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Paes bajulou Francisco, mas lhe vira as costas

Despejo na Vila Autódromo - Foto de Aguinaldo Ramos

Marcelo Auler

“São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje”. 

(Papa Francisco, 28 de outubro de 2014)

Reprodução

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Em julho de 2013, sorridentes, o prefeito Eduardo Paes e Carlos Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) receberam o papa Francisco em uma cerimônia no Palácio da Cidade, com honras e reverências. Até lhe doaram camisetas.

No último dia 3 de junho, em nome da preparação dos Jogos Olímpicos, tanto Nuzman, como Paes, desprezaram todo o ensinamento de Francisco, e ofereceram ao mundo as imagens que o papa classificara de cruéis.

Paes e Nuzman bajularam o Papa em julho de 2013, mas não ouve seus ensinamentos (Foto divulgação)

Paes e Nuzman bajularam o Papa em julho de 2013, mas não ouvem seus ensinamentos (Foto divulgação)

A frase do papa foi como uma profecia do que estava para acontecer na cidade em que ele foi recebido com honras,  glória e muita reverência. Pura bajulação. Foi só ele se distanciar para o prefeito, em nome do evento que o presidente do COB ajuda a organizar, promover justamente aquilo que Sua Santidade condena.

A condenação foi explicitada na mensagem que o papa Francisco. proferiu em 28 de outubro de 2014 no Encontro Mundial de Movimentos Populares, na antiga sala do Sínodo, no Vaticano.

Ao falar das injustiças que se cometem, citou exatamente as remoções que Paes como prefeito, e Nuzman como beneficiário indireto, teimam em promover na Vila Autódromo, retirando de suas casas moradores que estão ali há 40 anos. Trata-se de “limpar” o terreno em torno da Vila Olímpica na Barra da Tijuca para esconder a pobreza e facilitar o tráfego de quem for assistir às competições.  Como denunciam os atingidos, após uma tentativa frustrada no dia 3 passado, nesta segunda-feira, dia 8 de junho, a guarda municipal poderá aparecer de novo para promover uma nova pancadaria.

Certamente o papa não se dirigiu diretamente a Eduardo Paes ao falar aos lideres de movimentos populares. O prefeito do Rio não tem esta bola toda. Mas, a ele cabe, como autoridade  responsável pelo bem estar dos cidadãos da cidade que governa, entender o recado que foi claro, inclusive ao incentivar os mais pobres a lutarem por seus direitos diante de situações de injustiça que escondem. nas palavras de Francisco, “negócios e ambições pessoais”:

Despejo na Vila Autódromo - Foto de Aguinaldo Ramos

Despejo na Vila Autódromo – Foto de Aguinaldo Ramos

“Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele

ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas.

Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo”.

No caso da Vila Autódromo o que se vê não é nada diferente do que o papa denunciou. Querem retirar uma população do bairro onde residem há quatro décadas, sem levar em conta aquilo que lembrou Francisco:

“nos bairros populares, onde muitos de vocês vivem, subsistem valores já esquecidos nos centros enriquecidos, Os assentamentos estão abençoados com uma rica cultura popular: ali, o espaço público não é um mero lugar de trânsito, mas uma extensão do próprio lar, um lugar para gerar vínculos com os vizinhos”.

Paes deveria mirar-se no pronunciamento do papa, que mesmo sem ser especialista – e nem precisa ser – mostrou de forma clara como deveriam agir os governantes que têm a preocupação de governar para todos, não apenas para uma elite. Está no mesmo pronunciamento aos líderes comunitários a dica de como o prefeito deve tratar o município que governa:

“Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os diferentes e que fazem dessa integração um novo fator de desenvolvimento. Como são lindas as cidades que, ainda no seu desenho arquitetônico, estão cheias de espaços que conectam, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro. Por isso, nem erradicação, nem marginalização: é preciso seguir na linha da integração urbana. Essa palavra deve substituir completamente a palavra erradicação, desde já, mas também esses projetos que pretendem envernizar os bairros populares, ajeitar as periferias e maquiar as feridas sociais, em vez de curá-las, promovendo uma integração autêntica e respeitosa. É uma espécie de direito arquitetura de maquiagem, não?

Está certo que qualquer governo deve se manter laico. Mas, manter distanciamento das religiões não significa ignorar o bom senso, fazer-se de surdo a ensinamentos que beneficiem a todos, independentemente dos credos que confessem, A pregação do papa Francisco está longe de ser  uma defesa doo chamado Direito Canônico. É pura e simplesmente a defesa dos Direitos Humanos, pregado a todos, e não apenas aos seus seguidores católicos.

Oxalá a igreja do Rio de Janeiro, siga os ensinamentos de seu líder, posicione-se ao lado dos mais necessitados. Quem sabe, assim, no lugar de remover, o prefeito promova o desenvolvimento daquela área, adotando projetos de urbanização já desenvolvidos por universidades e que vai ao encontro do que pregou Francisco:

“Sigamos trabalhando para que todas as famílias tenham uma moradia e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto e continuo: escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes e todas as coisas que criam vínculos e que unem, acesso à saúde – já disse – e à educação e à segurança”.

Mais Informações sobre a Vila Autódromo podem ser encontrada na página do meu amigo, o fotógrafo Aguinaldo Ramos autor de uma das fotos que ilustram este texto. O endereço é: http://arrepiosurbanos.blogspot.com.br/2015/06/o-rio-de-janeiro-continua-venda.html.

3 Comentários

  1. Marcelo,
    é uma honra colaborar com sua preciosa postagem, em que você recupera, com argúcia, a sabedoria de um dos líderes mais justos, um dos poucos, desses nossos tempos.
    E é também uma alegria refazer, por mais esta vez, a nossa rica parceria jornalística dos tempos da revista Manchete, da Bloch, lá do final dos anos 1970…
    Grande abraço, e sempre sucesso!
    Aguinaldo Ramos

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