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Marcelo Auler

No feriado de 15 de novembro, para um grupo de 250 pessoas de seis dioceses diferentes do Estado do Rio de Janeiro que discutiam, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, quais os caminhos a trilhar para atender ao apelo do Papa Francisco de “Igreja em Saída”, Frei Betto – o palestrante – sinalizou que, embora importante, as eleições do próximo ano, não podem ser vistas como a forma para o país sair da crise:

Veja bem, não é nem achar que as eleições do ano que vem vão resolver tudo o que está aí. Não vão.  Eu não deposito as minhas esperanças, as minhas fichas todas nas eleições de 2018. Nós temos que pensar mais em longo prazo. Elas são importantes, sem dúvida. Mas, o mais importante é fazer o que, nos últimos anos, nós deixamos de fazer. Fortalecer os movimentos sociais (…) É daí que vem. O poder Popular.”

Betto respondia à questão de qual deve ser o papel da “Igreja em Saída” proposta pelo Papa diante da crise política brasileira. Para ele, isso deve acontecer de duas formas: denunciar e, para não ficar apenas na denúncia, ir em busca do “anúncio”. Ele explica:

O que é o anúncio? É fortalecer os movimentos sociais. Esse é, a meu ver, o papel número um, hoje, de todo mundo, que tem sede e fome de Justiça, que quer mudar esse país, que quer o Brasil melhor, etc.. Fortalecer os movimentos sociais“.

250 pessoas se reuniram no feriado, em Nova Iguaçu (RJ) se deslocando de suas cidades para debater a mobilização social. O descrédito em tudo o que acontece não imobiliza. (Foto: Marcelo Auler)

O encontro em si realizado no Centro de Formação de Nova Iguaçu (Cefor) – que me trouxe à lembrança os tempos em que ali convivi com dom Adriano Hypólito, que profeticamente ergueu aquele prédio – mostra a inquietação de leigos e religiosos, de diversos pontos do Estado, com certa paralisia da Igreja. Bem diferente da época em que à frente dela estavam ícones com dom Adriano, dom Hélder Câmara, dom Paulo Evaristo Arns, dom Luciano Mendes de Almeida, os primos Aloísio Lorscheider e Ivo Lorscheiter.

Hoje, é verdade, a Igreja espalhada pelo país encontra focos de resistência. No Estado do Rio, duas dioceses que se destacam são justamente a de Nova Iguaçu, com dom Luciano Bergamin, bispo que junto à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanha as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), e o bispo de Barra do Piraí e Volta Redonda, Francisco Biasin.

Celso Pinto Carias (Foto: Marcelo Auler)

Dom Luciano, de Nova Iguaçu, acolheu em sua diocese “não representantes das igrejas, mas pessoas de igreja” que, no fundo, formam grupos minoritários. São uma espécie de resistentes aos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI que esvaziaram os movimentos sociais. A partir deles, a igreja, de uma maneira em geral, embora haja sempre exceções, parou de apoiar tais movimentos.

Mas, com certeza há pessoas e grupos que mantém essa direção e nós acreditamos que a tendência, com o Papa Francisco persistindo mais alguns anos, será de incentivar ainda mais grupos como esses“, prevê Celso Pinto Carias, assessor da CNBB para as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Foi  para “articular pessoas dispersas na rede de comunidades, que não estão tendo mais o apoio de dioceses e paróquias”, que se montou a reunião do dia 15, na qual as expectativas foram superadas.

Ao final ficaram as propostas de fomentar grupos na comunidade, de Fé & Cidadania e, ao mesmo tempo, de Vivência de Evangelização, Espiritualidade e Ação. “Quem esteve lá se propôs a motivar, fomentar a criação desses grupos“, lembrou Carias.

Em seguida, previu: “uma vez que as pessoas fiquem mais bem articuladas, melhor organizadas, consigam mobilizar um grupo maior, sempre terá consequências na perspectiva de encontrarem saídas para a crise política. Ao final terão isso no horizonte“.

Seguem a linha do que Betto falou. Também do que dom Luciano endossou ao falar ao Blog:

O grande grito que a Igreja deve dar, pode dar, em nome de Jesus, nesse caminho, é de um Brasil mais justo, onde não haja disparidade tão grande, tão imensa. Um país mais fraterno. Onde todo mundo possa alcançar o bem querer e o bem estar de todos. Quando a gente fala de todos significa que aqueles já que têm, que pensem naqueles que menos têm“.

No entendimento de Betto – que não permite a postagem do vídeo – não adianta apenas denunciar, embora denunciar seja um primeiro passo. Mas é preciso também anunciar. Transcrevo, abaixo, sua reposta a um questionamento do Blog.

Embora Betto não aposte todas suas fichas nas eleições de 2018, como ele mesmo diz, ela tem a sua importância. Isso, nota-se, em outro artigo dele, publicado na quinta-feira (16/11) no jornal Hoje Em Dia, de Minas Gerais – Esperança Abraâmica.

“Vamos guardar o pessimismo para dias melhores”

Frei Betto

É óbvio, para 97% da população brasileira, que não apoia o governo Temer, porque ele só tem 3% de apoio, no qual estão incluídos aqueles que no Congresso, na Câmara dos Deputados, destruíram duas vezes a Justiça.

Ou seja, cometeram um ato legal, mas injusto, ao impedirem que o presidente, que cometeu gravíssimos crimes, que não há como esconde-los, porque são públicos, não seja investigado e ajuizado pelo nosso sistema Judiciário.

Pois bem, o papel de uma Igreja em Saída, dentro desta crise, eu consideraria um duplo papel:

Primeiro, denunciar o retrocesso que o Brasil sofre em relação a direitos  adquiridos.

Nós estamos, em um ano e meio de governo, retrocedemos 150 anos.

Porque até na questão da escravidão nós retrocedemos. Esquecendo que o Brasil tem, majoritariamente, uma população negra – 53% da população brasileira é negra, segundo o IBGE, hoje – e nós somos a segunda nação negra do mundo. Só há uma nação que tem mais negros que no Brasil, que é a Nigéria.

Frei Betto reunido em Nova Iguaçu com “pessoas de igreja” que buscam saídas. Foto Portal das CEBs, Facebook

Então, o nosso papel é denunciar este retrocesso e, ao mesmo tempo, eu não gosto de ficar na denúncia, precisa ir também para o anúncio.

O que é o anúncio? É fortalecer os movimentos sociais. Esse é, a meu ver, o papel número um, hoje, de todo mundo, que tem sede e fome de Justiça, que quer mudar esse país, que quer o Brasil melhor, etc.. Fortalecer os movimentos sociais. 

Veja bem, não é nem achar que as eleições do ano que vem vão resolver tudo o que está aí. Não vão. 

Eu não deposito as minhas esperanças, as minhas fichas todas nas eleições de 2018. Nós temos que pensar mais a longo prazo.  Elas são importantes, sem dúvida.

Mas, o mais importante é fazer o que, nos últimos anos, nós deixamos de fazer. Fortalecer os movimentos sociais.

É aquele pequeno movimento que você cria, que você participa. O movimento de teatro. Movimento de jovens. Movimento de mulheres que costuram. Movimento LGB-Todos.

Pequenos movimentos que começam e lá na frente, como pequenos afluentes,  irão formar o grande rio que vai dar na cachoeira da virada.

Mas, se não houver isso, esse somatório, nós não iremos construir no Brasil o que é o mais importante de tudo: o Poder Popular. É daí que vem. O poder Popular.

Acho que essa é a nossa missão.

E gostaria que a CNBB resgatasse o seu papel profético. Ou seja, que ela, como aconteceu nos anos 70, 80, 90, voltasse a ser a voz dos que não têm voz. Expressasse uma palavra profética diante de tantas injustiças e retrocessos que a gente assiste.

(…) Uma Igreja em diáspora, tem que ser uma Igreja que em qualquer diversidade, em qualquer situação, é uma Igreja que não perde a caridade, não perde a esperança. Hoje, nesse Brasil, tão desesperançado em que as pessoas quando questionadas se vêm  luz no fim do túnel?, respondem ‘Não, Betto, roubaram a luz e roubaram o túnel“.

Então, está difícil, porque antes, pelo menos, tinha o túnel e íamos procurar a luz. Agora, roubaram tudo. Eu deixo essa mensagem para vocês:

Vamos guardar o pessimismo para dias melhores“.

 

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2 Comentários

  1. João de Paiva disse:

    Sou de família católica, mas há anos sou agnóstico. Considero incompatíveis o saberes histórico, sociológico e científico, em geral, com os dogmas religiosos. Os dogmas de qualquer religião monoteísta ou politeísta – não resistem a cinco minutos de escrutínio feitos por cientistas céticos. Ao longo da história grande parte das guerras teve como causa disputas ou divergências entre religiões. Mesmo hoje em dia grande parte dos conflitos, como os do Oriente médio, têm como causas questões religiosas.

    A religião é a mais antiga e persistente forma de dominação, opressão, sujeição e escravização. Hoje, no chamado ‘ocidente’, a ciência tem ocupado esses tristes lugares e papéis outrora sob a influência das religiões; a ciência não é neutra e desde o século XVIII é usada para oprimir, dominar e escravizar povos; a ciência é responsável pelo desenvolvimento das armas e das máquinas de guerra que ceifaram mais de 60 milhões de vida apenas no século XX.

    Respeito Frei Betto e outros religiosos, assim como respeito e compreendo a religiosidade fé demonstradas pelo Jornalista responsável por este blog. Entretanto penso que não será através da religião ou apenas através dela que as classes trabalhadoras, exploradas e excluídas conseguirão se organizar em movimentos sociais transformadores. Além das massas populares e de recursos materiais (dinheiro), para implementar transformações sociais que se aproximem de uma revolução é necessário conquistar parte do braço armado do Estado. Sem povo, dinheiro e armas não se faz revolução, como há mai de 100 anos observou Lênin.

  2. mari santos disse:

    Frei Beto está coberto de razão. Se houverem eleicões, ótimo. Mas as coisas não estarão resolvidas. Por exemplo, os governos petistas, digamos a verdade, pouco investiram na educacão de base, que em meu ponto de vista, é primordial. Não me esqueco de Mercadante que nada fez enquanto ministro da educacão , dizendo que os professores eram analfabetos digitais. Criticou , mas em nada contribuiu. A Educacão Básica sempre ficou relegada à última das últimas prioridades. Erro grave , que os governos petistas cometeram . É preciso que reconhecamos nossos erros para que eles não se repitam.

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