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Injustiça e desigualdade: precisa desenhar?

Marcelo Auler

Retrato do Brasil

Leitores de O Globo, seja na edição impressa, seja na digital, não precisam de muito trabalho, basta um pouco mais de atenção para darem, literalmente de cara, com a injusta e perversa desigualdade social brasileira. Ao abrirem o jornal, folheando a sua capa, encontram, ainda que em páginas diferentes – 2 e 3 – lado a lado as duas informações. Em uma nota na sua coluna, Lauro Jardim noticia que o novo presidente da Vale do Rio Doce, Fabio Schvartsman receberá MENSALMENTE R$ 550 mil. Em anos das chamadas vacas gordas na empresa, seu salário anual poderá atingir os R$ 12 milhões.

Logo ao lado direito da nota, na reportagem “O descaso com o risco“,  na página 3, o repórter Marcelo Remígio narra o drama do casal Claudete Lúcio, de 50 anos, e Sebastião de Freitas – com duas filhas, de 20 e de seis anos – que depois de quatro anos de espera por um novo lar, sem conseguir nada do que lhe foi prometido pelo governo, retornou à velha casa no bairro Lagoinha, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro. O imóvel está condenado pela Defesa Civil desde 2013, mas o casal não teve alternativa após cortarem também o aluguel social:

Recebia R$ 500 e já era difícil pagar aluguel. Muitas famílias trocaram um morro por outro, uma área de risco por outra, com o aluguel“, disse Claudete, com renda familiar de R$ 1 mil, ao repórter Remígio.

desiguyaldade lado a lado

A nota do alto salário e a notícia do descaso com os pobres, lado a lado, embora em páginas diferentes.

Ou seja, o salário de um único mês do presidente da Vale representa o mesmo que 1.100 aluguéis sociais destinados às famílias desabrigadas pelas chuvas na região serrana do Rio, em 2013. Em outra conta, mesmo que o governo mantivesse o aluguel social do casal Claudete e Sebastião ao longo dos últimos quatro anos (março de 2013/fevereiro 2014), o presidente da Vale receberá por 30 dias de trabalho vinte vezes mais do que todos os R$ 26,4 mil  correspondentes a 48 aluguéis sociais, os quais, reprise-se, deixaram de ser pagos.

Não se discute aqui a competência do presidente da Vale, independentemente de quem seja. O que chama a atenção é a gritante desigualdade social que reina no país e que, como se tem visto neste governo ilegítimo de Michel Temer, aumentará.  Afinal, em nome da austeridade social, a primeira medida do governo que assumiu com o golpe de um impeachment, não foi retirar nada dos ricos, sejam eles empresários, banqueiros ou especuladores do mercado financeiro.

O golpe foi dado na área social, com o congelamento, por 20 anos, dos gastos do governo. Isto significa que aluguéis sociais que foram cortados do casal Claudete e Sebastião deixarão de ser pagos a outros necessitados. Ao mesmo tempo, as casas prometidas não serão entregues. Com as chuvas de março, só resta rezar para que tragédias como as de 2011 (mil mortos em desabamentos) e 2013 (272 família desalojadas) na região de Petrópolis, não voltem a ocorrer. Porque, a depender dos governos, os necessitados nada receberão.

Ao mesmo tempo, segundo reportagem de Leandro Prazeres, publicada sábado (01/04) no UOL – Repasses do governo para faculdade de Gilmar Mendes aumentam 1.766% em 2 anos – , “os repasses do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) para o IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), faculdade que tem o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes entre seus sócios, aumentaram 1.766% entre 2014 e 2016. No mesmo período, os recursos totais destinados ao Fies aumentaram 40%. (…) De acordo com dados do Portal da Transparência do governo federal, os repasses do Fies para o IDP saíram de R$ 75 mil em 2014 para R$ 1,4 milhão em 2016”.

Ainda na reportagem de Remígio em O Globo, consta:

Dom Zanoni, arcebisoo de Feira de Santana e Referência da Pastoral Afrobrasileira = Foto reprodução

Dom Zanoni, arcebispo de Feira de Santana (BA) e Referência da Pastoral Afrobrasileira – Foto reprodução

O TCU fiscalizou a aplicação de R$ 6 bilhões e apontou distorções causadas por critérios ineficientes na escolha dos beneficiados pelo Ministério das Cidades. De acordo com o relatório, Santa Catarina, Ceará e Pará têm 3 milhões de habitantes em áreas de risco. No entanto, Ceará e Pará não foram beneficiados pelo programa, enquanto Santa Catarina recebeu R$ 1,5 milhão. Já a Bahia, que segundo o TCU tem população em área de risco “da mesma ordem de grandeza”, foi contemplada com cerca de R$ 120 milhões”.

Trocando em miúdos. Após todas as tragédias, Santa Catarina recebeu ao longo desses anos o equivalente a menos de três meses de salário do presidente da Vale (R$1,650 milhão) e R$ 1oo mil a mais do que foi repassado ao IDP, do ministro Gilmar Mendes, apenas em 2016. Práticas que só contribuem para o aumento da injustiça e da distorção de renda existentes no país.

A pedido do Blog, dom Zanoni Demettino Castro, atual arcebispo de Feira de Santana (BA) , mas que também já respondeu pela diocese de São Mateus (ES) entre 2007 e 2014 e, por ser negro, é uma referência  da Pastoral Afrobrasileira, comentou o assunto e ao final, lembrou:

É uma realidade de injustiça e desigualdade que brada aos céus, já criticada e denunciada pelos profetas, setecentos anos antes de Jesus Cristo. De fato, a injustiça social não tem época. Parece uma realidade onipresente e atemporal“.  (leia integra abaixo)

4 Comentários

  1. Marise Ciríaco disse:

    Parabéns Senhor Marcelo , gratidão por ajudar a tirar a VENDA dos nossos olhos. Realmente, não precisa desenhar, no entanto, precisamos reacender o FOLEGO da LUTA. Nossa “inércia” em relação as DESIGUALDADES gritantes é dolorida e pior ACOSTUMAR-NOS que é ASSIM MESMO, é assustador.
    “Um dos meus anseios de chegar ao infinito é a esperança de que, ao menos lá, as paralelas se encontrem” (D. Hélder Câmara)

  2. João de Paiva disse:

    Caro Jornalista Marcelo Auler.

    Você citou o jornal da famiglia Marinho, fez crítica social, mas poupou o jornal. Seria interessante você apresentar na reportagem o apoio explícito desse jornal à extinção do programa Ciência sem Fronteiras, à privatização do ensino superior público, ao desmonte da Previdência Social e da CLT. Esse jornal após essas ações criminosas do governo golpista não sòmente em editorial, mas em reportagens distorcidas e manipuladas.

    Sei que em outros tempos você já trabalhou em veículos globo e que conhece profissionais de lá. Mas nos tempos atuais não se pode aliviar apar o PIG/PPV; é preciso declarar ‘guerra’ e desmontar diuturnamente toda a manipulação criminosa do noticiário. Além do trabalho de repórter é preciso confrontar e criticar duramente o PIG/PPV, como fazem Fernando Brito e Luciano Martins Costa.

    Miguel do Rosário, d’O Cafezinho publicou a bilionária verba publicitária do PIG/PPV, que foi generosamente aumentada após o golpe de Estado, De maio passado até dezembro foram mais de R$ 2 bilhões de reais. Que tal perguntar aos donos do jornal quantos milhões de alunos poderiam receber merenda, se o governo golpista deixasse de fazer essa bilionária propaganda? Quantos aluguéis sociais podem ser pagos com essa verba publicitária? Quantas cassas populares podem ser construídas com esse dinheiro.

    Por mais competente que seja um executivo, diretor ou presidente de uma empresa S/A, é indecente que ele tenha um salário de no mínimo R$550 mil. Isso só é admissível se o cara for dono. E numa S/A não existe um dono, mas acionistas (sejam eles minoritários ou majoritários). Nenhuma pessoa física pode auferir rendimento como esse, a menos que seja ela a proprietária do empreendimento ou da empresa.

  3. País de cabeça pra Baixo disse:

    Rapaz, você quer o que de uma Nau sem rumo? Um delegado senssacionalista acaba com a reputacao de anos de um grande setor de ponta mundial do Brasil falando um monte de bravatas , e tá aí, em qualquer país sério já responderia direto a improbidade e no mínimo afastado . Hj A Vale é o problema menor , o maior O Vale tudo pra aparecer.

  4. Roberto Hexsel disse:

    “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro. Explica.

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