Maus-tratos na PF: como mulher e ex-presa, Dilma tem que cobrar

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Reprodução da página  do deputado Paulo Pimenta no Face BooK

Reprodução da página do deputado Paulo Pimenta no Face BooK

Marcelo Auler

Não existe motivo para duvidar de um deputado federal considerado sério, como é Paulo Pimenta (PT-RS) que foi barrado na superintendência do DPF em Brasília ao tentar verificar as condições em que se encontrava a presa Cristina Mautoni Marcondes Machado, 53 anos, recém operada e com dificuldade de locomoção. Pimenta não é apenas deputado federal, mas também presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDH). Trata-se de precedente inaceitável.
Reprodução da página  do deputado Paulo Pimenta no Face BooK

Tão grave quanto os fatos narrados – chantagem a um preso, prisão de uma mulher recém operada, instalações precárias que a submeteram e a proibição de um parlamentar ir vê-la -, porém, é o silêncio das autoridades de um governo de esquerda, que defende os Direitos Humanos e que é presidido por Dilma Rousseff, uma ex-presa política que sofreu na pele as torturas praticadas por gorilas da Ditadura Militar.

No Brasil do século XXI, esta história não pode permanecer no limbo. Tem que ser esclarecida totalmente. E quem deve tomar a frente dessa situação é a presidente da República que sabe, como ex-presa e como mulher, o que é esse tipo de sofrimento imposto no cárcere.  Ou ela cobra imediatas explicações, ou cai mais ainda no descrédito e mostra que a gerentona, como sempre foi tratada, já não manda nem nos subordinados.

É de se imaginar o que aconteceria, em 1979, em plena ditadura militar, se barrassem na porta dos presídios o então senador Teotônio Vilela, um usineiro, ex-UDN  que apoiou o golpe que depôs Jango, para depois criticá-lo com veemência. Ele fez história, como dissidente da Arena, partido do governo, ao visitar os presos políticos na condição de presidente da Comissão Mista do Congresso que analisava o projeto de Anistia Política. O que o governo militar não fez com Teotônio, a Polícia Federal de um governo petista fez com um deputado que além de ser presidente da CDH é do partido que apoia o governo de uma ex-presa política, barbaramente torturada.

A história do que fizeram com a presa Cristina Mautoni já se tornou conhecida. Afinal, as denúncias – ainda que nem toda grande imprensa tenha alertado para isso – vêm sendo publicada há dias. No sábado, 16/01, o jornal O Estado de S. Paulo fez a primeira abordagem: Cristina Mautoni – Justiça manda transferir mulher de lobista e advogado acusa PF de “chantagem”. A reportagem, após anunciar a decisão do juiz da 10ª Vara Federal de Brasília, Vallisney de Souza Oliveira, relata a denúncia da chantagem ocorrida:

Na última segunda-feira, 11, antes de a Polícia Federal pedir a prisão, o lobista recebeu a visita do delegado Marlon Oliveira Cajado, um dos responsáveis pelas investigações. O advogado do casal, Roberto Podval, disse ao Estado que, no encontro, o policial “chantageou” seu cliente para que fizesse acordo de delação premiada. Conforme o defensor, a colaboração foi proposta como uma forma de Mauro Marcondes evitar a transferência de Cristina para uma unidade prisional“.

No dia 18 (segunda-feira), o Estadão continuou: PF prende em São Paulo mulher de lobista da Zelotes. No mesmo dia, Tereza Cruvinel, colunista do 247, comentou: Cristina, mulher-isca da Zelotes. Na sexta-feira (22/01) foi a vez do Estado de S. Paulo, através do repórter Fábio Fabrini descrever o bate-boca entre o procurador José Alfredo de Paula e o advogado Roberto Podval durante uma audiência na Justiça Federal: Procurador e advogado batem boca em audiência da Operação Zelotes.  Cristina Mautoni estava lá, na cadeira de rodas.

No domingo (24/01) o blog Viomundo abordou o assunto na postagem Deputado Paulo Pimenta denuncia: PF mantém presa em condições precárias para forçar a delação premiada do marido, no que foi reproduzido por diversos outros blogs.

Só quem não se manifestou foi quem deveria dar explicações. No Ministério da Justiça recomendaram que se procurasse a Polícia Federal. Na superintendência do DF, a bola foi jogada para a Direção-Geral da instituição, que permaneceu calada até o início da noite. Às 20h45 desta segunda-feira (25/01) a notícia mais recente no site do DPF era da prisão de uma quadrilha de drogas no sábado dia 23.

Silêncio no DPF sobre o caso de  Cristina Mautoni Marcondes Machado. Às 20:48 a notícia era da apreensão de drogas

Silêncio no DPF sobre o caso de Cristina Mautoni Marcondes Machado. Às 20:48 a notícia era da apreensão de drogas

O que falta agora é a presidente Dilma chamar a si o problema e pedir explicações ao seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello Coimbra que, segundo o deputado Pimenta, em última instância foi quem o impediu de ingressar na superintendência. E deve fazer isso rapidamente, pois ainda assim estará fazendo-o com atraso.

24 Comentários

  1. artur disse:

    Deputado Pimenta é sério??? Desde quando?? kkkkkkk.

  2. Marilia disse:

    Estas noticias me deixam estarrecida com a prisão de uma mulher doente, com tantos bandidos a solta. Temos o judiciário mais bem pago do mundo, aposto que o Moro ganha uma fortuna por mês para fazer tantas trapalhadas. Eu estou pronta para participar de um movimento, mas o Zé Cardoso ou as instituições, como a OAB, poderiam nos fornecer argumentos, não é?

  3. Jorge Alencar Chorba disse:

    Delegados, inspetores, agentes e outros da PF e a maioria das “pessoas” que representam a segurança e a lei no Brasil se consideram intocáveis, acima da lei e muitos se julgam DEUSES.

  4. Marcos Silva disse:

    Esse é um dos grandes enigmas da Presidenta Dilma, cujo governo sempre apoiarei: por que o ministro da Justiça é intocável? O que se passa? Não há republicanismo que justifique. Será que a Presidenta e o ministro não percebem que essas (falta de) atitudes contribuem para o quadro de esculhambação em que vivem nossas instituições no Brasil de agora?

  5. Esmael Leite da Silva disse:

    Normas que acredito que usaram na AP 470 e que usarão na Lava Jato e que não dependem da Presidenta Dilma, mas do judiciário.

    Normas regulamentadoras para julgar processos em que constem como réus partidários do PT (Partido dos Trabalhadores), filiados e simpatizantes.

    Do Processo:
    Os partidos e pessoas não são iguais perante a lei – são diferentes entre si, e para o direito.
    As acusações, bem como os procedimentos envolvendo as investigações para o julgamento do feito são sigilosos, os vazamentos registrados durante a investigação, podem acontecer, desde que não afetem a sentença condenatória.
    Das provas:
    Serão classificadas pelo valor a elas atribuído pelo juiz;
    Quanto à natureza podem ser:
    Vocais: testemunhos e confissão (serão de alto valor);
    Instrumentais: documentos, objetos e outras provas materiais (serão considerados de baixo ou nenhum valor);
    Conjecturais: presunções (serão de alto valor).
    Quanto à espécie podem ser:
    Perfeitas, as orais (vocais) e as conjecturais;
    Imperfeitas (instrumentais);
    A prova testemunhal será a prova utilizada em mais larga escala, em razão das particularidades.
    Todos os depoimentos acusatórios devem ser gravados e filmados, exceto alguns, conforme o interesse da investigação;
    Não é necessário a transcrição literal dos depoimentos colhidos, podendo dar-se a eles a figura literária desejada às investigações.
    Nas demandas penais, o processo atrela-se à queixa.
    O sistema de provas baseia-se no tipo de prova (preferencialmente obtidas nas delações).
    Caso o acusador jure falsamente deve se submeter ao Ordálio.
    Juízos de Deus que considerado a principal prova para o povo, baseado no seguinte fato: “Pois que Deus, conhecendo o passado, pode castigar aquele que jura falsamente”.
    Em face da constituição de 1988, não se admitirão outras espécies de Ordalios, tais como:
    A prova da água fervente, em que o réu é obrigado a colocar o braço dentro da água fervente: se, ao tirá-lo não houver sofrido nenhuma lesão, será considerado quase inocente. ◦
    Libellus: deve ser oferecido aos delatores – o libelo será obtido após declaração do delator (falsa ou não), onde se atestará que o portador ali nominado arrependeu-se dos delitos praticados e deve diminuir significativamente sua pena independente de provas que possa vir a oferecer. O juiz deve ser tolerante.
    O réu pode opor exceções, que não devem ser consideradas para fins da sentença condenatória;
    Depois do exame destas, o contrato judiciário será fixado pela litis contestatio
    As partes submetem seguidamente as provas (…) das suas asserções ao juiz;
    Em seguida, mesmo na falta de prova suficiente, o juiz ordenará a sentença na sua maior gravidade, pois a literatura jurídica assim o permite.

    • João de Paiva disse:

      Análise perfeita. Moro e JB podem dar as mãos, pois a única coisa em que diferem é na falta de educação, que em JB é marca registrada. No cinismo e na hipocrisia são irmãos siameses; no arbítrio e descumprimento da Lei idem.

  6. C.Paoliello disse:

    Marcelo, eis aqui um bom tema para um Jornalista Investigativo do seu padrão:

    http://www.conversaafiada.com.br/brasil/moro-usou-dirceu-para-fazer-experimento

    PS – Pessoalmente acho que a gravação existe mas com o mesmo “probleminha” do caso do Marcelo Odebrecht. Existe ou não existe?

  7. Robson disse:

    A prisão de Guantanamo em Cuba deve ser um hotel cinco estrelas perto das masmorras medievais da Republiqueta de Curitiba!!!! https://www.youtube.com/watch?v=iDtw1pCeHEs

  8. […] Sirvo-me das palavras de Marcelo Auler, em seu blog: […]

  9. […] Sirvo-me das palavras de Marcelo Auler, em seu blog: […]

  10. João de Paiva disse:

    Matéria oportuna. Eu havia lido a entrevista do deputado Paulo Pimenta. É esclarecedora e, ao ao mesmo tempo, estarrecedora. É inconcebível e inaceitável a forma como atuam a PF, o MP e o juiz sérgio moro, responsáveis pelas investigações, denúncias e julgamentos dos processos atinentes à operação Lava Jato. Continue com esse trabalho investigativo; não dê folga e refresco à PF; enquadre também os procuradores do MP e o juiz sérgio moro. Desmascare toda essa turma. Você está prestando um grande serviço ao País.

    Muito apropriada a advertência à Presidente Dilma Rousseff e ao Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo.

    PS: Na abertura do texto você escreveu “Não existe motivos…”; troque essa construção por “Não existem motivos…” ou “Não há motivos…”

    • João de Paiva disse:

      O caso de chantagem para que o lobista assine delação premiada, mantendo a mulher dele doente, presa e humilhada, em condições sub-humanas, como denunciado pelo deputado Paulo Pimenta, está no âmbito da operação Zelotes – esta que deveria investigar grandes sonegadores (tais como Brasdesco, Santander e Rede Globo), mas que foi desvirtuada para perseguir o ex-presidente Lula e a família dele. Eu falei da Lava Jato, porque nesta também se usam os mesmos expedientes.

  11. […] Sirvo-me das palavras de Marcelo Auler, em seu blog: […]

  12. Graça Lago disse:

    A violência contra a mulher tem sido velha arma de guerra e domínio. Em todas as “civilizações” fomos submetidas à barbárie, para que os povos aos quais pertencíamos fossem subjugados. E é estarrecedor que isso ainda prevaleça, em um estupro de nossa essência.
    Cristina Mautoni Marcondes Machado é mulher e sócia de Mauro Marcondes Machado, de 79 anos, preso pela Lava Jato. Tentaram arrancar dele uma delação premiada contra o filho de Lula. Ele disse que nada tinha a declarar. Ameaçaram com prisão da mulher; ele manteve a posição.
    Ela foi presa. Recém-operada das pernas, precisa de assistência especial, não pode se locomover, se agachar, não tem autonomia de movimentos. Apesar disso, foi colocada em uma cela sem banheiro, apenas com uma “boca do boi” (buraco na altura do solo onde os presos se lavam, defecam e urinam agachados, além de escovar os dentes, lavar rosto e mão etc.).
    Penso em Cristina Mautoni Marcondes Machado e em todas que um dia estiveram presas. Penso em seu cotidiano.
    Ela urina muito, por conta dos medicamentos. E, a cada vontade de urinar, precisa pedir ajuda dos seus carcereiros. Se atenderem (nem sempre acontece), é na frente deles e com o apoio deles que se agacha, se arreganha e urina, inteiramente exposta a olhares de asco, desprezo ou prazer. Eles é que vão secar a sua vagina, se quiserem.
    Se não quiserem (e já aconteceu), ela vai urinar na roupa, na cadeira de rodas, no colchão. E dependerá dos seus carcereiros para ser limpada, enxugada e trocada.
    Mas Cristina Mautoni Marcondes Machado também defeca. E terá que pedir aos seus carcereiros que a conduzam e a sustentem na “boca do boi”, enquanto esvazia os intestinos; terá que pedir que a limpem e arrumem depois de defecar. Sob olhares de asco, desprezo ou prazer.
    Com a mesma “ajuda” dos seus carcereiros, ela se lava todos os dias. Se desnuda e se expõe cotidianamente.
    Quem já esteve presa, conhece na alma a dor dessa humilhação, de ficar subalterna ao carrasco, de implorar ajuda ao inimigo. Só quem é mulher sabe o quanto isso humilha, desonra, marca, avilta.
    Nada justifica. E é por isso que conclamo todas as mulheres, todos os coletivos femininos, todos os coletivos de defesa dos direitos da Mulher e Humanos que se manifestem. Não importa o que Cristina Mautoni Marcondes Machado tenha feito (e parece que nada), mas não podemos admitir isso.

  13. Guillermo disse:

    O que dizer de um país que tortura impunemente?
    A conivência do MJ, do Governo Federal são assim, sem nos escandalizarmos mais.
    Não importa quem seja a presa, é um ser humano e sem julgamento.
    Cadê a autoridade neste país?

  14. Globeleza disse:

    E a mulher do Cunha em Miami.
    Ela não vai presa.
    Não vem ao caso.

    Algo me diz que a zelotes é um filhotinho la do sul… Tortura na cela… Delacao…vazamento seletivo…delegados aloprados…perseguição politica….aprenderam direitinho.

    plimplim…. Tudo a ver !

  15. C.Paoliello disse:

    Já que nem a DG da PF, nem o MJ e nem a presidenta tomam qualquer providência, só resta à injustiçada recorrer à Comissão de Direitos Humanos da OEA pois de nossas instituições ditas “republicanas” nada mais se pode esperar. É o Estado Policial legitimado e o Estado Democrático de Direito abolido. Lamentável.

  16. Sebastian Picad'ouro disse:

    Marcelo, sejamos honestos.
    Tá mais do que na cara q a presidente e seu ministro fizeram um acordo de não agressão mútua com a PF, especialmente com o pessoal da lava jato.

    Eles não atacam ela (setores do MPF ligados à vaza jato passaram a defender abertamente a continuidade dela na presidência, pelo bem das investigações), e ela não desmonta a máquina de ilegalidades instalada na PF do Paraná. Simples assim.

    É uma vergonha.
    Uma mancha na biografia de quem se reconhecia como uma guerreira.

    Do Cardozo nunca se esperou nada mesmo.

    • Vera disse:

      Sabe o que mais me espanta nos que se dizem defensores do governo, é jogar o jogo deles sem perceber que esta jogando. Quer dizer que a Dilma fez acordo com a PF???? O Zé esse eu concordo com vc. pois antes de ser Ministro da Justiça já não o tinha como petista, assim como o Delcidio, mas a Dilma entrar no balaio do gato é simplesmente inadmissível. Tudo o que nossa imprensa quer quer os tais de esquerda façam, eles estão fazendo. Vamos com calma que ainda não vencemos a pior das batalhas. Cunha continua como Presidente da Câmara (algo muito mais vergonhoso do que qualquer omissão (que assim falam os tais de esquerda) da nossa Presidenta. Vamos com calma, muita calma.

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