A política partidária, dos parlamentos, é reflexo da política das ruas, das empresas, dos bares e dos lares de todos nós.

Eu sempre digo que os políticos não se tornam corruptos quando são eleitos. Eles apenas passam a ter mais oportunidades de “ganhos” quando chegam “lá em cima”.

Todo mundo que incorre nessas práticas, políticos ou não, tem sempre uma ótima justificativa.

Recorrer a cambista é “prática” considerada normal pela população, mesmo ignorando-se a origem do ingresso (Charge de Carlos Latuf, originalmente publicada em Brasil 247)

Se eu não der um “por fora” aos PMs vou ter que fechar as portas, diz o dono do bar.

Se eu não negociar a consulta sem recibo os impostos acabam comigo, dizem dentistas, médicos, advogados. E muitos clientes preferem pagar menos sem ter o recibo.

Se eu não registrar no cartório o preço do imóvel abaixo do valor real eu vou pagar mais imposto ao governo à toa, alegam compradores e vendedores na hora de escriturar o apartamento.

Se não recorrer a um “cambista” perco o show que desejo muito assistir.

É assim que o Brasil funciona há séculos.

Empresários contratam como pessoas jurídicas empregados que na verdade são pessoas físicas, para pagar menos impostos. Ou pagam “pedágios” na alfândega para que equipamentos importados sejam liberados sem burocracia.

Muitos jornalistas e radialistas, em períodos de campanha eleitoral, fazem campanha para candidatos mesmo sabendo que estão sendo pagos com dinheiro de caixa 2. Mais tarde, quando a bomba estoura, como agora, noticiam o assunto apontando a corrupção dos políticos que eles ajudaram a eleger com o próprio trabalho.

Essas práticas acabaram contaminando todas as classes sociais.

Há quantas décadas ouvimos falar que as milícias levaram segurança a essa ou aquela comunidade antes dominada pelo tráfico? Que a rua onde eu moro é muito tranquila porque lá funciona um ponto do jogo do bicho e bandido ali não se cria?

Foto: reprodução da internet

Quantos dizem, ou não dizem mas pensam, que bandido bom é bandido morto? E que esse pessoal dos direitos humanos só serve pra encher o saco?

E a promiscuidade dos chefões do jogo do bicho do Rio com as escolas de samba, com a polícia, com órgãos da mídia?

Repito: ninguém chega a esse grau de degradação política sem conivência ou leniência do povo. O apodrecimento vem de longe.

As pessoas que votam em candidatos sabidamente bandidos, que defendem abertamente o atropelo das leis já em suas campanhas, fazem isso por acreditar que vão levar alguma vantagem com esse tipo de voto.

É como quem cai no conto do vigário por achar que vai ganhar um bom dinheiro sem fazer muito esforço.

Existem, sim, não é de hoje, bravas tentativas individuais e coletivas de mudar esta situação, de virar esse jogo. Mas é preciso que cresçam, se multipliquem, que virem uma onda e um tsunami.

Ou mudamos radicalmente esses comportamentos seculares, com autocrítica dos adultos e educação das crianças, ou seremos eternamente o país em que um simples ato de honestidade vira notícia de jornal ou dos programas de televisão nos fins de semana.

(*) Texto publicado originalmente no Facebook do jornalista Rogério Marques.

5 Comentários

  1. lando carlos disse:

    EM SÃO PAULO NADA MUDARÁ O ELEITOR PAULISTA E BICHINHO DE ESTIMAÇÃO DE POLITICO LADRÃO,JÁ NO RIO A UMA INJUSTIÇA AI GAROTINHO,E ROSINHA E CONDENADO DA REDE GLOBO A QUADRILHA MAIS PODEROSA DA AMERICA LATINA ALI KAMEL E OS IRMÃOS MARINHO,AS OUTRAS QUADRILHA APENAS SEGUEM ORDEM.

  2. C.Poivre disse:

    A corrupção no Brasil faz parte do nosso dia-a-dia sob o apelido de “jeitinho brasileiro”. Mas não é esse nosso principal problema e sim a perversa desigualdade sócio-econômica, a concentração de renda nas mãos de poucos, o desemprego gigantesco, a democracia derrubada pelo golpe de 2016, corruptos e homicidas protegidos por uma imunidade criminosa, o monopólio midiático do pensamento único, a dominação estadunidense sendo reabilitada pelos golpistas, uma ORCRIM como a Farsa a Jato sob a proteção e incentivo da plutocracia praticando crimes diuturnamente com fins de perseguição política sob encomenda do Deptº de Estado dos EUA, o desinvestimento na Ciência&Tecnologia, Educação, Saúde e nos programas sociais, a ditadura midiático-judicial vigente, a intimidação dos que atuam dentro da lei no sistema judicial, a compra de parlamentares para votar a favor do desgoverno golpista que tomou de assalto o Palácio do Planalto e lá se mantém subornando a todos como recursos públicos, etc. etc.

  3. Douglas disse:

    Gostei muito do artigo! Parabéns…Pois é, nada do que assistimos hoje no país veio de Marte!
    Somente não concordo com dizer no artigo que “Brasília é hoje a sede do escritório do crime organizado.”, como se essa fosse a vocação desta cidade; ou por causa daqueles que aqui vieram, para ajudar ergue-la da poeira vermelha, ou ainda dos que -aqui nacidos- quem são cidadões honrados e trabalhadores não melhores nem piores brasileiros do que os nascidos em outros rincões do Brasil!
    Pelo contrário, os brazilienses (nascidos aqui ou que para cá vieram acreditando num Brasil melhor) somos obrigados a conviver com os “dejetos” políticos e outros ilegítimos ocupantes de cargos públicos por indicações espúrias, originados de outras cidades e estados da federação! Má sorte nossa…

    • Marcelo Auler disse:

      Prezado Douglas. Bom dia. Eu e o Rogério Marques agradecemos seu comentário e o entendemos bastante pertinente com relação à citação de Brasília. A partir disso, ele mesmo fez um acréscimo no texto para que a frase ficasse dentro do contexto que ele desejava, desde o início, exprimir. Ou seja, a questão não são os moradores de Brasília, mas aqueles que se apoderaram, com o golpe, do Poder em Brasília. Confira a mudança na postagem. Obrigado pelo comentário e observação. Atenciosamente, Rogério e Marcelo

      • Doug Evangelista disse:

        Bom dia Marcelo! Agradeço a voce e o Rogério, pela consideração ao meu comentário, e principalmente por se darem ao trabalho de retificar o sentido que queriam dar ao mencionar Brasilia. Creio representar muitos dos moradores de Brasilia, que ao viajar por todo o Brasil, recebe este tipo de comentários negativos a cidade… o que nos causa espécie. Mas estou seguro que a intenção do articulista nunca foi esta! Abraços e obrigado também por teu gentil email.

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