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Um dos corpos foi encontrado no mato do assentamento no qual as vítimas tentavam sobreviver. Foto Secretaria de Segurança-MT

Chico Alencar (*)

Um dos corpos foi encontrado no mato do assentamento no qual as vítimas tentavam sobreviver. Foto Secretaria de Segurança-MT

Um dos corpos foi encontrado no mato do assentamento no qual as vítimas tentavam sobreviver. Foto Secretaria de Segurança-MT

Eram nove homens, a maioria jovens. Um deles pastor. Vivendo no Brasil profundo, nos longínquos do norte de Mato Grosso, a dor dos que os perderam – mães, filhos, esposas – não chega até nós. Seus nomes(**), só agora: Sebastião, Francisco, Edson, Ezequias, Samuel, Aldo, Izaul, Valmir, Fábio. Todos foram mortos em seus casebres, de surpresa, sem chance de reagir. Sem poder fugir dos algozes brutais, a soldo de fazendeiros da região.

“Eles foram entrando e executando, barraco por barraco, as pessoas que estavam dentro”, diz o comandante do pequeno destacamento da PM do município de Colniza. Um dos corpos foi encontrado no mato, na terra da qual as vítimas pretendiam sobreviver.

Lá no distrito de Taquaruçu do Norte, a 250 quilômetros de Colniza, que fica a mais de mil quilômetros de Cuiabá, gente pobre e anônima buscava um pedaço de terra para plantar, para viver, para ser. Apenas isso. Apenas o elementar.

Mas nesse país da lei só para os mais ricos querer viver é assumir o risco de morrer. E a morte desses esquecidos logo será esquecida.

Colniza no Noroeste do Mato Grosso, divisa com Rondônia. Foto reprodução da Revista CartaCapital

Colniza no Noroeste do Mato Grosso, divisa com Rondônia. Foto reprodução da Revista CartaCapital

Encapuzados movidos a covardia, pagos pelo dinheiro da concentração fundiária, da ganância, do ódio aos desvalidos, atacaram os barracos de lona e foram, um a um, atirando e esfaqueando os “invasores”. O alegado direito de propriedade, destituído da função social que a Constituição impõe, emoldurou a ação criminosa. E orienta os protofascistas que, de variadas maneiras, justificam a chacina.

“Estamos acompanhando”, limita-se a declarar o Ministério da (In)Justiça, chefiado por um ruralista. Impunidade mata.

A Comissão Pastoral da Terra contabilizou 6.601 famílias em áreas de grilagem de terras e acossadas pelo latifúndio. Índios e quilombolas vivem sob constante ameaça. Municípios de nomes bonitos abrigam a feia rotina da barbárie dos capangas: os campos de Querência, Canarana e São Félix do Araguaia são semeados com o sangue dos mártires sem nome, que não tiveram direito de viver com um mínimo de dignidade no Brasil.

Brasil de tanta gente sem terra e tanta terra sem gente, mas que não escapa à sanha monopolizadora dos que tudo querem, em todos os cantos. Hoje ainda as lágrimas amargas dos que sobreviveram a tamanha brutalidade molharam a terra onde, em cova rasa, foram colocados os corpos dos chacinados.

Para eles, apenas a prece comovida de Pedro, bispo emérito de São Félix, catalão que fez daquele lonjura sua pátria, seu planeta:

Somos a solidão que suportamos, que acolhemos, que partilhamos, que transcendemos. Fazer do povo submisso um povo impaciente. Fundir os muitos córregos numa torrente.

(*) Chico Alencar é professor de História, escritor e deputado federal (PSOL/RJ);

(**) As vítimas, que conforme os peritos oficiais do Mato Grosso foram torturadas e assassinadas a tiros e golpes de facão, são: Sebastião Ferreira de Souza, de 57 anos (pastor da Assembleia de Deus), Francisco Chaves da Silva, 56 anos, Edson Alves Antunes, 32 anos, Ezequias Santos de Oliveira, 26 anos,  Samuel Antônio da Cunha, 23 anos, Aldo Aparecido Carlini, de 50 anos, Izaul Brito dos Santos, de 50 anos,  Valmir Rangeu do Nascimento, 55 anos.

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