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Marcelo Auler – (Texto Reeditado às 17H50*)

henfil-29-anos

Ilustração feita em cima de uma postagem que Ivan Consenza Souza filho de Henfil, montou pela passagem dos 25 anos do falecimento do pai).

Na quarta-feira (04/01) completaram-se 29 anos da perda de um dos mais cruéis e criativos, na versão do colega dele Ziraldo, cartunistas que o país conheceu. Vítima de Aids, contraída pela irresponsabilidade pública através de uma das muitas transfusões de sangue que recebeu por ser hemofílico – assim como seus irmãos, Betinho e Chico Mário – Henfil morreu novo, aos 44 anos. Mas, Henrique de Souza Filho, nos seus 27 anos de carreira fez um considerável “estrago”, deixando sua marca registrada no humorismo brasileiro. Sofreu com a repressão por conta do seu humor marcante:

Não poupou a ditadura militar, nunca fez concessões ao conservadorismo, jamais deu bola ao moralismo“, lembrou na data de sua morte o jornalista Alceste Pinheiro, em sua página do Face Book, de onde tirei parte do texto que segue abaixo.

Ele fez parte de uma geração de mineiros que, como seu irmão Herbert Souza, o Betinho – cuja popularidade cresceu inicialmente pelo fato de ser o “irmão do Henfil” eternizado na voz de Elis Regina, na música “O Bêbado e a Equilibrista“, de Aldir Blanc e João Bosco – militou politicamente contra o golpe militar de 1964, cada qual a seu modo. Ele, nos traços marcantes de personagens como Graúna, Bode Orelana, Capitão Zeferino, além dos impagáveis Fradinhos, que consta ter sido uma homenagem aos Frades Dominicanos de Minas Gerais, em especial Frei Mateus Rocha, que ajudou na formação desta “tribo mineira” através da Juventude Estudantil Católica (JEC) e Juventude Universitária Católica (JUC). Desta mesma turma fez parte também Carlos Alberto Libânio Christo, o escritor Frei Betto, de quem fomos buscar um depoimento de como reagiria o Henfil na atual situação política do país. Seu depoimento:

Os novos personagens

Frei Betto

Henfil e Ubaldo, o paranóico, na época dura da repressão política.

Henfil e Ubaldo, O Paranóico, na época dura da repressão política.

E se o Henfil vivesse hoje? Com certeza criaria novos personagens, como o Lavador, para acentuar o foco antipetista da Lava Jato; Temeroso, o Breve, para enfatizar esse governo golpista que impõe um ajuste fiscal que penaliza ainda mais os pobres e protege os privilégios da elite; The Trumpete, para nos ajudar a analisar melhor o governo Trump; e outros tantos que figurariam ao lado dos Fradinhos, da Graúna etc.

Betto, na sua análise sobre aquele que foi seu amigo pessoal desde Minas, ainda acrescenta:

Henfil faz muita falta nesse momento em que o humor cede lugar ao ódio e ao ressentimento, e a crítica vira ofensa.

Em plena ditadura, Henfil não perdeu a verve humorística e soube fazer das “Cartas à Mãe” um verdadeiro manifesto pelas liberdades democráticas. Talvez hoje ele escreveria “Cartas ao Papa”, já que Francisco é a única liderança mundial lúcida, íntegra e corajosa que desponta no horizonte de nossas esperanças”.

Também os irmãos Ziraldo e Zélio Alves Pintos, mineiros e humoristas, que com Henfil trabalharam em O Pasquim, um semanário de humor que deu trabalho à censura e não largava o pé dos governos militares, falaram sobre como ele seria hoje, nessa nossa conjuntura política, que nem mesmo os melhores humoristas juntos conseguiriam criar. Abaixo os três textos de Alceste Pinheiro, Ziraldo e Zélio:

Para não esquecer

Alceste Pinheiro

Henfil e o povo ilegal

Henfil e o povo ilegal

Em 4 de janeiro de 1988, a um mês de completar 44 anos, morria um dos grandes artistas da minha geração, que os de hoje conhecem pouco. Refiro-me a Henrique de Souza Filho, que aprendemos a admirar como Henfil desde que, em 1969, começou a colaborar com O Pasquim, um dos grandes empreendimentos da história do jornalismo brasileiro.

Henfil não poupou a ditadura militar, nunca fez concessões ao conservadorismo, jamais deu bola ao moralismo. Ao contrário.

Em seus traços dinâmicos encontrávamos alento e crítica, sempre em tom de ironia. Ríamos muito com Henfil, ligado desde cedo aos movimentos sociais e um dos fundadores do PT, aquele Partido dos Trabalhadores que por tanto tempo acalentou nossos sonhos e esperanças.

Morreu dizimado pela aids, que adquirira em uma transfusão de sangue. Era uma época em que hemofílicos, como ele, tornaram-se vítimas da doença, que também matou seus irmãos, o músico Chico Mário e o sociólogo Betinho, aquele que, em peça magistral da MPB, Aldir Blanc e João Bosco esperavam a volta.

O guerreiro sem substituto

Ziraldo

Marcelo, já tem 29 anos que o Henfil morreu? PQP. Quando eu o conheci ele tinha 17 anos (Henfil hoje estaria às vésperas de completar 73 anos). Era o Henriquinho da imprensa mineira da época..

A Graúna, do Henfil

A Graúna, do Henfil

Ele foi um guerreiro. O jornalismo de resistência no Brasil perdeu um guerreiro que historicamente não foi substituído até hoje. Aquilo é que era ser guerreiro.

Eu acho que ele continuaria super respeitado como um dos mais importantes críticos da caricatura brasileira. Ele, hoje, estaria deitando e rolando com a sua crueldade criativa nesse nosso atual panorama político.

Estaria, realmente, muito abalado, muito ferido com esta situação, mas ia continuar lutando com a mesma coragem de sempre. Estamos precisando de um humorista deste tipo.

Ele teria o respeito de todo mundo como um artista da maior importância para o Brasil. Mas, o panorama geral do país, em função dele somente, não iria ser alterado. Uma andorinha só não faz verão.

Mas, ele sabia, como eu sei, que a gente tem que cumprir o destino da gente. Lutar como se achasse que mesmo sozinho ganharia a guerra.

Mas, repara que a nossa categoria foi esmagada… Não temos espaço na imprensa para dar vazão ao nosso protesto. Eu vou lhe dizer algo surpreendente. Hoje, ainda, uma charge publicada em um jornal é mais arrasadora do que cinquenta publicadas na internet.

Saiba você que tem um monte de excelentes caricaturistas publicando seus protestos na internet e nem os mais atentos têm conhecimento do trabalho dele. Mas se imprimir uma charge forte em um jornal o resultado é imediato.

henfil_graunaO que tem de humor criativo, gozando, por exemplo, a figura do Temer, é uma infinidade de caricaturas.Mas, uma charge do meu tempo abalava muito mais um político daquela época do que tudo o que a internet publica atualmente.

A situação hoje poderia ser diferente, com todo mundo esperando a charge do antigo JB para ver como seria… Hoje não tem ninguém esperando charge nenhuma. Não tem ninguém usando o espaço da imprensa para protestar.

Você vê que não tem nada mais indignado na cultura brasileira, com a importância que se tinha. Mudou tudo.

Acho que a gente não tem como responder como seria o Henfil hoje. É muito difícil saber. Só sei que não podemos é desistir. Ele não desistiria.

Ele tinha o vício do calcanhar!

Zélio Alves Pinto

Henfil e a crítica à distribuição de renda

Henfil e a crítica à distribuição de renda

O Henfil, hoje, seria muito interessante. Não só o instrumental (computador/rede social) seria interessante para ele, como ele para esse instrumental. Porque, ele, com uma ferramenta desta, com a criatividade dele,  PQP.

Ele era um produtor ágil, ele produzia rapidamente. A cabeça dele estava permanentemente disparada. As mãos não conseguiam chegar junto com a cabeça dele. Se você o dotasse dos recursos que a informática dispôs para o artista, o Henfil iria deitar e rolar.

Com este instrumental, a exposição da opinião dele seria multiplicada milhões de vezes e obviamente com grande repercussão.

Ele tinha percepção. Ele não era um grande desenhista, mas ele era um grande chargista, Eu sempre o achei melhor chargista, porque ele tinha o vício do calcanhar. Ele mordia no calcanhar, sistematicamente. Ele sabia onde estava o calcanhar. Então, ele pegava a coisa de jeito.

Hnefil e o radicalismo

Hnefil e o radicalismo

Inclusive, essa era uma das justificativas pelas quais ele sofreu tanto tipo de repressão. Ele e os irmãos dele. Porque ele tinha essa capacidade de ser ferino.

Ele era ferino. Quando queria, pá!, dava uma porrada.

Ninguém diria que ele era um jovem hemofílico deficitário fisicamente. Porque a porrada que ele dava intelectualmente era de uma tonelada.

Hoje, ele faria a diferença não apenas no trabalho dele, mas no contexto como um todo. Como a cabeça dele era abrangente, não era pontual… Quer dizer, pontual quando era o caso de ser pontual, porque ele era um tipo que desbravava circunstâncias.

Com toda aquela família que ele fez com a Graúna e com os Fradinhos, eram dois segmentos que ele atacava. Uma coisa e outra. O social e o político. Com grande habilidade, através dos personagens que ele fez. E com uma capacidade, com uma capilaridade com a sociedade, notável.

Embora ele fosse um cara sofisticado intelectualmente. Supostamente, era até um contrassenso ele ser popular. Mas era.

 

* Esclarecimento: Reeditei a matéria retirando uma citação errada que fiz ao afirmar que ” Vítima de Aids, contraída pela irresponsabilidade pública através de uma das muitas transfusões de sangue que recebeu por ser hemofílico – assim como seus irmãos, Betinho e Chico Mário – Henfil morreu novo, aos 44 anos“.

Como bem observou o professor Nilson Lage, em sua página no Face Book, não podemos falar em irresponsabilidade pública. Ele explicou:

“Um só reparo, à margem dessa justíssima homenagem e oportuna lembrança do aniversário da morte de Henfil: não há como culpar as autoridades da época pelo contágio do vírus da aids em transfusões de sangue, por ele, o irmão Betinho, e outras dezenas ou centenas de milhares de hemofílicos em todo o mundo.

A aids foi diagnosticada no final da década de 1970. Em 1984, o retrovírus que causa a doença foi isolado: uma das pesquisadoras do Instituto Pasteur de Paris, Françoise Barre-Sinoussi, conseguiu cultivá-lo em laboratório e enviou o material para o laboratório americano chefiado pelo Dr. Robert Gallo, para que este confirmasse o seu achado, por se tratar de um eminente cientista. Com base neste material, Gallo divulgou a descoberta como se fosse sua, vindo a retratar-se somente no início da década de 90.

O teste sorológico para identificação do vírus em transfusões de sangue só foi liberado em 1985, mas demorou alguns anos até que as disputas políticas e econômica viabilizaram sua utilização no mundo todo, Brasil inclusive.
Henfil faleceu em 1988, aos 43 anos”

Fica o meu pedido de desculpas aos leitores pelo erro e o agradecimento ao professor pela leitura atenta e observações necessárias.

7 Comentários

  1. […] nos tempos de hoje, embora da lavra do Henfil que já nos deixou há 29 anos, como recordei em: O “guerreiro” insubstituível. A atualidade da charge mostra com Henfil era realmente iluminado. A sacada de Sardá, demonstra o […]

  2. C.Poivre disse:

    Outro “guerreiro” que se foi pode ser visto no Netflix: “The Internet’s own boy: The history of Aaron Swartz”

    Contra ele foi usado o mesmíssimo “modus operandi” da Farsa a Jato que deve ter usado o caso de Aaron Swartz como modelo.

  3. Joao Luiz Pereira Tavares disse:

    Bom…,
    Portanto, visto que está agorinha chegando o amanhecer do 1º domingo de 2017, vamos vestir-nos, tomarmos o café da manhã — de preferência um capuccino –, e vamos trabalhar no PC para ter dias melhores, tendo sempre o capacete e a espada à mão.

    Os nossos inimigos já sabemos! São a picaretagem, a baranguice, a cafonice, o Kitsch, a breguice e a mentira publicitária das velhas e velhos de Mídias Sociais do Petismo.

    Embora, por outro lado, já tenham sido privados daquela imagem ilusória de invencibilidade que tinha sido criada por João Santana, e feito tanta gente tornar-se isentona e alienada, postando coisinhas infantis e oba-oba em sítios como o G+ e Facebook. E, daí, esquecendo totalmente de falar mal do PT.

    Todos esses bregas e essas bregas, que são categoricamente a favor das forças financeiras das trevas, vão continuar passivas e isentonas em 2017! Como se nem o ano 2016 tivesse acabado e passado. Afinal, sabemos, petistas têm Natal e reveillon ruins e antiquados. O ano 2016 foi o da vitória. Essas asseclas do Petismo estão longe de ser derrotadas. A baranguice é tal qual ERVA DANINHA, cresce a minuto. Portanto fiquem de OlhOs bem abertos!

    MAS, MESMO ASSIM, SERÁ UMA NOITE NÃO SOTURNA E SIM SOLAR E ALEGRE!

    O que queremos dizer é que a luta continua. Mas será uma luta mais alegre e mais solar, porque vemos divisões e dúvida no coração do inimigo, e vemos as primeiras luzes do sol, depois de uma longa noite de 13 anos de toda espécie de baranguice.

    ¿Por quê? ¿Por que dizemos que será uma luta mais alegre?

    Porque afinal a analfabeta política, de 50 milhões de votos, foi dado-lhe um ponta-pé na traseira pensante que ela leva sobre o pescoço, naquele glorioso ano de 2016.

    Por mais que possa parecer estranho e paradoxal, se milhões de brasileiros encontrarem mais coragem para se opor à máquina infernal que os aprisiona, a encontrarão também os milhões de cidadãos estadunidenses, que têm demonstrado que não querem mais ser soldadinhos de chumbo dispensáveis ou vacas leiteiras. Claro que estou a falar de gente pensante, e não de bregas, nem de universitárias de unidades decadentes do interior brasileiro e muito menos estou a debater a respeito de i-sen-to-nas.

    E, por mais estranho que pareça, mudando um pouco de assunto, um engraçado irlandês meio alemão que construiu um império hoteleiro, poderá, agora, jogar suas cartas no grande jogo. Digo lá nos Estados Unidos da América (país esse que nos permite está escrevendo nesse Newsletter nesse exato momento, o inventor da Internet).

    Não sabendo para que lado ele vai jogar exatamente, mas tendo em vista aqueles que tudo fizeram para impedir sua eleição, desejamos, desportivamente, poder apreciar a sua devida revanche! Dia 20 é a posse. Corajoso, que fala o que pensa, sem picaretagem fingida.

  4. Terezinha Costa disse:

    Henfil é insubstituível porque não aliviava pra ninguém. Nem pra si mesmo. Repare na frase da Graúna: “Ré ré ré! ?Tô morrendo mas tô dando o recado”. Como o próprio Henfil. Isso se chama coragem. A mesma que Betinho teve durante toda sua vida.. embora num estilo diferente. Quando avisou que “quem tem fome tem pressa”, ele enfrentou toda a esquerda, que achava que doar comida era populismo ou mera caridade. Abriu caminho para as políticas de redistribuição de renda. Sem Betinho não haveria Bolsa Família. E desconfio que sem Henfil não haveria “o irmão do Henfil”. Ou, pelo menos, teria sido muito mais difícil para Betinho se fazer ouvir ao voltar do exílio. Esses irmãos merecem estátua em praça pública, para que ninguém se esqueça.

  5. C.Poivre disse:

    “Os lobistas do massacre” (Leandro Fortes). Os interesses que estão por trás da privatização dos presídios. Não precisa acrescentar que todos foram a favor do golpe, pois este é o naipe típico dos golpistas:

    https://noticia-final.blogspot.com.br/2017/01/lobistas-do-massacre-por-leandro-fortes.html

  6. C.Poivre disse:

    A ÚNICA SAÍDA CONTRA O GOLPE QUE AS LIDERANÇAS POPULARES SE RECUSAM A ENXERGAR:

    https://caviaresquerda.blogspot.com.br/2017/01/o-golpe-sera-derrotado-nas-ruas-ou-nao.html

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