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 Marcelo Auler(***)

Ilustração copiada da Internet

No dia da consciência negra, dedicado a Zumbi dos Palmares, não há muito que comemorar, mas muito há para se alertar. “As consequências dos 300 anos de escravidão ainda não foram suficientemente reparadas”, alerta  em artigo que republicamos abaixo, o arcebispo de Feira de Santana, dom Zanoni Demettino Castro, um baiano afrodescendente e como tal referencial da Pastoral Afro-Brasileira na CNBB.

Recorrendo ao Documento de Aparecida, apresentado ao final da V Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe, cuja redação foi coordenada pelo então cardeal arcebispo de Buenos Aires (Argentina) dom Jorge Mario, Cardeal Bergoglio, hoje o Papa Francisco, ele relembra os alertas feitos à época: a história dos afrodescendentes “tem sido atravessada por uma exclusão social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a identidade étnica é fator de subordinação social”.

No dia a dia, dom Zanoni não apenas relembra as denúncias que o documento dos bispos da América Latina levantou,  como o “processo de ocultamento sistemático dos valores, da história e da cultura dos afrodescendentes”. Ele clama e prega pela conscientização não apenas dos negros, mas dos injustiçados de uma forma em geral. Como o fez, em setembro de 2016, com aproximadamente 100 moradores de rua que, semanalmente, às terças feiras, são acolhidos para café da manhã, banho e almoço na Igreja Nossa Senhora da Conceição e São José, no Engenho de Dentro, zona Norte do Rio:

Quando vocês se reúnem assim,vocês não sabem a força que têm de transformar a realidade“, alertou, como mostra o vídeo reproduzido ao final.

Coisa de Negro

Dom Zanoni Demettino Castro (*)

(Arcebispo de Feira de Santana),

dom Zanoni Demettino Castro (Foto: Marcelo Auler)

“No momento em que se repercute a fala do ancora do Jornal da Globo quando anunciava o resultado das eleições nos Estados Unidos e fora flagrado numa declaração racial, nada respeitosa e profundamente preconceituosa, ao afirmar que o buzinaço que estava acontecendo naquele instante era “coisa de preto”, somos chamados, neste novembro negro, a refletir sobre a vida, a fé, a cultura e a tradição do povo brasileiro afrodescendente, a refletir sobre “coisa de negro”.

Sob o manto de Nossa Senhora Aparecida os Bispos da América Latina e do Caribe, em sua V Conferência, constataram que a história dos afrodescendentes “tem sido atravessada por uma exclusão social, econômica, política e, sobretudo, racial, onde a identidade étnica é fator de subordinação social” (DAP96)*.

Embora vivamos num novo tempo, numa nova época em que não se admitem etnocentrismos, xenofobismos e preconceitos, os afrodescendentes “são discriminados na inserção do trabalho, na qualidade e conteúdo da formação escolar, nas relações cotidianas”.

As consequências dos 300 anos de escravidão ainda não foram suficientemente reparadas.

Os números estatísticos são nítidos: há “um processo de ocultamento sistemático dos valores, da história e da cultura dos afrodescendentes (DAP 102). A formação superior, que deveria ser um direito garantido a todos, tem sido uma meta quase impossível de ser alcançada, dificultando ao negro o acesso às esferas de decisão na sociedade” (DAP 533).

Esta realidade deve ser enfrentada. Como cristãos acreditamos que os valores do Reino de Deus são imprescindíveis no processo de gestação de um novo modelo cultural, quando os afrodescendentes “assumindo uma atitude mais protagonista” conscientes do poder que têm nas mãos e da possibilidade de contribuírem na construção desse novo modelo cultural, a nova sociedade, justa e solidária (DAP 75), sinal do reino definitivo, anunciado e realizado por Jesus Cristo.

Nesta clima de reflexão e aprofundamento nos alegra a realização de dois grandes acontecimentos: o IX CONENC que acontecerá de 18 a 21 de janeiro de 2018, em Maringá (PR), e o XIV EPA, Encontro de Pastoral Afro americana, em Cali na Colômbia com o tema “A espiritualidade Afro-americana e os desafios do século X

Creio que em nosso agradecimento a Deus, podemos fazer nossa a belíssima canção do Pe. Valmir Neves:

Senhor venho ofertar coisa de negro, coisa de negro, afinal, coisa de negro. O suor de cada dia, o peso de nosso trabalho, as mãos tomadas de calos, coisa de negro. O que faço não é certo. Meu grito nunca fez eco. Senhor sou negro. E não nego. Venho ofertar minha dor. Senhor meu canto gemido. Dele nunca vou esquecer. Entre salmos e benditos. Venho vos oferecer.”

Peçamos à Maria, a Soberana Quilombola, Mãe de Deus e nossa Mãe , que neste ano em que comemoramos os 300 anos do encontro de sua imagem no Rio Paraíba, interceda por  nós a fim de que o compromisso com o povo negro, assumido na Quinta Conferencia de Aparecida , permaneça firme no horizonte evangelizador de toda a Igreja do Brasil”.

Dom Zanoni saudando o povo de rua, em setembro de 2016

(*)Dom dom Zanoni Demettino Castro é arcebispo de Feira de Santana (BA) e referencial da Pastoral Afro-Brasileira

(**) Documento de Aparecida, emitido após a V Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe (13 a 31 de maio de 2007), na qual o presidente da Comissão de Redação do Documento foi o então Dom Jorge Mario, Cardeal Bergoglio, hoje o Papa Francisco.

(***) Aos leitores peço desculpas por ter deixado passar um erro cometido na troca do verbo saudar pelo saldar. Credito-a à pressa e cansaço, mas isto não justifica. Agradeço à sempre cuidadosa Marilda Varejão pelo alerta feito. Reeditei para o acerto às 23H41

 

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