O saco de “bondades seletivas” do STF
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Contra os delegados, a partir de simples informes com forte cheiro de retaliação, inquérito foi aberto; Angelo Villela (alto), que teve prisão preventiva decretada, está sendo investigado. Mas, contra Miller (abaixo), acusado de ter recebido gorda quantia, a responsabilidade da investigação foi repassada à OAB. Fotos reproduzidas da PGR

Marcelo Auler

Contra os delegados, a partir de simples informes com forte cheiro de retaliação, inquérito foi aberto; Angelo Villela (alto), que teve prisão preventiva decretada, está sendo investigado. Mas, contra Miller (abaixo), acusado de ter recebido gorda quantia, a responsabilidade da investigação foi repassada à OAB. Fotos reproduzidas da PGR

Contra os delegados, a partir de simples informes com forte cheiro de retaliação, inquérito foi aberto; Angelo Villela (alto), que teve prisão preventiva decretada, está sendo investigado. Mas, contra Miller (abaixo), acusado de ter recebido gorda quantia, a responsabilidade da investigação foi repassada à OAB. Fotos reproduzidas da PGR

Em março de 2015, através de um dos seus vazamentos seletivos, a Polícia Federal de Curitiba divulgou a abertura do IPL 737/2015 para apurar a autoria e a materialidade dos crimes de organização criminosa, violação de sigilo funcional, corrupção passiva, denunciação caluniosa, e associação criminosa. O procedimento tinha alvo certo: o delegado de polícia federal Paulo Renato Herrera e o ex-agente de Polícia Federal, Rodrigo Gnazzo, a partir de então tratado em publico como “dissidentes da Operação Lava Jato”.

Foi uma versão montada por “informes” produzidos pelo ainda Coordenador da Delegacia de Combate ao Crime Organizado (DRCOR) da Superintendência de Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR), delegado Igor Romário de Paulo, tendo por base, como ele mesmo escreveu, informações de “fontes humanas”. Criou-se a história de que Herrera e Gnazzo, associaram-se aos advogados Marden Maués e Augusto de Arruda Botelho Neto, para venderem informações privilegiadas da Lava Jato, que eles sequer dispunham. A partir de então foram tratados como dissidentes, embora jamais isto tenha ficado provado. Mas, os vazamentos seletivos, garantiram a “queimação” dos dois junto à opinião pública, que àquela época endeusava os operadores da Lava Jato do Paraná.

Dois anos depois, surge um real dissidente  que não vivia, como Herrera e Gnazzo, no entorno da Força Tarefa, o que, no máximo, permitiu que soubesse de algumas informações por terceiros,  ou comentários dos próprios delegados ou ainda, em casos mais raros, terem testemunhado-as.

O envolvimento do procurador da República Marcelo Miller com a Lava Jato, ao contrario de Herrera e Gnazzo, era umbilical. Não apenas com seus colegas de Curitiba, mas também com o Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a quem assessorou diretamente e, segundo consta, escreveu manifestações e cotas endossadas pelo PGR.

Em agosto de 2015, na única vez que um procurador da Lava Jato, Januário Paludo, se dispôs a conversar com o Blog, encontrei Muller, a quem conheci no Rio de Janeiro, onde era lotado e onde algumas vezes conversamos, circulando entre os seus colegas no escritório que a Procuradoria da República do Paraná montou no prédio defronte de sua sede, na Rua Marechal Deodoro, centro de Curitiba. Ali ocuparam um conjunto de salas alugadas especificamente para abrigar – com discrição e longe da curiosidade alheia – a Força Tarefa.

Há um segundo procurador que vem sendo apontado por seus pares como dissidente e traidor. Ângelo Goulart Villela . Ele se encontra preso desde 18 de maio, acusado de ter recebido grana ao repassar informações sobre operações nas quais atuava, como Greenfield, Cui Bono e Sépsis, que apura crimes relacionados à JBS. Na Lava Jato tinha um papel secundário. Pelas acusações feitas por Joesley Batista e, ao que parece, prontamente encampadas pela PGR, Goulart estaria recebendo R$ 50 mil mensais para repassar informações sigilosas. Trata-se de algo bastante controvertido, uma vez que segundo sua defesa e seus familiares nenhum dinheiro foi encontrado com ele, nem em suas contas. Já o ex-deputado Rocha Loures, filmado recebendo uma mala de dinheiro, teve sua prisão preventiva substituída por prisão domiciliar.

salário de MillerA relação de Miller com a Lava Jato e as demais operações é incontroversa. Todos na procuradoria sabem disso e lamentam a saia justa que ele criou para a instituição ao se bandear para a defesa dos irmãos Batista. Há até quem suspeite que ele ajudou a montar a “delação”de Joesley contra Michel Temer, de forma a oferecer a Janot dados que permitissem apresentar uma denúncia contra o presidente, como demonstrou Luis Nassif, em Xadrez de como Janot foi conduzido no caso JBS.

Ao se bandear, passou a ter a perspectiva de uma ótima compensação financeira, como ele próprio admitiu a Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo: Ex-braço direito de Janot revela salário para rebater acusação de Temer.

Pelos cálculos, ele pode levar a bagatela de R$ 450 mil por ano entre salários e bônus, na compensação por ter levado o cliente para o escritório Trench Rossi Watanabe. Teoricamente, nada ilegal. Mas algo bastante inusitado.

Enquanto isso, em Curitiba, os “dissidentes” criados por Igor Romário, foram submetidos à verdadeira devassa. Respaldado sempre na chamada fonte humana, com autorização judicial, tiveram todos os seus sigilos quebrados, ligações  telefônicas mapeadas,  viagens aéreas rastreadas.

No absurdo da operação montada fotografaram um carro ingressando em um motel como seu fosse o carro do advogado Maués. A versão apresentada é que ele iria se encontrar com os dissidentes em local insuspeito usando o carro da mãe dele. O ingresso no motel se deu de madrugada e ali permaneceu por várias horas, mas antes de acusarem, sequer foram conferir com o verdadeiro dono do veículo se era ele ou não quem estava naquele local.

Grave é que tudo foi criado, inclusive com a ajuda de jornalistas, como já mostramos na reportagem Com ajuda de jornalistas, delegados criaram versão do dossiê contra Lava Jato, como uma forma de retaliação do delegado Igor de Paulo, por ele ter identificado Herrera como responsável pela divulgação de páginas do Facebook nas quais ele e seus colegas da Lava Jato faziam campanha a favor de Aécio Neves – hoje mais do que suspeito – e detonando a candidatura de Dilma Rousseff, em 2014.

Após o juiz revogar o indiciamento foi dado novi prazo ao MPF para se manifestar, mas ele se calou e ocorreu o decurso de prazo. O caso cairá no esquecimento, mas a pecha de dissidentes ficará nos acusados pela polícia e pela imprensa.

Após o juiz revogar o indiciamento foi dado novi prazo ao MPF para se manifestar, mas ele se calou e ocorreu o decurso de prazo. O caso cairá no esquecimento, mas a pecha de dissidentes ficará nos acusados pela polícia e pela imprensa.

Responsável pelo inquérito 737, a delegada Tânia Fogaça, da Corregedoria Geral do Departamento de Polícia Federal (Coger/DPF) não conseguiu provar que houve o tal dossiê que alegaram ter sido feito pelos “dissidentes” .  Mas, ainda assim, indiciou Herrera por corrupção imaterial, alegando que seu ganho não seria financeiro, mas a “derrubada da direção da superintendência da Polícia Federal no Paraná”. Os demais envolvidos foram indiciados por contribuírem com este “crime”.

O Inquérito ficou parado por longos meses até que, provocado por Gnazzo, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal Criminal de Curitiba,em fevereiro passado, determinou “a revogação do indiciamento” (grifo do original) dos cinco investigados no IPL, conforme também noticiamos em Dissidentes na PF: nova derrota da Força Tarefa. O juiz falou da necessidade de retirar a “pecha de indiciado em inquérito policial pelo cometimento de grave crime contra a Administração Pública”. Sua decisão contrariou a posição do Ministério Público Federal (MPF). Em 30 de janeiro, o procurador Regional da República, Januário Paludo, um dos principais integrantes da Força Tarefa da Lava Jato, tinha defendido a permanência do indiciamento. Curiosamente, depois que o juiz revogou-o, foi dado prazo ao MPF para se manifestar e ele simplesmente se silenciou. Nada mais fez no caso que cairá no esquecimento. Mas os envolvidos continuarão queimados pela grande imprensa, sem direito a qualquer reparação.

Tudo isso mostra um comportamento até mesmo covarde da Polícia Federal. Contra seu delegado, o ex-agente e dois advogados, a queimação foi pública, um Inquérito foi aberto e nele de tudo se tentou para processar os  acusados, embora nada tenha sido provado. Já no caso concreto do procurador Miller, uma investigação preliminar só foi aberta por conta de uma provocação junto à Justiça Federal. O Departamento de Policia Federal nada fez, apesar de indícios concretos de que o procurador pode ter começado a negociar com os seus novos clientes antes de deixar o cargo.

Prevaleceu a covardia e a retaliação em um caso, e o acovardamento e a possível omissão em outro.

7 Comentários

  1. C.Poivre disse:

    Em evento a 80 reais ‘per capita’, especulador de imóveis populares promete “informações de primeira mão” a quem for a encontro de “procuradores”:

    http://justificando.cartacapital.com.br/2017/07/04/dallagnol-promete-informacoes-em-primeira-mao-para-quem-for-evento-de-procuradores/

  2. Biscoito disse:

    Prezados leitores,

    O inquerito 737/15 foi iniciado porque IGOR ROMARIO DE PAULA formulou uma informacao de que Paulo Renato Herrera, Rodrigo Gnazzo e tantos outros dissidentes estavam cooptando o chefe da carceragem da PF de Curitiba para que ele alterasse seu depoimento dado na primeira sindicancia sobre a escuta da cela do Youssef, a qual foi presidida pelo delegado da carne fraca da ilha gourmet, de forma que mentindo se provasse que a escuta tivesse ocorrido de forma ilegal e a sindicancia gourmet fosse uma fraude.
    Só que a sindicancia goumet foi refeita pela sindicancia 04/2015 da COGER/PF e se provou ser uma fraude feita para proteger IGOR ROMARIO, ROSALVO FRANCO, MARCIO ANSELMO e ERIKA MIALIK, pois foram os mandantes da escuta sem autorizacao judicial da cela de Youssef, a qual existiu, operou por mais de 10 dias ininterruptos e fez prova falsa na operacao lava jato.
    Portanto, ficou provado no inquerito 737/15 que IGOR ROMARIO DE PAULA praticou denunciacao caluniosa contra Paulo Renato Herrera, Rodrigo Gnazzo e os demais dissidentes, porque em sendo ele o autor da escuta ilegal da cela de Youssef acabou por produzir uma informacao falsa que deu causa a uma investigacao policial contra pessoas inocentes.
    Saibam que a nova PGR, dra Raquel Dodge, esta chegado e vai se deparar com essa noticia crime.
    Saiba Delegado IGOR que voce e sua esposa com amigos vao responder improbidade administrativa por colocar escuta ilegal nas dependencias da PF.

  3. João de Paiva disse:

    Parabéns, bravo repórter. Com tua destemida atuação não fica pedra sobre pedra. As ilegalidades criminosas dos delgados, promotores e juiz aecistas do núcleo curitibano da Fraude a Jato foram destrinchadas, desnudadas.

    Nos contundentes comentários que posto no blog chamo a Fraude a Jato de ORCRIM institucional. Isso causou preocupação no repórter, que já foi e continua a ser alvo de perseguição por parte não só dos DPFs cujas ilegalidades criminosas foram reportadas e denunciadas jornalisticamente (e com fartura de provas), mas certamente dos procuradores e juiz lavajateiros. A SR-DPF/PR foi exumada e autopsiada; o cadáver exala odor pútrido e fétido.

    Nos últimos dias o repórter pegou um gancho nas palestras remuneradas que Deltan Dallagnol faz, usando informações que o cargo público e condução de uma operação/investigação criminal, para produzir uma crônica-reportagem devastadora, deixando nu e com a mão no bolso o pastor-fundamentalista que ocupa a função de procurador e coordenado do núcleo curitibano da Fraude a Jato.

    Embora eu use termos fortes, as reportagens de Marcelo Auler têm confirmado que eles não são exagerados.

  4. Indignado disse:

    Se eu fosse esses caras começava a fazer palestras sobre isso… tá na moda né ?!

  5. Absurdo Jurídico disse:

    Estamos vendo o uso da máquina pública de acordo com o “freguês ” . Aos amigos , tudo. pros outros era a Lei, hoje , a disvirtuacao da Lei !!!

  6. Paciente disse:

    Grande análise prezado Marcelo Auler…somos gratos por termos a oportunidade de ler suas matérias…fabulosas, inquietantes, tormentosas…uma coisa é certa, mais cedo ou mais tarde a verdade virá à tona…quem praticou crime será responsabilizado…pode ter certeza…não se pode fazer isso com a vida de pessoas inocentes…aquele organograma do Igor é pura maldade criminosa…mais cedo ou mais tarde serão responsabilizadas…disso não tenha um pingo de dúvida!

    • Paulo Lima disse:

      Paz e ciência. Partilho sua gratidão, pelo reconhecimento da verdade que o trabalho do jornalista Marcelo Auler enseja. Mas não da certeza de justiça, mais cedo ou mais tarde. Quando um ministério público coopta além da polícia federal, juízes, ministros, empresários, fazendo e desfazendo ordenamentos políticos, crimes são extensivamente potencializados, balcanizam os sentidos e a nação. As custas e penas já hoje sofrem os milhões e milhões de desempregados brasileiros, sem direitos, e outros tantos milhões historicamente desprovidos. Macron na França foi a Versailles entronizar o regime neoliberal, enquanto nós aqui assistimos a cruenta erosão das instituições públicas e aos efeitos materialmente danosos na saúde, educação, nas necessidades básicas da vida cidadã .Contra as artes do mercado -até na milenar China- quem há de ? Mesmo assim, pacientes, sem deixar de questionar, investigar, e resistir, avanti no direito certo de luta, por mais ponderação e justiça social.

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