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Marcelo Auler

dom Pelé,dom Helder e dom Luciano...Com a passagem de dom José Maria Pires, também conhecido com dom Pelé ou dom Zumbi, arcebispo emérito de João Pessoa (PB), na noite de domingo (27/08) estão rareando na Igreja Católica os pastores que marcaram época e posição a favor dos oprimidos.

Coincidência, ou não, o mais antigo bispo brasileiro (98 anos, 70 anos de sacerdócio sendo 60 como bispo) foi chamado ao céu na mesma data em que, há 18 anos, em 1999, seu irmão, amigo e vizinho no episcopado do Nordeste,  dom Hélder Câmara, também deixou o seu rebanho. Sete anos depois, no mesmo 27 de agosto, outra liderança da Igreja Católica progressista que marcou época e posição na luta contra a ditadura – dom Luciano Mendes de Almeida, ex-secretário -geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), transvivenciou.

Seria outra a igreja de hoje se estes “verdadeiros pastores” ainda estivessem em seus papéis de líderes. Mas, infelizmente, quem os conheceu ativos e fortes na década de 70 e 80, vê que poucos dos atuais seguiram os ensinamentos e, em especial, a prática destes que estão nos deixando. O mais curioso é que eles marcaram época em papados que nada tinha de parecido com o que temo hoje. Antes pelo contrário, depois de Paulo VI, falecido em 1978, os “progressistas” não apenas do Brasil, praticamente comeram o “pão que o diabo amassou”.

Ao verem o pontificado de Francisco, todos eles, junto a outros como dom Clemente Isnard, dom Waldyr Calheiros, dom Paulo Evaristo Arns, e os primos-irmãos Aloísio Lorscheider e Ivo Lorscheiter, devem estar comemorando os novos rumos da Igreja no mundo, mas lamentando a pobreza de pastores proféticos no Brasil. Os que restaram, com Pedro Casaldáliga, já estão enfraquecidos pela idade, ainda que ativos em seus textos e testemunhos.

Dom José Marisa Pires, ou dom Pelé, ou, mais recentemente, dom Zumbi.

Dom José Marisa Pires, ou dom Pelé, ou, mais recentemente, dom Zumbi. Foto: CNBB

Foram bispos que vivenciaram o Concílio Vaticano II, convocado em dezembro de 1961 e instalado em outubro de 1962 pelo papa João XXIII  e encerrado em dezembro de 1965, já por Paulo VI. Pastores que protagonizaram as Conferências Episcopais da América Latina de Medellin (1968) e de Puebla (1979), já no pontificado de João Paulo II, que deu início à guinada da Igreja para o conservadorismo.

São estes bispos que estão nos deixando. Os que o teólogo José Marins classifica de “Os Bispos de Medellin” que hoje, diante da situação que o Brasil vive, fazem falta. Estivessem entre nós ou com saúde e em exercício do episcopado – os que ainda sobrevivem tornaram-se bispos eméritos – a posição da Igreja Católica seria outra, muito embora ela tenha tomado posições importantes e interessantes ultimamente. Abaixo transcrevo o texto de Marins, que deve ser lido como uma homenagem a dom Pelé e todos os demais.

OS BISPOS DE MEDELLIN!

Pe. José Marins

“Enquanto o bispo projetado pelo Concilio de Trento é fundamentalmente um administrador do clero, dos bens eclesiásticos, fiscalizando, nomeando, transferindo, coordenando, castigando, recompensando, estimulando uma Igreja estabelecida e considerada essencialmente estável e imutável, o Vaticano II gerou bispos de uma Igreja presente no mundo, preocupados pelos católicos e não-católicos, um episcopado que foi voz profética, diante do sistema sócio-político, econômico.

Não puderam nem quiseram ser bispos que estacionaram noutras épocas da história, mas que caminharam com o seu povo, escutando seu clamor, tocando suas chagas, usando sua linguagem.

Por isso quando falaram foram escutados porque o que dizem tinha sentido.

Não se sentaram entre os “vencedores”.

Foram Bispos livres.

Vivendo pelo Espírito, deixam-se por Ele ser conduzidos (Ga.5,25).

Estes Bispos tiveram uma excepcional santidade de vida. Foram santos pela humildade na luta, pela coragem, audácia, dedicação total à Palavra de Deus e ao seu ministério. Testemunhos diante dos poderosos de suas nações, alguns chegaram ao martírio. Os outros foram duramente perseguidos!”

Apoio:

Advocacia Eny Moreira

1 Comentário

  1. ari disse:

    Infelizmente desapareceram os bispos e padres que não vacilaram em se posicionar ao lados dos mais fracos e excluídos. Desapareceram e não foram substituídos. Em Juazeiro, morreu há poucos anos D. José Rodrigues, de presença marcante nas lutas sociais. Lamentavelmente o que vem ocupando o espaço é a igreja da renovação carismática, alienada e alienante, inclusive com seus deputados votando a favor do golpe e a favor das medidas do governo golpista contra o povo.
    Descanse em az, D. Pelé!

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