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A ambígua nota da CNBB: “a apatia privilegia interesses privados!”

Marcelo Auler (reeditada em 27/10 para acerto de informação)

Em nota divulgada na tarde desta quinta-feira (26/10), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) posiciona-se de forma ambígua com relação ao momento político que o país vive.

Na nota assinada pelo comando da conferência – cardeal Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília e presidente;  Dom Murilo Krieger, arcebispo de Salvador e vice-presidente; e Dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral – ao optarem por falar genericamente, não deixam claro o que defendem.

É verdade que a nota denuncia como grave “o divórcio entre o mundo político e a sociedade brasileira”.

Repudia ainda “a falta de ética, que há décadas, se instalou e continua instalada em instituições públicas, empresas, grupos sociais e na atuação de inúmeros políticos que, traindo a missão para a qual foram eleitos, jogam a atividade política no descrédito”.

Constata ainda que “a apatia, o desencanto e o desinteresse pela política, que vemos crescer dia a dia no meio da população brasileira, inclusive nos movimentos sociais, têm sua raiz mais profunda em práticas políticas que comprometem a busca pelo bem comum, privilegiando interesses privados”.

Classifica também como grave “tirar a esperança do povo”.

Depois, fala da necessidade de “vencer a tentação do desânimo. Só uma reação do povo0, consciente e organizado, no exercício de sua cidadania, é capaz de purificar a política, banindo de seu meio aqueles que seguem o caminho da corrupção e do desprezo pelo bem comum”.

Incentiva a população a ser protagonista das mudanças de que o Brasil precisa, manifestando-se de forma pacifica, sempre que seus direitos e conquistas ficarem ameaçados.

Na postagem inicial erroneamente cobramos que a nota não se posicionava sobre a questão do Trabalho Escravo. Ela realmente nada fala a respeito porque, na verdade, o assunto foi abordado em uma outra nota oficial: Bispos repudiam Portaria nº 1.129 do Ministério do Trabalho do Governo Federal. Dela destacamos o seguinte trecho:

A desumana Portaria é um retrocesso que, na prática, faz fechar os olhos dos órgãos competentes do Governo Federal que têm a função de coibir e fiscalizar esse crime contra a humanidade e insere-se na perversa lógica financista que tem determinado os rumos do nosso país. Essa lógica desconsidera que “o dinheiro é para servir e não para governar” (Evangelii Gaudium, 58). O trabalho escravo é, hoje, uma moeda corrente que coloca o capital acima da pessoa humana, buscando o lucro sem limite (cf. Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, 2014)“.

Aos leitores e à CNBB pedimos desculpas pelo nosso erro de não ter visto esta segundas nota.

Porém, na nota sobre o Atual Momento Político, um alerta necessário nos dias atuais em que muitos pregam soluções extravagantes e antidemocráticas, se encontra pedido no meio do texto.

Ao longo de 29 linhas espalhadas por seis parágrafos, o alerta aparece na 17ª linha, sem maior destaque:

A defender a manifestação popular, mas não indicar de forma clara que rumo se deve tomar, a nota da CNBB pode abrir espaço para os que defendem movimentos como a Marcha Com Deus pela Familia que, em 1964, apoiou o golpe militar e a ditadura. Foto HISTORIAATIVA.NET

Urge ficar atentos, pois, situações com esta abrem espaço para salvadores da pátria, radicalismo e fundamentalismos que aumentam a crise e o sofrimento, especialmente dos mais pobres, além de ameaçar a democracia do país“.

Este o grande perigo por conta do passado da própria igreja. Convocar o povo às ruas para se manifestar é ótimo.

Mas, ao não se definir de forma clara a bandeira de luta – seja ela diretas Já, ou outra qualquer – acaba se abrindo espaço para “os salvadores da pátria” que surgirão defendendo intervenções, militares ou não.

Faltou defender a democracia e o Estado de Direito de forma mais explícita. Clara. Direta.

Quem conhece a CNBB de hoje e está atento ao que o Papa Francisco fala, certamente considerará difícil que a Igreja pregue uma nova Marcha de Deus Com a Família. Tal e qual ocorreu em 1964 quando ajudou a derrubar um governo legitimamente eleito e levou o país a 21 anos de ditadura militar.

Mas, nem todos a conhecem. Logo, a CNBB deveria ser mais clara e explícita para não dar margem a alimentar os “salvadores da pátria”, radicais e fundamentalistas.

Ou seja, a Igreja precisa descer do muro.

Leia a íntegra da nota da CNBB abaixo:

O Atual Momento Político segundo a CNBB

 
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3 Comentários

  1. C.Poivre disse:

    Será que a igreja católica está a par de situações como esta?

    Médico denuncia situação de calamidade extrema em hospital de Mato Grosso, onde trabalha:

    https://youtu.be/qYWDB-0PnAA

  2. Regina Maria de Souza disse:

    A ambiguidade é o caminho de uma igreja conservadora governada por um papa progressista. Sou (ou fui) católica pensando na igreja dos pobres, mas vi que a meta cobiçada é a celebração de rituais para as elites. Mas não generalizo: há ministros e missionários vocacionados ao trabalho com os pobres, mas aparecem pouco. É possível um paralelo com a OAB, outrora tão vibrante.

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