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Marcelo Auler (*)

O bordado do Linhas do Horizonte censurado pela Biblioteca Pública do Estado de Minas Gerais, governado pelo petista Fernando Pimentel, por conta da palavra “golpe”. (Foto: Marcelo Auler)

O Coletivo Linhas do Horizonte é, na sua grande maioria, formado por mulheres. Elas são todas mineiras de Belo Horizonte. Ali o grupo surgiu no início de 2017. Desde então, demonstram que os brasileiros –  independentemente de gênero – são inventivos até na forma de protestos e de solidariedade.

Enquanto uns gritam, outros fazem passeatas, participam de atos e há até os que depredam. Elas bordam. Bordando, protestam. Mas não só protestam, também se solidarizam.

Já o fizeram com Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando ela esteve sob ataque. A homenagem acabou sendo entregue ao ex-presidente, por ela ter ficado enferma e falecido logo depois. Bordaram uma toalha de mesa com 84 quadros, com detalhes da vida do próprio Lula. O trabalho foi entregue em junho passado, em São Paulo. Atualmente, já bordam em defesa da eleição de Lula em 2018.

Estiveram com a ex-presidente Dilma Rousseff, em 26 de outubro, exatamente três anos depois da sua reeleição no segundo turno de 2014. Também foram solidárias com a ex-ministra Eleonora Menicucci, quando processada pelo ator Alexandre Frota, e com o ex-ministro José Dirceu, cujo bordado foi feito em um pano vermelho.

Em junho de 2017, o Coletivo Linhas do Horizonte esteve com Lula, em São Paulo, entregando a toalha de mesa feita para Marisa Letícia. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Apoiaram a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) participando do ato em defesa da mesma, no dia 10 de dezembro – Dia Mundial dos Direitos Humanos – em Belo Horizonte.

No último dia 15, a homenagem foi a Chico Buarque, ao passar pela capital mineira com o show Caravanas. A justificativa foi o ataque que ele sofreu ao sair de um restaurante no Leblon, no final de 2015.

O próximo apoio, segundo anunciaram ao Blog, será em defesa das religiões Afrodescendentes, por conta dos ataques preconceituosos e intolerantes.

Em todas estas ocasiões a manifestação deste coletivo que, embora seja predominantemente de mulheres também conta com alguns homens “bordadeiros”, se deu sempre com a confecção de um trabalho coletivo.

Alguns feitos na rua, como os do ato em defesa da UFMG. Outros, alinhavados em casa, individualmente, para depois serem unificados, como a colcha presenteada a Chico Buarque formada por cem quadrados. Cada um representando uma de suas canções. Já a colcha de Dilma Rousseff contou com 154 quadros com passagens da vida da ex-presidente por Belo Horizonte, sua terra natal.

O Coletivo além de bordar participa ativamente em Minas Gerais dos movimentos de protesto e de apoio aos demais movimentos sociais, como MST, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Marcha Mundial das Mulheres, o Levante Popular da Juventude, Movimento pela Soberania na Mineração entre outros.

O contato do Blog com elas – na ocasião eram apenas mulheres – deu-se em BH, no dia 10 de dezembro, no Ato em defesa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Memorial da Anistias Política (MAP). Foi quando ouvimos parte da história que o Coletivo acumula neste seu quase um ano de existência. Relatada por Leda Leonel, enquanto bordava a faixa defendendo a UFMG.

Enquanto Leda Leonel nos  explicava como o Coletivo se formou e o que já fez ao longo deste que termina, as agulhas e linhas em mãos ágeis iam bordando uma nova faixa no protesto contra a invasão da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pela Polícia Federal. Foi no dia 6 de dezembro, quando coercitivamente conduziram o reitor, a vice-reitora e outros professores para depoimentos por conta do Memorial da Anistia Política (MAP). A manifestação foi noticiada no Blog em – BH na defesa da UFMG e do Memorial da Anistia. No final do Ato, durante o abraço ao terreno que sediará o MAP, duas faixas marcavam a presença do Coletivo. Uma, bordada naquela manhã.

Embora criativo, o protesto dele já foi censurado. Pior, por órgão do governo estadual do Partido dos Trabalhadores. Foi na comemoração dos 120 anos de Belo Horizonte, quando convidado a participar de uma exposição de bordados na Biblioteca Pública do Governo do Estado de Minas Gerais. O trabalho apresentado, por ser considerado muito politizado – queriam que retirassem a expressão “Golpe” – acabou recusado. Leda, explicou o caso ao Blog:

No Facebook do Coletivo, o assunto foi abordado em uma nota intitulada Bordado Sem Partido, na qual expuseram:

As organizadoras alegaram sofrer fortes pressões e após a negativa do Linhas do Horizonte de modificar o bordado, de retirar, por exemplo, a palavra golpe, a organização disse que iria “consultar” a administração da biblioteca.

O Linhas do Horizonte, que apoia a Frente Nacional Contra a Censura, diante deste ato fascista, tomou duas decisões:

A colcha de Dilma Rousseff teve 154 quadrinhos lembrando seu passado em BH. A de Chico Buarque, cem quadros com músicas de sua autoria. Fotos: reprodução Facebook do Coletivo Linhas do Horizonte.

1. Não participará da exposição – caso venha a ser convidado novamente – e fará do bordado, de hoje em diante, a sua bandeira de luta contra a censura;

2. Vai denunciar o episódio publicamente, o que o faz por meio desta nota.

Informamos, ainda, que a Secretaria de Estado da Cultura e a direção da Biblioteca Pública disseram não ter conhecimento do fato e que com ele não compactuavam. No entanto, o Linhas do Horizonte entende ser de responsabilidade do Estado tomar as providências necessárias para que fatos como este não se repitam.

No bordado censurado (foto na abertura da matéria), feito por muitas mãos, como é sua característica, o Linhas do Horizonte expressa sua homenagem àquela BH que resiste às ditaduras, ao golpe, à intolerância, à censura, a todas as ações que contrariem a democracia e as liberdades. E assim continuará fazendo, em todos os seus bordados, como é compromisso primeiro do Coletivo Linhas do Horizonte”.

Sem dúvida que para o Coletivo, como explica Leda Leonel, “sermos recebidos pelo presidente Lula, receber a presidenta Dilma, sermos recebidos e ter tido o privilégio de conviver e ouvir José Dirceu por 7 horas, nos aproximar da Ministra Eleonora, entre outros encontros, foram momentos muitíssimo importantes e gloriosos para nosso coletivo“.

Apesar dessas iniciativas, o Coletivo ganhou maior destaque público a partir do último dia 15 quando entregou a colcha com cem quadradinhos marcando a produção musical de Chico Buarque ao compositor, em Belo Horizonte, onde ele estreou seu novo show Caravanas. O filme, apresentado no Facebook do Coletivo, ganhou destaque.

O presente, que o compositor garantiu ser mais bonito que o de Lula, mas , em tamanho, é menor do que o de Dilma – levou-o a lembrar da estilista Zuzu Angel.

“Ela também era uma bordadeira”, comentou, relembrando passagens que teve com a mesma quando ela lutava contra a ditadura militar para confirmar o assassinato de seu filho Stuart Edgart Angel Jones, então militante do MR-8, assassinado na Base Aérea do Galeão em 1971. Chico até relembrou a música que fez em homenagem a Zuzu, que como ele lembrou, também acabou sendo morta na ditadura.

Para a glória ser completa para o Coletivo Linhas do Horizonte, só falta Chico Buarque incorporar o bordado que lhe foi presenteado ao cenário das futuras apresentações do Caravanas, em janeiro e fevereiro no Rio, e em março e abril em São Paulo.

(*) Reeditado a partir das explicações de Leda Leonel ao Blog, de que o grupo foi criado em 2017 e não em 2016 como ela, por engano, havia informado.

 

 

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