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A experiência em busca de emprego: vida que segue.

Marcelo Auler

Balaio do KotschoMais do que colegas de profissão, Ricardo Kotscho, assim como Luís Nassif, Arnaldo César e alguns outros, são verdadeiros irmãos que a profissão me propiciou. Com Arnaldo, a relação é bem mais antiga, dos nos 70 – mais especificamente de 1975, como narrei em Na ditadura, uma amizade surgida na “luta”.

Com Kotscho e Nassif a convivência começou cinco anos depois, anos 80, em São Paulo, na redação da Folha. Ao contrário de Arnaldo, com quem dividi diversas redações – revista Manchete, Jornal do Brasil, revista Veja, O Dia, TV Alerj –, com os outros dois os caminhos profissionais não mais se cruzaram em um mesmo local de trabalho. Mas as amizades permaneceram e a convivência continuou, mesmo morando em cidades diferentes.

Mais importante. Com os três, aprendi muito. Não apenas profissionalmente. E continuo aprendendo.

Tais lembranças vêm à mente no momento em que vejo Kotscho passar por uma experiência de vida diferente. Como ele mesmo afirma, próximo de completar 70 anos (nasceu em 1948), mais de 50 de carreira (iniciou em 1964), encara, pela primeira vez, o desemprego.

Ele e Nirlando Beirão – outro companheiro de caminhada, embora mais distanciado – foram dispensados, na segunda-feira (02/10), da Record News.

Nas explicações do Jornalistas & Cia, “eram os últimos remanescentes do grupo de 12 comentaristas que estiveram na origem do Jornal da Record News, comandado por Heródoto Barbeiro desde o início de 2011.

Kotscho, uma carreira no jornalismo que se confunde com a História do Brasil: com o presidente ditador general Costa e Silçva(1); com Lula, Marisa e Miguel Arraes(2); com dom Paulo e o rabino Sibel (3); com Ulisses Guimarães (4). Fotos: reproduções do Livro "Uma vida de repórter: do golpe ao Planalto"

Kotscho, uma carreira no jornalismo que se confunde com a História do Brasil: com o presidente ditador general Costa e Silva (1); com Lula, Marisa e Miguel Arraes (2); com dom Paulo e o rabino Sobel (3); com Ulisses Guimarães (4). Fotos: reproduções do Livro “Uma vida de repórter: do golpe ao Planalto”

Tais demissões demonstram apenas o pouco compromisso da chamada grande mídia com a qualidade do conteúdo que oferecem ao público.

No jornalismo, experiência conta. E muito.

A cada dia, porém, as redações têm menos profissionais com bagagem acumulada. Profissionais que sempre serviram de referência aos novatos, cheios de garra, de disposição, mas nem sempre com o conhecimento necessário.

No caso de Kotscho, a carreira no jornalista literalmente se mistura com a História do Brasil. Ele não apenas noticiou. Fez História.

Em 1976 foi quem, no Estado de S. Paulo, logo após a queda da censura prévia, coordenou a famosa série de matérias com a revelação das mordomias que atendiam aos todos poderosos dos governos da ditadura.”As vantagens quase ilimitadas de uma classe especial” foi a primeira da série, publicada em 1 de agosto.

A repercussão foi tanta que a série consta do livro “As 10 reportagens que abalaram a ditadura” que a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) editou, em 2005, sobre a coordenação de Fernando Molica.

Em 18 de dezembro de 1983, na Folha, outra séria fez fama e marcou época. Mostrou um excelente trabalho profissional de Kotscho com o seu quase inseparável parceiro, o fotógrafo Jorge Araújo.”Uma chaga de ouro na Selva” foi a primeira denúncia das atrocidades que acontecia no garimpo de Serra Pelada, no sul do Pará. O que se passava na região era desconhecido no resto do país.

Naquele mesmo ano, como já narramos em Após 34 anos, Folha de S. Paulo se acovarda!, Kotscho foi o responsável maior prelo engajamento do jornal na campanha das Diretas Já! O jornal e a campanha cresceram com esta cobertura, apesar de a eleição direta não ter ressurgido ali.

Em 1985, dom Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel lançaram o famoso livro Brasil Nunca Mais, que narra as atrocidades da ditadura com suas prisões, torturas e assassinatos.

Um levantamento minucioso feito por uma equipe de advogados a partir de documentos extraídos dos processos da Justiça Militar. Para escrever o livro que resumiu o trabalho, dom Paulo confiou em apenas duas pessoas – amigos, por sinal – Frei Betto e Kotscho.

Kotscho: junho de 1983, nosso único trabalho em dupla.

Kotscho: junho de 1983, nosso único trabalho em dupla.

Durante alguns anos sentamos lado a lado na redação da Folha. Em todo este período compartilhamos muitas coisas. Desta amizade, porém, surgiu uma única reportagem em dupla.

Foi publicada, a partir da primeira página, no domingo 5 de junho de 1981: “A ‘guerra urbana’ mata 600 por mês em São Paulo“.

Pelos registros do Instituto Médico Legal, mostramos como ocorriam as mortes violentas na cidade.

Naquela semana, coincidentemente, um assalto ao extinto banco Comind, do bairro do Pacaembu, terminou com a morte de um dos assaltantes (Victor Paulo Ignes) e de um dos vigilantes (Hotelino de Carlos Ferreira).

Fernando Santos, a quem chamávamos de “Português”, registrou os dois corpos lado a lado no IML A reportagem mostrava como as duas vidas que correram paralelas – ambos migrantes que chegaram à maior cidade do país na expectativa de sobrevivência – acabaram se cruzando na mesma sala fria, com paredes de azulejo, no IML.

Beirão continua escrevendo na revista CartaCapital, enquanto Mino Carta e seu exército de Brancaleone mantiver a revista nas bancas.

Kotscho, sem poder pendurar as chuteiras – “o que ganho de aposentadoria do INSS mal dá para pagar o plano de saúde”, diz – engrossa a fila dos desempregados em busca de uma oportunidade de trabalho. Aos quase 70 anos, ainda busca o sustento dele e de sua família.

Não será fácil, apesar de toda a sua experiência e conhecimento. Principalmente por conta do preconceito com relação à idade.

Mas ainda não ficarão livre de seus comentários. Irá mantê-los em um Blog próprio, como anunciou na página do Facebook de sua filha, Mariana, em artigo que reproduzimos abaixo.

Já tem até novo endereço: www.balaiodokotscho.com.br, embora ainda em construção. O difícil é descobrir como sobreviver com um blog. Este daqui depende da colaboração dos leitores.

Kotscho sabe que espaço não lhe faltará. Aqui, por exemplo, estará sempre aberto às suas colaborações. O Blog, assim como os leitores, só ganhará caso ele nos presenteie com seus artigos e com seu conhecido bordão: Vida que segue!

Ficam os votos que a vida, ao menos, continue lhe proporcionando, como fez até agora, mais momentos de felicidade do que de desespero. Que o atual, passe logo.

Vida de desempregado

Ricardo Kotscho

Kotscho em foto de 2012

Kotscho em foto de 2012

De uma hora para outra, os telefones param de tocar.

Ligam apenas alguns velhos amigos para perguntar o que aconteceu e dar um abraço.

Também rareiam as mensagens no correio eletrônico.

É como se você tivesse sido desligado do mundo: te tiraram da tomada, sem aviso prévio.

Estou desempregado pela primeira vez na vida, desde que comecei a trabalhar em jornalismo, com 16 anos.

Hoje faz uma semana que acordo de manhã sem ter o que fazer.

Não há mais anotações na agenda, nenhum compromisso.

É uma sensação muito estranha, de vazio absoluto.

Você descobre que o trabalho não é só teu ganha-pão para pagar as contas no final do mês.

No meu caso, sempre foi a própria razão de viver, minha ligação com o mundo.

Escrever para contar e comentar o que está acontecendo é a única coisa que aprendi a fazer.

Desde o meu primeiro emprego, nunca tinha sido demitido.

Foi uma paulada que não esperava, agora que estou próximo de completar 70 anos, com mais de 50 de carreira.

Nem sei por onde começar a procurar um trabalho novo.

Ao contrário da maioria dos outros 13 milhões de brasileiros sem trabalho, nem adianta distribuir meu currículo porque sou tão antigo que os possíveis empregadores já me conhecem.

O mar mercado, como sabemos, não está para peixe.

O fato de ser um profissional reconhecido e respeitado, que já trabalhou nas maiores empresas de comunicação do país, de repórter a diretor de redação, não é garantia de nada.

Enquanto a maioria das empresas do ramo reduz salários ou passa o facão sem olhar em quem, o mercado em geral busca mão de obra barata para substituir os que ganhavam salários melhores.

Esta é a realidade, e é com ela que precisamos lidar.

Para não me ver parado, minha filha Mariana Kotscho, também jornalista já veterana, abriu espaço em seu Facebook para publicar o que eu tiver vontade de escrever, enquanto monta

uma plataforma independente para o meu blog, o Balaio do Kotscho, que está no ar desde 2008.

Já temos até endereço novo em casa própria: www.balaiodokotscho.com.br

Minha filha caçula, a roteirista Carolina Kotscho, que está estreando o musical “2 Filhos de Francisco”, já falou com a mãe para nos ajudar no que for preciso.

Por enquanto, é o que temos.

Sempre fui empregado, nunca tive negócios ou outras rendas fora do salário.

O que ganho de aposentadoria do INSS mal dá para pagar o plano de saúde.

Então, não tem outro jeito: depois de uma breve folga na Semana da Criança para curtir os netos na praia, comunico à praça que estou de volta ao mercado, como se diz.

Qualquer trabalho honesto na minha área me interessa.

Se alguém estiver interessado em patrocinar meu blog é só entrar em contato com minha empresária Mariana Kotscho.

Bom feriadão pra todos.

Vida que segue.

Abraços,

Ricardo Kotscho

7 Comentários

  1. JoãoP disse:

    Desejo a esses guerreiros do Jornalismo muita sorte, e tomara que surja logo uma maneira de sobreviver dignamente. Assim que o Balaio abrir uma conta darei minha contribuição.

  2. Pierre Coudry disse:

    Caro Kotscho.
    Eu o acompanho há tempo e tinha prazer em vê-lo e ouvi-lo no jornal da Record. Só posso dizer que o acompanharei no Balaio e mandar um forte abraço solidário.

  3. Olá amigos,

    entendo muito bem o que acontece. E não é só no jornalismo. Desejo sucesso e que as dificuldades sejam superadas.

  4. Angela disse:

    Os mais velhos somente se mantém nas redações corporativas quando assumem a ideologia patronal. O que dá tristeza é que também os mais novos tem curvado suas espinhas dorsais para garantirem o arroz e feijão … e o falso prestígio de assumir como seu sobrenome o nome da empresa.

  5. João de Paiva disse:

    Agradeço ao Marcelo Auler por não ter deixado passar em branco a demissão de Ricardo Kotscho. Mas não apenas Kotscho e Nirlando Beirão perderam o emprego esta semana. Kennedy Alencar é outro cuja demissão forçada acaba de ocorrer. no final do mês passado Mário Magalhães foi ‘convidado’ a encerrar seu blog, até então hospedado no UOL-Folha.

    Na ditadura a tual a auto-censura dos veículos do PIG/PPV voltou com tudo.

    Mesmo em portais de análise de mídia – como o Observatório da Imprensa – os jornalistas mais críticos e não alinhados com a direita golpista, com as oligarquias e com o neoliberalismo estão sendo afastados, já há mais de dois anos. Luciano Martins Costa e Luiz Egypto, hostilizados por Mauro Malin e Eugênio Bucci, foram afastados por Alberto dines e meados de 2015. No mesmo período o portal OI fechou o espaço de comentários e matou aquele que era um espaço de crítica jornalística com maior credibilidade. Como ‘réplica’, Ricardo Melo, tão logo assumiu o cargo de diretor-presidente da EBC, tirou do ar a versão televisiva do OI, desde 1998 veiculado pela TVE do Rio e depois pela TV Brasil. hoje o OI está morto, já que não possui audiência alguma.

    • C.Poivre disse:

      Falou bem Paiva, quando se referiu a ditadura sob a qual estamos vivendo: uma DITADURA MIDIÁTICO-JUDICIAL. Não há como não vir à mente os primeiros anos do regime Hitlerista na Alemanha. Até quando as lideranças nacionais vão ficar assistindo a tudo isso sem se unir, organizar a resistência popular e nos convocar às ruas? Quando começarem a aparecer os campos de concentração?

  6. Wagner Pinheiro disse:

    Grande pessoa, Ricardo Kotscho…

    Na minha opinião…já era de ser esperado…vide a volta de controle de informações para o povão…da diretoria da Record News que se ajustaram com a ditabranda…vide PIG…

    Antes dava gosto de assistir tudo na RNews…hoje não passo a ver mais nada…infelizmente…

    Pode esperar que Deus é justo como vc pessoa honesta…

    Um abç…

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