Com Walter Fontoura o JB escreveu a História do Brasil

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Com Walter Fontoura o JB escreveu a História do Brasil

walter fontoura grafitte

Marcelo Auler

walter fontoura grafitte

Caricatura de Walter Fontoura (08/06/1936 a 04/07/2017) de autoria não identificada, copiada da página dele no Facebook.

Jamais trabalhei diretamente com o Walter Fontoura, que faleceu nesta terça-feira (04/07),  a0s 81 anos, em São Paulo. Devo-lhe, porém, o meu ingresso na sucursal do Jornal do Brasil, em Brasília, em 1978, ao me indicar a Walder de Góes, chefe da sucursal. Episódio de menor importância, mas que guarda certa curiosidade com relação à minha demissão da revosta Manchete.

Mesmo sem ter convivido no dia a dia de uma redação com ele, sei da importância que teve não apenas para o JB, onde montou um time de craques, como bem lembrou hoje Cézar Motta, autor de um livro sobre o jornal a ser lançado pela Objetiva em setembro.

Mais do que isso, porém, com ele à frente de uma redação de vários craques, o “Jornal da Condessa”, como chamavam o JB, escreveu parte da história do Brasil, ao desvendar episódios que marcaram época, como a história da Operação Brother Sam, narrada por Marcos Sá Correa, em 1976; ao confrontar a falsa versão do sequestro do0 ex-deputado Rubem Paiva, na verdade assassinado no DOI-CODI, como revelou um trabalho primoroso da dupla Fritz Utzeri e Heraldo Dias, em 1978; e, finalmente, também na investigação paralela, que Fritz, Heraldo e também o Bira Roulien fizeram sobre a bomba do Riocentro, em 1 de maio de 1981.  No casso da bomba, também o Estadão fez um bom levantamento com o então jornalista Antero Luz. Foram três episódios marcantes no jornalismo brasileiro dos quais o JB teve papel fundamental e em todos Fontoura estava por detrás, apoiando, incentivando e bancando os jornalistas que levantaram estes assuntos.

Nesta terça-feira, no Facebook , Motta ao homenagear Fontoura, lembrou suas principais características – “um editor corajoso e que dava asas aos repórteres”. E o time dele era de competência acima da média, como recordou Motta:

Lá se foi Walter Fontoura. Não foi um planejador de jornais brilhante como Alberto Dines, nem um jornalista genial que marcou uma geração, como Elio Gaspari ou Marcos Sá Corrêa. Mas foi brilhante à sua maneira. Sabia montar e liderar uma equipe espetacular sem receios ou inseguranças com o brilho dos chefiados. Levou para o JB em 1974 craques como Elio, Marcos, Dorrit Harrazin, Paulo Henrique Amorim, e fez o jornal nadar de braçada na abertura de Geisel, desafiando os limites da ditadura“.

Walter, a mulher Arlete e as filhas, ainda pequenas, Claudia e Ana Cristina. "Amo essa foto! Não sei quem tirou. Foi minha primeira viagem para fora do país. Lembro dos preparativos, do frio na barriga... Todo mundo viajava na maior estica. Minha mãe parecia artista de cinema", descreveu Claudia no Facebook.

Walter, a mulher Arlete e as filhas, ainda pequenas, Claudia e Ana Cristina. “Amo essa foto! Não sei quem tirou. Foi minha primeira viagem para fora do país. Lembro dos preparativos, do frio na barriga… Todo mundo viajava na maior estica. Minha mãe parecia artista de cinema”, descreveu Claudia no Facebook.

No caso dos documentos encontrados por Marcos Sa Correa na biblioteca que a Universidade do Texas criou com os documentos do ex-presidente americano Lyndon Baines Johnson, Fontoura bancou a viagem de Marcos Sá Correa mesmo sendo tudo incerto. O jornalista tinha ouvido falar da existência dos documentos e propôs a ida a Austin para investigar. Foi tiro e queda.

Como editor, Fontoura não apenas autorizou os gastos e o investimento, mas depois, com o consentimento de Nascimento Brito, o genro da condessa que comandava o jornal, deu espaço em três edições para que a documentação fosse mostrada. Da mesma forma como ele jamais deixou de bancar as reportagens que suas equipes apuravam, mesmo que confrontando versões oficiais dos militares, em plena ditadura.

Sem falar que, apostando no talento dos profissionais que junto na redação, era capaz de liberá-los, por meses, para que se dedicassem a uma boa apuração.

Quando trabalhei na Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro CEV-RJ, com a reportagem de Fritz e Heraldo nas mãos, obtivemos, eu e o presidente da CEV-RJ, o hoje deputado Wadih Damous (PT-RJ), no final de 2013, do coronel reformado Raymundo Reinaldo Campos a confissão de que o sequestro fora inventado. Tal e qual os dois jornalistas denunciaram em 1978.

Nesta época, procurei Fontoura e dele obtive um depoimento que mostra como ele, na função de editor, apoiava o trabalho de suas equipes, por mais diferente e inusitado que pudessem ser as demandas que lhes eram feitas. Eu buscava confirmar o envolvimento de um militar em uma tentativa de extorsão ao jornal (deixo de publicar o nome do mesmo por ele ter falecido, evitando assim dissabores a seus descendentes), mas transcrevo o diálogo que tivemos.

O jovem Fritz (ao centro, de óculo) entre Heraldo Dias (à direita) e Sérgio Fleury (esquerda). TRês grandes jornalistas que não estão mais entre nós. Foto reprodução do Jornal do Brasil

O jovem Fritz (ao centro, de óculo) entre Heraldo Dias (à direita) e Sérgio Fleury (à esquerda) e ao lado Arthur Reis, lendo jornal. Quatro “feras” da equipe de craques que Walter Fontoura juntou no JB.

Depoimento de Walter Fontoura – (ex-editor do JB na época da reportagem “Quem Matou Rubens Paiva?”) – dia 13.11.2013, por telefone;

CEV-Rio  – Me contaram um historia que durante o levantamento feito pelo Fritz Utzeri e o Heraldo Dias sobre o Rubens Paiva, em 1978, um oficial do Exército, que trabalhou no DOI-CODI, ofereceu uma foto do Rubens Paiva no pau de arara por US$ 10 mil dólares e que você teria recusado este tipo de negociação.

W.F. – Se eu tivesse sabido, eu teria aceito (…) Eu não soube disso não. Eu autorizei o Fritz, nesta época, a pagar 300 mil (não sei que dinheiro era) era qualquer coisa como 300 mil, que este militar estava pedindo por uma prova de que o Rubens Paiva tinha sido morto lá… não me lembro mais exatamente o que era. Mas eu  estava empenhado em dar o apoio que esta reportagem merecia.

E me lembro que o depois ministro do Exército, Walter Pires, na época comandando o 1º Exército, me telefonou  para dizer olha “quero dizer a você que vocês estão sendo alvo de um picareta, de um coronel picareta que está dizendo que vai dar uma prova de que o Rubens Paiva morreu nas dependências da Barão de Mesquita. Não é verdade, ele não morreu lá”.

Aí eu falei, ‘mas, vem cá general, então o senhor sabe como é que ele morreu, quem matou, como é que matou?”.

Ele disse , ”não, eu não sei, ninguém sabe, nem vai saber. O que eu sei é que não há hipótese de alguém saber isto. Esse coronel está tentando tomar um dinheiro de vocês, porque está em dificuldades financeiras”. Eu  falei para o Fritz isto.

CEV-Rio – E o coronel?

W. F. – Eu não sabia quem era o coronel, nem porra nenhuma.

CEV-Rio – Você não sabia. Seria um tal xxx? Na época tinha o capitão xxx que era o S2 da PE, o homem da inteligência da PE. Ele é um dos que foram apontados pelo procurador geral da Justiça Militar, em 1986, como envolvido na morte do Rubens Paiva.

W. F. – Não soube disso não. Nunca tinha ouvido falar em xxx até agora.

CEV-Rio – O Fritz não chegou a lhe dizer o nome do coronel? Ou lhe disse e você não lembra mais a esta altura?

W.F. – Não, não sei. Não me lembro se ele chegou a mencionar. Acho que não, porque, neste tempo, o Fritz e o Heraldo começaram a fazer esta matéria e o Letício Câmara, que era o secretário de administração, o cara do dinheiro da redação, vinha para mim e dizia “o Walter, porra estão pedindo para comprar umas enxadas, pá”. Eu disse, “Letício, eu não sei para que servirá, mas eles estão pedindo, vai lá. Eles desencavaram gente, abriram túmulos, no cemitério da Ilha do Governador. Foi um negócio assim meio fora da rotina de uma redação e eu autorizei. Mas não soube de nada, não deu em nada”.

CEV-Rio – Posso usar esta história, se for preciso

W. F. – Ué, pode.

Não por outro motivo, quem trabalhou diretamente com Fontoura, ainda hoje o elogia como editor, justamente por fazer o que os jornalistas mais gostam que seus chefes façam: “Dar asa aos repórteres”, como definiu Motta.

Testemunhos: Trago à reportagem dois testemunhos que recebi, depois de ter editado e publicado este texto, mas que entendo que servem para mostrar o caráter e o profissionalismo de Fontoura. O primeiro é do ex-ministro das Relações Exteriores (Governo Lula) e da Defesa (Governos Lula e Dilma), Celso Amorim. O segundo do jornalista Ubirajara Mora Roulien, citado no artigo acima:

Celso Amorim Foto Reproduçlão TV BRasiklLamento muito a morte do Walter Fontoura, com quem convivi especialmente quando fui presidente da Embrafilme (1979/1982) em um momento difícil de transição democrática, sujeito a oscilações por vezes bruscas (em uma delas fui demitido). O Walter foi um apoio importante em face dos ataques dos distribuidores estrangeiros e das ameaças obscurantistas, que prosseguiam, apesar das promessas de abertura. Gostaria de expressar por seu intermédio meu pesar aos familiares e amigos“. (Celso Amorim).

“Tenho gratas recordações do Walter Fontoura, sujeito muito humano,( como o Luthero Motta Soares ),  a quem recorri algumas vezes, para interceder junto à Editoria de Cidade para socorrer aos colegas Beniamino Pugliese, o  Bem Bem, que o DRH achava velho para empregá-lo, como a Wilson Reynaldo, um dos melhores repórteres de polícia de minha geração, que alguns colegas do nosso Pedami, achavam que ele não tinha o perfil de profissional para trabalhar no JB. Nessas duas oportunidades Walter Fontoura  me  ajudou a tirar  dois colegas da rua da amargura. Foi ele, também, que numa reunião de editores resolver me premiar com o cheque de CR$300.000,,00   que  acompanhava o diploma Golfinho de Ouro  concedido ao JB, por minha matéria sobre a Bomba no Riocentro, prêmio que eu dividi com o fotógrafo Vidal da Trindade e com o motorista Gilberto Silva.Walter Fontoura, descanse em paz sob a Luz Divina do Grande Arquiteto.Amem”.  (Ubirajara Moura Roulien)

 

Apoio:

Advocacia Eny Moreira

2 Comentários

  1. Terezinha Costa disse:

    Muito justo lembrar o papel do Walter Fontoura no JB nos anos 70. Pena que foi preciso ele morrer para isso. Em todps os textos e documentários spbtr o jornal a gestão dele passou batida.

  2. C.Poivre disse:

    Ditadura midiático-judicial dos golpistas quebra recorde de crueldade:

    https://aesquerdavalente.blogspot.com.br/2017/07/temer-fecha-hospital-do-cancer-que.html

    PS – Quanto à matéria, não existem mais jornalistas como estes na mídia dominante, agora o que se vê são empregados dessa mídia comercial que conseguem ser mais reacionários que os próprios patrões. Os jornalistas de verdade estão refugiados nos blogs, como nesse aqui.

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